23.8.11

Professor José Macedo Fragateiro

Jornal JOÃO SEMANA (15/05/2011)
José Macedo Fragateiro
 quando estudante
TEXTO: Fernando Pinto

Manuel Malícia escrevia no “João Semana” de 1 de Dezembro de 1991, poucos dias após o falecimento do nosso colaborador Dr. José Macedo Fragateiro, que “o Professor gastou todos os seus dias, chegando ao ponto de ‘secundarizar’ a própria família, na defesa de valores em que acreditava, seguindo os nobres princípios universais transmitidos pela Revolução Francesa: Liberdade, Igualdade, Fraternidade e Solidariedade”.
O Professor Fragateiro, apesar de ter nascido no Alentejo, em Portel, lutou muito pela terra de seu pai, que o recebeu de braços abertos. E foi em Ovar que deixou a sua marca, o seu ex-libris.

Se o nosso colaborador Dr. José Macedo Fragateiro estivesse entre nós, teria apagado, no passado dia 7 de Maio, 93 velas.
Soube do seu desaparecimento através deste jornal, porque me encontrava a cumprir serviço militar em Alfragide, como fotógrafo do Estado-Maior da Força Aérea. Não imaginam a tristeza que senti ao ler, no “João Semana” de 15 de Dezembro de 1991, que este meu amigo tinha partido no dia 18 do mês anterior.
Hoje, passados quase 20 anos de nos ter deixado, vou partilhar com o leitor alguns dos momentos vividos ao lado deste homem bom, que se entregou de alma e coração à Escola Secundária n.º 1 – a comemorar este ano as suas Bodas de Ouro –, de cujo Conselho Directivo foi Presidente durante 11 anos, e da qual passou a ser Patrono.

Na Escola Industrial
Conheci o Prof. Fragateiro na minha adolescência, na década de 80, quando passei do Ciclo para a Escola Industrial. Certo dia, estava na cantina a estudar para um teste, quando senti uma mão agarrar o meu braço. Enquanto atravessávamos o Polivalente, na direcção do Conselho Directivo, mil e uma coisas passaram pela cabeça dos meus colegas de turma. O que é que o Fernando teria feito para merecer um castigo do Prof. Fragateiro?
Chegados à sala, mandou-me sentar. Pousou os livros e os jornais em cima da mesa, e disse num tom meigo, paternal, que ainda hoje guardo na memória:
– “Vai ficar aqui sentado, ao pé de mim, a estudar”.
De quando em vez, olhava para ele, e apreciava a forma como se entregava à leitura. A partir daquele dia, passei a admirar aquele homem recto, de semblante sério. Os meus colegas de turma, esses, demoraram ainda algum tempo a perceber o que realmente me havia acontecido.

Na fábrica de papel
Voltei a cruzar-me com o Prof. Fragateiro, desta vez fora dos muros da escola. Como morava na Ponte Reada, perto da fábrica de papel “Fapovar”, era costume vê-lo ficar tardes inteiras à procura de livros no meio dos fardos. (Na época, chegavam camiões com bibliotecas de particulares, entretanto falecidos, para serem transformadas em pasta de papel). Ao lado da fábrica, existia um pequeno campo de futebol onde eu treinava antes de ir jogar para o campo da ADO com a minha equipa de juniores da Ovarense. Numa dessas peladinhas, um dos meus amigos de infância pontapeou a bola com mais força, e esta foi parar junto aos pés do Prof. Fragateiro. (Na noite anterior tinha chovido muito, e o caminho de terra batida que ia dar ao Sobral Velho estava enlameado, não permitindo a circulação de veículos ligeiros). Como ninguém queria sujar as chuteiras, fui eu buscar a bola. Ao ver-me aproximar, pediu educadamente:
– “Venha cá! Ajude-me a levar estes livros para o meu carro”.
Peguei na pilha de livros que estava no chão e ajudei o Professor a colocá-los na mala do carro, que se encontrava a uns bons metros dali. A partir daí, sempre que o via chegar à fábrica de papel, ajudava-o a encontrar alguns livros que estivessem em bom estado, de forma a enriquecer a Biblioteca da minha Escola. E fazia-o com grande satisfação, porque, como o Prof. Fragateiro dizia, em jeito de desabafo, era um crime deixar que todos aqueles tesouros fossem parar às bocas esfomeadas das mós de pedra da fábrica de papel.

“O Arrasto”
Comecei a trabalhar no jornal “João Semana” em Fevereiro de 1990, tendo como Director o saudoso José Manuel Ferreira Casaca, outro homem de quem guardo boas recordações.
Nesse ano, o Padre Bastos e os nossos colaboradores Manuel Malícia e José Macedo Fragateiro lançaram a ideia da publicação de um suplemento cultural. Juntaram-se na redacção do jornal para lhe dar um nome que estivesse relacionado com Ovar. “A Canastra”, “O Rapichel”, foram alguns dos títulos sugeridos. A certa altura, ganhei coragem, interrompi a conversa, e atirei para o ar: “E que tal Arrasto?” O Professor José Fragateiro olhou para o Padre Bastos, e disse: "O Arrasto... A mim não me parece mal...”.
No dia 1 de Setembro de 1990, no n.º 1 de “O Arrasto”, os leitores do “João Semana” puderam ler, entre outros textos, “O Mar e a Ria no Pensamento de Raul Brandão”, escrito pelo punho do Prof. Fragateiro, que viria a publicar nos números seguintes deste suplemento cultural, coordenado por Manuel Malícia, “Um Poeta da Solidão – Octavio Paz, Poeta e Sociólogo”, “Anton Tchekov”, e “Cesário Verde”.

José Macedo Fragateiro
... ´´Povo! No pano cru rasgado das camisas
Uma bandeira penso que transluz!
Com ela sofres, bebes, agonizas;
Listrões de vinho lançam-lhe divisas,
E os suspensórios traçam-lhe uma cruz!”

(Cesário Verde, in Cristalizações)

No dia em que estava a passar para o computador os versos deste poeta português que em cima transcrevemos, o Professor perguntou-me:
– “Gosta de poesia?”
Disse-lhe que sim, acenando com a cabeça.
Dias mais tarde, apareceu na redacção do “João Semana” com a “Obra Completa de Cesário Verde” e ofereceu-ma.
Pequenos gestos como este dizem muito do seu gosto pelos livros e pela partilha do saber com as pessoas que o rodeavam.
O último texto que me ditou falava de Virgínia Woolf, que viria a ser publicado na edição de 15 de Junho de 1991 do “João Semana”. Sempre que oiço falar desta escritora inglesa lembro-me desse dia, do Professor Fragateiro...
A quem não teve o privilégio de conhecer esta ilustre figura ovarense aconselho a leitura do “Dicionário da História de Ovar”, de seu primo Alberto Sousa Lamy, e do artigo “Dr. José Macedo Fragateiro – Recordando o político e o pedagogo”, do nosso colaborador José de Oliveira Neves. [CLIQUE NO LINK A AZUL]

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Maio de 2011)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com (TEXTO N.º 136)

1 comentário:

Álvaro Quintas disse...

Os artigos estão muito bem redigidos e revelam bem a sabedoria e o carácter excepcional do saudoso Dr. José Fragateiro