14.10.11

Lembranças do velho Teatro Ovarense

Jornal JOÃO SEMANA (01/11/2004)
TEXTO: Mário Miranda

Foi inaugurado em 1875, a partir de uma Sociedade constituída por acções e formada por pessoas ligadas a grupos locais de Teatro. Em 1899, num período de crise, uma grande parte dos accionistas ofereceu as suas acções aos Bombeiros, que, algum tempo depois, se assumiram como proprietários do edifício, acrescentando-o com a sala sul. A ala de espectáculos era, segundo se afirmava, uma réplica do Teatro Baquet, do Porto, vítima do fogo em 1888.

O velho Teatro Ovarense
Fiz parte de uma Comissão, o chamado grupo de Reflexão Pró-Ovar que, no intuito de não deixar morrer o velho Teatro, alertou a Câmara e a população vareira para a sua reconstrução. Isto no tempo em que as paredes ainda estavam de pé! Essa comissão era constituída por Cascais de Pinho, Dr.ª Deolinda Palavra, Mário Carapinha, José Maria da Graça, Armindo Pereira e Mário Miranda.
Apesar de se dar, hoje, muita importância às coisas muito antigas, ao nosso velho Cine-Teatro deixaram-no cair em ruínas!
Estou a lembrar-me dele, no tempos em que pedia à minha mãe cinco tostões para um bilhete da geral na matiné do Cinema, e ela me dizia que era muito caro! Devia ter uns 9 anos. (Já lá vão 80!)
Era uma sala pequena, muito aconchegada, com boa acústica, uma plateia muito jeitosa, uma geral composta por quatro bancadas extensas, ao comprido com a plateia e separada desta por um varandim em madeira, e pintada com arabescos. Os camarotes ficavam por cima da geral, e a entrada fazia-se pelo extremo norte.
O palco tinha um tamanho razoável em relação à sala, que era pequena.
Tudo isto eu conheci desde criança. E não posso esquecer-me de muitos filmes que ali vi, com dois artistas cómicos, Pat e Patachon, um alto e outro baixo, que eram impagáveis, e que a miudagem já não dispensava. Um outro artista admirado era o nosso conhecido Charlot, que aparecia em muitas curtas-metragens. Quando estes filmes cómicos eram exibidos, a geral ficava superlotada.
Um pouco posteriormente, apreciei ali um outro actor cómico, com muita graça, Harold Loyd. Parece que ainda estou a vê-lo, agarrado aos ponteiros de um relógio, num edifício muito alto, em Nova Iorque. (Nesse tempo, ainda não havia muitos edifícios em altura, os chamados arranha-céus). Tudo isto de tal modo me ficou gravado na memória, que nunca mais o esquecerei.
Mais tarde, vi ali um outro filme, “Barqueiros do Volga”, acompanhado de uma bonita canção. Quando o filme aqui chegou, já havia pessoas que conheciam bem a música, tal a sua divulgação através do país. O projectista e arrendatário do cinema, o “Sr. Soares Pais”, como nós o conhecíamos, colocou o disco na grafonola e, porque a sala era pequena e com boa acústica, a canção ouvia-se perfeitamente em todo o lado. Curiosamente, o disco entrou em funcionamento precisamente quando os barqueiros puxavam, desde a margem, com cordas, a embarcação, havendo perfeita sintonia entre os barqueiros e a assistência, todos eles a cantarolarem em uníssono.
Foi um sucesso na época, quando já se falava no cinema sonoro, sobretudo através da canção “Teodoro Não Vás ao Sonoro”, cantada numa Revista de Lisboa.

Largo dos Combatentes, com o Teatro Ovarense no lado direito
Antes de começar cada sessão de cinema, Soares Pais vinha cá fora ver se chegavam os “habituais” retardatários. Só que a miudagem não compreendia o atraso, e já então manifestava o seu protesto, fazendo um barulho ensurdecedor.
A propósito: creio ter sido no princípio da minha adolescência que vi, em Espinho, no Cinema do Casino Peninsular, como então se chamava, o primeiro filme sonoro com estreia mundial, chamado “Cantor Louco”, com All Johnson.
Uma particularidade do nosso velho Teatro era receber grandes companhias teatrais vindas de Lisboa, a caminho do Porto, e que gostavam de dar aqui um espectáculo, como se fosse um ensaio geral, para aquilatarem, pela reacção do público ovarense, o sucesso que poderiam ter na Cidade Invicta.
Cheguei a ver uma dessas companhias, vindas no Sud-Expresso, um comboio rápido, com um bom salão, que excepcionalmente parou em Ovar. Tratava-se da Companhia, muito afamada, de Chaby Pinheiro, grande actor e pessoa de estatura avantajada, que vi embarcar na estação dos caminhos-de-ferro em direcção ao Norte.

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Novembro de 2004)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com (TEXTO N.º 141) 

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