23.11.11

A Quinta da Fábrica dos Coiros

Jornal JOÃO SEMANA (01/03/2009)
TEXTO: José de Oliveira Neves

Ao ler na revista “Reis 2009”, da Trupe da JOC-LOC, o belo trabalho de investigação do Padre Manuel Pires Bastos intitulado “A Indústria de Peles no Concelho de Ovar”, com uma referência à Fábrica de Curtumes outrora existente num terreno ao cimo da Rua do Loureiro, na convergência com a Rua Fernandes Tomás, junto ao actual Bairro da Misericórdia, pude recuar muitas décadas no tempo. [CLIQUE NOS LINKS A AZUL]
É que imediatamente me ocorreram à memória as brincadeiras de infância ali ocorridas com outros rapazes, moradores, como eu, em redor daquele local, bem como alguns acontecimentos que lá se consumaram.
Aquela propriedade, conhecida como “Quinta da Fábrica dos Coiros”, ou “Pinhal do Dr. Santiago”, conheci-a, na década 40, toda murada do lado sul, na direcção longitudinal, ao longo duma viela com rumo a Nascente, sendo o principal acesso fechado com um bonito portão de ferro, em frente à Rua do Loureiro.

Estendal de roupa no local da desaparecida Fábrica de Coiros
Do Poente, e prosseguindo para Norte, a quinta era vedada com alguns metros de muro, seguido, até ao seu limite, por esteios de pedra, onde se enroscavam algumas fileiras de arame farpado, a par duma ruela estreita com saída para a “Estrumada” (nome da época), onde os vizinhos despejavam o entulho dos seus quintais, e que actualmente está transformada numa rua a que deram o nome de “Frei Luís de Santana”.
Parte da propriedade era ocupada com a “Fábrica dos Coiros” e com algumas árvores de frutos, especialmente nogueiras, damasqueiros e figueiras, e nas traseiras, no restante terreno, conhecido como “o pinhal dos coiros”, cresciam, envoltos pelo mato, enormes eucaliptos e pinheiros de ramagem frondosa, onde se escondiam ninhos de pegas, poupas, melros, verdilhões e outras aves que na Primavera esvoaçavam pelos quintais confinantes, encantando-nos com os seus lindos gorjeios! (Algumas vezes encontrei poupas dentro de casa, e os verdilhões pousavam, em magotes, no chão do meu quintal!...)
A fábrica, já não a conheci a laborar, vistos que foi “implantada em 1920 e desactivada cerca de 1925”, como se indica na referida Revista, mas ainda me recordo do armazém em ruínas e dos tanques feitos de pedra, saibro e cal, que eram utilizados no tratamento dos curtumes, e que se encontram presentemente enterrados por baixo do entulho e cobertos por silvado.
Diziam os meus familiares que durou pouco tempo a laboração da fábrica, e que esta terá fechado devido ao cheiro nauseabundo que provocava, obrigando a vizinhança a fazer várias reclamações.

Grupo de escuteiros de Ovar num acampamento nos anos 40,
com o Padre Torres (ao centro)
Em 28 de Julho de 1940, decorreu naquela propriedade o “Acampamento Anual de Escutas de Ovar”, actividade que durou três dias e que, segundo o “João Semana” de 8 de Agosto seguinte, foi muito animada. O recinto era fechado com uma parte arborizada, onde se instalaram as barracas, cozinha, etc., e outra sem arborização que, por iniciativa do assistente do Agrupamento, Sr. Padre Torres, foi iluminada com luz eléctrica. Ali foi levantado o altar para a missa campal, e se fez a “festa de campo” e o “fogo do conselho”, tudo muito concorrido, acrescentava o referido jornal, que citava ainda vários outros pormenores do evento, e trazia um agradecimento da direcção do grupo às famílias Santiago e Fidalgo, à Câmara Municipal e aos Serviços Municipalizados de Electricidade, a várias senhoras que prestaram o seu valioso concurso com a venda da flor, e aos escutas de Oliveira do Douro e Avintes, que tomaram parte no acampamento e em cuja “festa de campo” colaboraram.
Desses festejos, muito bonitos, que atraíram bastante gente àquele recinto, já quase ninguém hoje se recorda!... Eu, que tinha nessa data 6 anos incompletos, mantenho ainda viva a imagem do que vi, sem no entanto me ter apercebido, então, do que se tratava. (Só agora, ao encontrar no “João Semana” o relato deste acontecimento, pude fazer a ligação dos factos e recolher os elementos que deram origem a esta crónica).

Só escrevendo se pode fazer memória dos acontecimentos, que são temporais, perdendo-se com o avançar dos anos, como o fumo no espaço!...
Quem, actualmente, passa por aquele local e vê um terreno abandonado, com estendais de roupa pendurada nos arames, a secar ao sol, não faz ideia da paisagem diferente que outrora ali se desfrutava, e das ocorrências ali vividas na primeira metade do século passado!

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Março de 2009)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com (TEXTO N.º 144) 

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