17.11.11

Avivando a memória de um pioneiro da luz eléctrica em Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (01/03/1983)
TEXTO: Maria José vinga

Maria José Vinga
Vinha eu de uma reunião, eram 11h50 da noite. Noite de Novembro, escura. Noite feia, a adivinhar Inverno.
Vinha só. Por isso dava largas ao meu pensamento. Não tinha medo, porque as ruas estavam bastante iluminadas, e a força da luz tinha varrido da minha imaginação toda a espécie de receios.
Vinha paulatinamente, pensando no valor e nas propriedades da luz. Sim, da luz, a primeira e melhor coisa que Deus criou. A luz, em si, é vida, alegria, e o encanto de tudo. Sem luz, não há beleza.
A luz, nessa noite, estava brilhante, esplêndida. Esbatendo-se nas casas, tornava-as claras, verídicas, reais.
Lembrei-me, então, dos velhos tempos em que não havia luz eléctrica, em que a iluminação era feita por candeeiros a petróleo, com os vidros enfarruscados pelo fumo, e que, a horas tardias como esta, já deveriam estar a extinguir-se, por falta de combustível. Que diferença!
Confortada com o brilho daquela boa luz, meu pensamento voltou-se para o céu, numa prece bem sentida pelo autor deste invento e pelo grande homem que tanto se esforçou por introduzi-lo em Ovar. Foi ele o Dr. José Nogueira Dias de Almeida.

José Nogueira Dias de Almeida
Conheci muito bem este prestante cidadão e médico, que foi meu professor no Colégio Júlio Dinis, em 1916 e 1917. Era natural da Póvoa da Rainha, concelho de Gouveia, no distrito da Guarda. Estudou Medicina em Coimbra, onde se formou com boa classificação. Vindo para Ovar, contratado pela Câmara para atender, como médico, todos os podres e todos quantos a ele recorressem, aqui casando e estabelecendo o seu lar.
Foi, para Ovar, um verdadeiro filho, sempre lutador, cheio de génio, de bondade e de saber.
Não sendo político, sempre batalhou pelo progresso de Ovar. A ele se deve a ideia e o arranque de uma estrada que ligaria a nossa vila a Pardilhó, a partir do novo Matadouro, construído em terrenos seus, após permuta amigável com a Câmara. Para que a estrada fosse possível (e só agora passou a sê-lo em parte!) comprou várias parcelas de terra naquela zona. Essa estrada, que começava em propriedade suas, era, naquele tempo, de grande interesse regional, pois não havia transportes públicos, e vinha muita gente de Pardilhó à nossa Praça, a pé, com esteiras, vassouras de junco, cestos e outras utilidades, para além dos almocreves, que aqui vinham comprar diariamente sardinha.
Desde 1903 que em Ovar se começara a falar em iluminar a vila com luz eléctrica. De 1907 a 1909 o desejo cresceu, e um grupo de cinco homens, dos mais abastados e corajosos, começou a mexer-se, formando uma sociedade. Eram eles: José de Oliveira Lopes, Afonso José Martins, Dr. António Baptista Zagalo dos Santos, João Ferreira Coelho e Dr. António dos Santos Sobreira.
Apesar da boa vontade de todos eles, faltava qualquer coisa que desse o impulso decisivo ao arranque da ideia. É que nem todos os vareiros compreendiam o alcance da iniciativa, e alguns comerciantes locais, de quem esperavam colaboração, iam adiando a sua adesão de mês para mês, enquanto as ruas continuavam com lampiões.

A Companhia Portuguesa de Iluminação e Tracção de Ovar
Mas eis que em 1911 entra na liça o Dr. Almeida. Construindo uma pequena casa junto ao rio Cáster, que passava pelo meio da sua quinta, situada em frente da Igreja, ali assentou um motor que extraía água em abundância, água que ele encanou através de tubos de ferro ao longo da sua propriedade e, depois, pela estrada (Rua Gomes Freire) até à fabrica, onde ainda hoje funcionam os Serviços Municipalizados. Ali, ao fundo do actual pátio de serviço, construiu ele um grande tanque, hoje transformado em oficina e garagem.
O edifício principal fez-se depois. Na fachada, lia-se: “Iluminação e Tracção” (A Companhia Portuguesa de Iluminação e Tracção de Ovar, então formada, tinha tenções de levar até ao Furadouro a tracção eléctrica…).
O pavimento da fábrica era em cimento, mas, para trás, era mais baixo, em chão batido. Ali estava a caldeira com um grande forno sempre a arder, para onde metiam, à pá, toda a espécie de cepos, cascas secas de pinheiro, etc. Com a água a ferver, eram movidos os dínamos. Era assim, rudemente, que se fazia a energia eléctrica em Ovar.
Nos Reis de 1913, um grupo de reiseiros que eu ouvi cantar, à tardinha, junto da porta do Ferreira Dias, na Poça, cantava assim:

Luz eléctrica cá p’ra Ovar
Deve vir já, de repente,
Porque fica mais barata,
Cá na terra, a toda a gente.

Nossa terra iluminada
Alegra meu coração.
Dai pressa à malfadada,
Deitai fora o lampião!

Por aqui se vê a ansiedade com que todos esperavam a electricidade, que só em Outubro seguinte foi experimentada pela primeira vez. Logo em Novembro se fizeram mais duas experiências, acabando por se inaugurar no dia 1.º de Dezembro.
Ovar orgulhava-se, então, de ser uma das primeiras terras do País e a segunda do Distrito, depois de Espinho, a ser iluminada pela luz eléctrica! Não é possível descrever aqui a alegria que todos sentimos. Isso gastaria páginas do “João Semana”!
A realização desta grande obra foi conseguida através de acções, papéis que toda a gente comprava mas dos quais, segundo creio, ninguém recebeu quaisquer juros.
Por tudo isto se conclui que, se Ovar teve electricidade assim tão cedo, isso em grande parte se ficou a dever à energia, à coragem, ao saber e à generosidade do Dr. Almeida. E eu acho que a nossa terra não deveria esquecer isto. Até porque, no último mês de Novembro, quando tantos enfeitavam o nosso Cemitério, entristeci-me ao ver a acampa deste ilustre finado. Uma simples pedra de granito, escura, grosseira, sem qualquer data, cobre os seus restos mortais e os de sua Família. Impressionou-me tanta humildade e esquecimento. Nem uma flor, nem uma luz para quem tanto trabalhou pela nossa terra!
Daqui lançamos um apelo aos Serviços de Electricidade – agora a cargo da EDP – para que algo se faça para avivar a memória deste pioneiro da luz eléctrica em Ovar.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de Março de 1983)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2011/11/avivando-memoria-de-um-pioneiro-da-luz.html

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