TEXTO: A. A. C.
As actuais capelas dos Passos da vila de Ovar – Pretório, 1.ª Queda, Encontro, Cireneu, Verónica, Filhas de Jerusalém e Calvário –, sucessoras de outras, portáteis e com figuras de palha, foram começadas a construir, em pedra e cal, em 1748, estando prontas de trolharia e talha em 1755. Para a sua edificação teve de recorrer-se ao auxílio dos poderes públicos, pedindo-se em seu benefício o imposto de um real em cada quartilho de vinho que se vendesse em Ovar e seu termo. A provisão régia que tal graça concede é de 1747. Embora tenha desaparecido do arquivo da Irmandade, encontra-se memória desse documento nos livros pertencentes ao mesmo arquivo.
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| Capela do Calvário (Ovar) |
O real custeou não só as despesas da obra mas também a compra de paramentos e alfaias de muito valor, em prata, seda e ouro, que, em parte, ainda hoje existem.
Com breves intervalos, o real correu até 1830, pelo menos, pois disso se encontra nota nos livros supra referidos, num dos quais Frei António de S. Jerónimo Ferreira escreveu à margem, em 1830: «ainda corre o rial dos Passos».
Até 1747, as mesas da Confraria eram compostas, em regra, por anónimos, presididos por um sacerdote; desde então, porém, começam a figurar nessas corporações administrativas os nomes mais graduados. Donde concluímos que, por essa data, se despertou nesta vila maior devoção e entusiasmo pelo culto dos Passos, entusiasmo e devoção que chegou às camadas superiores da sociedade ovarense, o que explica perfeitamente a ideia de levantar na rua da Amargura, mais tarde rua da Fonte e actualmente rua Alexandre Herculano, e outros locais, essa obra dispendiosa das capelas a pedra e cal.
Ignoramos quem fosse o empreiteiro delas. Só sabemos que deixaram, desde logo, muitíssimo a desejar em elegância e solidez. E assim, já em 1783 tiveram de sofrer uma reforma radical, por se acharem muito arruinadas, como o refere a acta da eleição desse ano.É também desconhecido o autor da talha e escultura. A pintura e encarnação foram obra de António José Pintor, da vizinha freguesia de Válega, artista de fama que legou à sua família o nome de Pintor, por que é ainda hoje conhecida. A esse artista intimou o provedor de Esgueira, a pedido da Mesa, em 1760, que se esmerasse na decoração das capelas, a essa data – e ainda anos depois – inconclusas interiormente.
O trabalho de pedreiro e trolha estava pronto em 1755, como dito fica. Nesse ano a Mesa aceitou a obra, depois de a mandar vistoriar e avaliar por dois peritos que foi «procurar e buscar ao Porto», um para a talha, outro para o restante. Foi então que se começou a substituir as figuras de colmo por outras de escultura, pintadas e estofadas, aproveitando-se das antigas as mãos, pés e cabeças.
Esta reforma, iniciada em 1756, durou alguns anos, operando-se lentamente. Veio a gastar-se, em toda ela, desde 1748, conta redonda, 30 contos de reis, incluindo a compra de algumas alfaias.
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| Capela do Calvário |
Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Abril de 1977)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com (TEXTO N.º 140)


2 comentários:
A fotografia que deu origem ao postal é da autoria do fotógrafo ovarense Mário de Almeida do Estúdio Almeida
Boa noite,
Tem mais alguma informação sobre o referido Padre Manuel de Resende?
Desde já agradeço a atenção.
Cumprimentos,
André Lopes Cardoso
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