TEXTO: José de Oliveira Neves
Ao ler na revista “Reis 2009”, da Trupe da JOC-LOC, o belo trabalho de investigação do Padre Manuel Pires Bastos intitulado “A Indústria de Peles no Concelho de Ovar”, com uma referência à Fábrica de Curtumes outrora existente num terreno ao cimo da Rua do Loureiro, na convergência com a Rua Fernandes Tomás, junto ao actual Bairro da Misericórdia, pude recuar muitas décadas no tempo. [CLIQUE NOS LINKS A AZUL]
É que imediatamente me ocorreram à memória as brincadeiras de infância ali ocorridas com outros rapazes, moradores, como eu, em redor daquele local, bem como alguns acontecimentos que lá se consumaram.
Aquela propriedade, conhecida como “Quinta da Fábrica dos Coiros”, ou “Pinhal do Dr. Santiago”, conheci-a, na década 40, toda murada do lado sul, na direcção longitudinal, ao longo duma viela com rumo a Nascente, sendo o principal acesso fechado com um bonito portão de ferro, em frente à Rua do Loureiro.
![]() |
| Estendal de roupa no local da desaparecida Fábrica de Coiros |
Parte da propriedade era ocupada com a “Fábrica dos Coiros” e com algumas árvores de frutos, especialmente nogueiras, damasqueiros e figueiras, e nas traseiras, no restante terreno, conhecido como “o pinhal dos coiros”, cresciam, envoltos pelo mato, enormes eucaliptos e pinheiros de ramagem frondosa, onde se escondiam ninhos de pegas, poupas, melros, verdilhões e outras aves que na Primavera esvoaçavam pelos quintais confinantes, encantando-nos com os seus lindos gorjeios! (Algumas vezes encontrei poupas dentro de casa, e os verdilhões pousavam, em magotes, no chão do meu quintal!...)
A fábrica, já não a conheci a laborar, vistos que foi “implantada em 1920 e desactivada cerca de 1925”, como se indica na referida Revista, mas ainda me recordo do armazém em ruínas e dos tanques feitos de pedra, saibro e cal, que eram utilizados no tratamento dos curtumes, e que se encontram presentemente enterrados por baixo do entulho e cobertos por silvado.
Diziam os meus familiares que durou pouco tempo a laboração da fábrica, e que esta terá fechado devido ao cheiro nauseabundo que provocava, obrigando a vizinhança a fazer várias reclamações.
![]() |
| Grupo de escuteiros de Ovar num acampamento nos anos 40, com o Padre Torres (ao centro) |
Desses festejos, muito bonitos, que atraíram bastante gente àquele recinto, já quase ninguém hoje se recorda!... Eu, que tinha nessa data 6 anos incompletos, mantenho ainda viva a imagem do que vi, sem no entanto me ter apercebido, então, do que se tratava. (Só agora, ao encontrar no “João Semana” o relato deste acontecimento, pude fazer a ligação dos factos e recolher os elementos que deram origem a esta crónica).
Só escrevendo se pode fazer memória dos acontecimentos, que são temporais, perdendo-se com o avançar dos anos, como o fumo no espaço!...
Quem, actualmente, passa por aquele local e vê um terreno abandonado, com estendais de roupa pendurada nos arames, a secar ao sol, não faz ideia da paisagem diferente que outrora ali se desfrutava, e das ocorrências ali vividas na primeira metade do século passado!
Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Março de 2009)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com (TEXTO N.º 144)


Sem comentários:
Enviar um comentário