TEXTO: Manuel Pires Bastos
Desde há séculos que S. Domingos de Gusmão anda ligado iconograficamente a Ovar por via do culto mariano. Ele, que foi um paladino da devoção do Rosário, está representado no altar desta invocação, na nave direita da matriz, altar que, como o indica a esplendorosa talha do seu retábulo, de colunas salomónicas, data do último quartel do século XVII, da fase de transição para o barroco, contemporâneo da configuração actual da Igreja. (Sabe-se que o culto a Nossa Senhora do Rosário já existia na Igreja anterior, de uma só nave,).
A imaginária deste riquíssimo altar tem como tema único a devoção mariana, tal como se constata na gravura ao lado:
1 – A imagem da titular, de excelente confecção, em madeira policroma, é expressiva e bela, tendo o Menino nos braços e um rosário pendente das mãos. Rodeiam-na, no plano central, raios de luz e anjos sustentando rosas.
2 – Nos panos laterais, entre as quatro colunas, encaixam-se quatro baixos-relevos alusivos a outros tantos momentos da infância de Jesus: Anunciação e Nascimento, à esquerda, e Circuncisão e Adoração dos Magos, à direita.
3 – Sob as bases das colunas, figuram, em dois destes baixos-relevos: no da esquerda, a Senhora do Rosário com S. Domingos e Santa Catarina de Sena; no da direita a Senhora do Rosário com o Menino Jesus e Santo António. Nos do centro, Nossa Senhora com seus pais (Santa Ana e S. Joaquim), e S. José com o Menino.
4 – Ao alto, no centro do tímpano, a Assunção da Virgem.5 – Nas colunas centrais, de enrolamentos ténues, de estilo renascentista, emergem quatro virtudes em figurinhas alegóricas: Fé, Fortaleza, Temperança e Justiça.
2 – O painel de S. Domingos
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| Nossa Senhora entregando o Rosário a S. Domingos |
A cena ali representada inspira-se numa piedosa tradição que refere ter N.ª Sr.ª aparecido ao Santo, então preocupado com a conversão dos hereges albigenses, sugerindo-lhe, como garantia de sucesso, que espalhasse a devoção do Rosário.
A Virgem, tal como o Menino, que se apresenta desnudo, ao seu colo, está coroada, e rodeada de anjos. A seus pés, S. Domingos, com uma açucena na mão esquerda, recebe, na direita, o rosário, tendo a seu lado um cão que segura, na boca, uma tocha acesa. (A açucena é símbolo da pureza, e a tocha acesa, enxergada, num sonho, por sua mãe grávida, simboliza a vocação do futuro evangelizador (“Vós sois a luz do mundo”).
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| Nossa Senhora dando o Rosário a São Domingos. À direita, S. Francisco de Assis (registo em azulejo na Casa-Museu da Ordem Terceira de Ovar) |
| Quadro de Bento Coelho (1620-1708) (Clique na imagem para aumentar) |
Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 DE AGOSTO DE 2001)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2011/08/o-culto-sao-domingos-em-ovar.html
ADENDA -----------------------------------------
Após um restauro
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| Painel de S. Domingos recebendo o Rosário (Igreja Matriz de Ovar) Antes do restauro (Maio de 2007) e na actualidade |
Quando de uma intervenção de restauro feita neste altar do Rosário, após a publicação deste artigo, foram refeitas neste painel as mãos direitas da Virgem e de S. Domingos (entregando e recebendo um terço,) bem como a coroa de espinhos de Santa Catarina, peças que tinham sido vítimas de qualquer acidente involuntário ocorrido no decurso de três séculos bem medidos, e cujo desenho e características exactas se desconhecem. Opção discutível. Mais um tira-teimas para os curiosos da Iconografia…
Fraternidade Dominicana
Sucedendo a uma antiga Confraria do Rosário que em 2 de Fevereiro de 1935 tinha como assistente espiritual o Padre Cura de Ovar Padre José Ribeiro de Araújo, e que estava ligada à Ordem de S. Domingos, foi fundada em 12 de Outubro de 1935, a Fraternidade Dominicana na Paróquia de Ovar, que teve como primeiro assistente religioso Frei Gil Alferes, e como primeira presidentes (Prioresa) D. Palmira Freire de Liz (1935-1967), foi adquirida, em 1937, uma imagem de S. Domingos, substituída, em 1955, por uma de maior porte, que se encontra ao culto junto ao altar do Rosário. (A antiga conserva-se à guarda do actual presidente da Fraternidade, Manuel Pinto Soares).
Na Capela do lugar do Sobral, que agora pertence à Paróquia de S. João de Ovar, há uma boa imagem de S. Domingos, titular daquele templo, que conta cerca de três séculos.
Formação e serviços
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| Patente de admissão quando da fundação da Fraternidade Dominicana de Ovar (1935) |
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| Leonor do Amaral |
À primeira prioresa sucederam Maria Maia Ferreira (1963-1967), Leonor Prado Bueno do Amaral (1967-1992, na foto), Maria Marques da Costa (1992-1997), Carolina Alice Soares (1997-2009) e Manuel Pinto Soares (2010).
Em 1973 havia 118 membros, número que começou a diminuir progressivamente com o falecimento das Irmãs e por haver poucas novas admissões. (Em 1997 eram poucas dezenas).
É missão das irmãs leigas prestar serviços de caridade, de catequese e de liturgia, e participar em actividades de formação e de piedade dentro e fora da Paróquia.








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