18.9.11

Padre José Ribeiro de Araújo – Protector da minha vida

Jornal JOÃO SEMANA (15/08/2010)
TEXTO: Mário Ferreira Carapinha

Em 20 de Junho último [20/06/2010], na missa das 11 horas da Igreja Matriz, fui surpreendido por um grupo coral de Perosinho – Vila Nova de Gaia –, que aqui se deslocou em homenagem ao seu conterrâneo e antigo cura de Ovar Padre José Ribeiro de Araújo, um dos fundadores do jornal “João Semana” e do Grupo 66 dos Escuteiros de Ovar.

Padre José Ribeiro de Araújo,
um dos fundadores do jornal “João Semana”
Acontece que eu tenho uma dívida enorme para com o Padre Ribeiro de Araújo, pois a ele devo o arranque da minha vida espiritual e económica.
Tinha eu cinco anos quando meu pai, dono de uma oficina de marmorista em frente à sua casa, faleceu com a pneumónica, aos 38 anos, deixando a minha mãe viúva, com cinco filhos menores – o mais velho com dez anos –, sem possibilidade alguma de nos manter. O meu avô paterno morreu no alto mar, de regresso do Brasil. O seu espólio, que continha cheques de sete milhões de marcos (moeda alemã), que ainda tenho em meu poder, só foi entregue a minha mãe passados dois anos, o que veio a impedir o seu recebimento, pois a Alemanha, derrotada na Grande Guerra de 1914/18, tinha decretado a bancarrota.
Por sua vez, o primo de minha mãe, Dr. Joaquim Soares Pinto, por ser monárquico, teve de fugir para Espanha, onde foi acolhido em Vigo, no convento dos Franciscanos, aos quais, como retribuição deste gesto, deixou, à sua morte, o saldo da sua conta em Londres, no montante de alguns milhares de contos. (Os seus imóveis foram deixados à Santa Casa da Misericórdia de Ovar, com a recomendação de que o usufruto dos mesmos fosse para minha mãe e suas duas irmãs, usufruto que nunca receberam.)
Com estas contrariedades, não tivemos outro remédio senão ir apanhar lenha aos pinhais, ir às compras de nossos vizinhos, pedir-lhes um caldo, ou um naco de pão…
E assim fomos andando, até que o Padre Ribeiro de Araújo, comovido com a nossa situação financeira, me convidou a ajudá-lo à missa, tinha eu 8 anos. Como naquele tempo havia oito padres em Ovar, celebrando missa diariamente, lá ia angariando uns tostões.
Feita a 4.ª classe, a minha mãe, que era contemporânea do Manuel Ramada, foi-lhe pedir para me deixar trabalhar na sua fábrica, ao que ele acedeu. Mas quando a minha mãe me disse para a acompanhar àquela empresa, eu recusei, dizendo-lhe que antes queria ir estudar.
Naquele tempo apenas havia liceus no Porto e em Aveiro, o que exigia gastos com deslocações, que a nossa bolsa não aguentava.
Passados dois anos, o Padre Ribeiro de Araújo, não me vendo ir trabalhar, perguntou a minha mãe: – E se for estudar para Padre?. Quando a minha mãe me questionou sobre o assunto, eu respondi: – Eu quero é ir estudar, seja para o que for!.
Então, o Padre Ribeiro de Araújo, baseado no meu parentesco com o Dr. Soares Pinto, benemérito dos franciscanos, telefonou para o colégio destes, em Braga, tendo-lhe sido respondido que podia aparecer lá naquele dia. A minha mãe ainda lhe disse que eu não tinha roupa própria para levar, mas a resposta foi: – Venha hoje mesmo, com o que traz vestido. E lá fui eu, sozinho, até Braga, com treze anos. Na estação, perguntei onde era o colégio dos Franciscanos, tendo-me sido dito que era distante, em Montariol. E lá fui eu percorrer cinco quilómetros, pergunta aqui, pergunta ali, até que cheguei ao meu destino.
Em Montariol andei até ao sexto ano, passando sempre com médias de dezasseis valores. Até que, não tendo os meus superiores notado em mim sinais de vocação sacerdotal, tive de sair do Colégio em 1939.
Um dia, defrontei-me na rua, em Ovar, com o Padre Ribeiro, que me interrogou sobre a minha situação. Logo no dia seguinte ele foi encontrar-se com o Dr. Nunes da Silva, nosso médico, com quem se abriu sobre o meu caso. Este, também informado sobre a situação penosa de minha mãe, telefonou para um nosso primo, Dr. António Sobreira, director do Banco Nacional Ultramarino, em Lisboa, que logo disse estar aberto um concurso de admissão de novos empregados. E assim, depois de umas curtas explicações do Sr. Gama, da papelaria Carvalho, sobre a resolução de problemas, lá fui incluído no concurso dos candidatos ao Banco. No dia próprio fui para Aveiro, e não me sentindo capaz de resolver um problema constante da prova, mas tendo levado comigo uns apontamentos, consultei-os às escondidas, e, pouco depois, saí para a rua. Cá fora, à medida que chegavam os outros concorrentes, e perguntando-lhes o resultado do problema, todos apresentavam o mesmo resultado, diferente do meu. E lá regressámos a casa, eles cantando de alegria, e eu naturalmente entristecido. Chegados a Ovar, ao passar pela Papelaria Carvalho, foi perguntado ao grupo quem tinha resolvido melhor o teste do concurso. Resposta: Todos fizemos certo, excepto o Mário. E o Gama, decepcionado comigo, ripostou: – Então tu, Mário, que és o mais necessitado, tiveste o pássaro na mão e deixaste-o fugir? E perguntou: – Ora digam lá qual é o problema! Escreveu-o, resolveu-o, e disse: dá tanto. E eu disse-lhe: – Essa é a conclusão a que eu cheguei. – Então só tu é que passaste. Parabéns.
Quando me encontrou, o Padre Ribeiro de Araújo, que já tinha sido informado do meu êxito, também me deu os parabéns.
Passados uns dias, fui convocado para me apresentar na agência do Banco em Lamego. Acontece que, entrementes, tinha ido à inspecção militar e, pouco depois, fui convocado para me apresentar no Quartel de Metralhadoras Três, no Porto, ficando, assim, suspensa a minha entrada na actividade bancária. Até 1945, já que, depois de ter saído da tropa, fui colocado na agência do Banco em Ovar.
Perante esta minha odisseia, cumpre-me pedir a Deus que recompense o Padre Ribeiro de Araújo por todo o bem que me proporcionou. E, porque diz o ditado “quem faz um cesto, faz um cento”, ponho-me a imaginar quantos necessitados vareiros não terá o Padre contemplado com benemerências similares. Alguém o sabe? Está no segredo de Deus!

Artigos publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de Agosto de 2010)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2011/09/padre-jose-ribeiro-de-araujo-protector.html

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