21.9.11

Capelas dos Passos em Ovar – Monumentos de interesse nacional

Jornal JOÃO SEMANA (15/04/1977)
TEXTO: A. A. C.

As actuais capelas dos Passos da vila de Ovar – Pretório, 1.ª Queda, Encontro, Cireneu, Verónica, Filhas de Jerusalém e Calvário –, sucessoras de outras, portáteis e com figuras de palha, foram começadas a construir, em pedra e cal, em 1748, estando prontas de trolharia e talha em 1755. Para a sua edificação teve de recorrer-se ao auxílio dos poderes públicos, pedindo-se em seu benefício o imposto de um real em cada quartilho de vinho que se vendesse em Ovar e seu termo. A provisão régia que tal graça concede é de 1747. Embora tenha desaparecido do arquivo da Irmandade, encontra-se memória desse documento nos livros pertencentes ao mesmo arquivo.

Capela do Calvário (Ovar)
O real custeou não só as despesas da obra mas também a compra de paramentos e alfaias de muito valor, em prata, seda e ouro, que, em parte, ainda hoje existem.
Com breves intervalos, o real correu até 1830, pelo menos, pois disso se encontra nota nos livros supra referidos, num dos quais Frei António de S. Jerónimo Ferreira escreveu à margem, em 1830: «ainda corre o rial dos Passos».
Até 1747, as mesas da Confraria eram compostas, em regra, por anónimos, presididos por um sacerdote; desde então, porém, começam a figurar nessas corporações administrativas os nomes mais graduados. Donde concluímos que, por essa data, se despertou nesta vila maior devoção e entusiasmo pelo culto dos Passos, entusiasmo e devoção que chegou às camadas superiores da sociedade ovarense, o que explica perfeitamente a ideia de levantar na rua da Amargura, mais tarde rua da Fonte e actualmente rua Alexandre Herculano, e outros locais, essa obra dispendiosa das capelas a pedra e cal.
Ignoramos quem fosse o empreiteiro delas. Só sabemos que deixaram, desde logo, muitíssimo a desejar em elegância e solidez. E assim, já em 1783 tiveram de sofrer uma reforma radical, por se acharem muito arruinadas, como o refere a acta da eleição desse ano.
É também desconhecido o autor da talha e escultura. A pintura e encarnação foram obra de António José Pintor, da vizinha freguesia de Válega, artista de fama que legou à sua família o nome de Pintor, por que é ainda hoje conhecida. A esse artista intimou o provedor de Esgueira, a pedido da Mesa, em 1760, que se esmerasse na decoração das capelas, a essa data – e ainda anos depois – inconclusas interiormente.
O trabalho de pedreiro e trolha estava pronto em 1755, como dito fica. Nesse ano a Mesa aceitou a obra, depois de a mandar vistoriar e avaliar por dois peritos que foi «procurar e buscar ao Porto», um para a talha, outro para o restante. Foi então que se começou a substituir as figuras de colmo por outras de escultura, pintadas e estofadas, aproveitando-se das antigas as mãos, pés e cabeças.
Esta reforma, iniciada em 1756, durou alguns anos, operando-se lentamente. Veio a gastar-se, em toda ela, desde 1748, conta redonda, 30 contos de reis, incluindo a compra de algumas alfaias.

Capela do Calvário
Pomos fim a este capítulo com os nomes da Mesa que geria a Irmandade quando se lançaram os alicerces das capelas e se lhes arranjaram os indispensáveis auxílios para sua construção, tornando-se benemerente e digna de menção: Padre Manuel de Resende (do Outeiro), Fernando Pereira de Carvalho, Manuel Dias (do Outeiro), Manuel de Oliveira Gomes, Bernardo Gomes Fontela (do Areal das Ribas), Manuel de Almeida Tanoeiro (da Praça), António de Oliveira Coelho (dos Campos), Dionísio de Oliveira Patola, Francisco Rodrigues Aleixo (da Ribeira), Manuel Rodrigues Treze (da Ruela), Francisco Rodrigues Lírio (da Ruela), Manuel Francisco Caramujeiro (da Ruela), Salvador Ferreira (de S. João) e José Marques (da Quinta, Guilhovai).

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Abril de 1977)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com (TEXTO N.º 140) 

2 comentários:

Aida Freitas Ferreira disse...

A fotografia que deu origem ao postal é da autoria do fotógrafo ovarense Mário de Almeida do Estúdio Almeida

André Lopes Cardoso disse...

Boa noite,
Tem mais alguma informação sobre o referido Padre Manuel de Resende?

Desde já agradeço a atenção.

Cumprimentos,
André Lopes Cardoso