6.8.11

O culto a São Domingos em Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (15/08/2001)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Altar do Rosário da Igreja Matriz de Ovar
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1 – O Altar do Rosário

Desde há séculos que S. Domingos de Gusmão anda ligado iconograficamente a Ovar por via do culto mariano. Ele, que foi um paladino da devoção do Rosário, está representado no altar desta invocação, na nave direita da matriz, altar que, como o indica a esplendorosa talha do seu retábulo, de colunas salomónicas, data do último quartel do século XVII, da fase de transição para o barroco, contemporâneo da configuração actual da Igreja. (Sabe-se que o culto a Nossa Senhora do Rosário já existia na Igreja anterior, de uma só nave,).
A imaginária deste riquíssimo altar tem como tema único a devoção mariana, tal como se constata na gravura ao lado:
1 – A imagem da titular, de excelente confecção, em madeira policroma, é expressiva e bela, tendo o Menino nos braços e um rosário pendente das mãos. Rodeiam-na, no plano central, raios de luz e anjos sustentando rosas.
2 – Nos panos laterais, entre as quatro colunas, encaixam-se quatro baixos-relevos alusivos a outros tantos momentos da infância de Jesus: Anunciação e Nascimento, à esquerda, e Circuncisão e Adoração dos Magos, à direita.
3 – Sob as bases das colunas, figuram, em dois destes baixos-relevos: no da esquerda, a Senhora do Rosário com S. Domingos e Santa Catarina de Sena; no da direita a Senhora do Rosário com o Menino Jesus e Santo António. Nos do centro, Nossa Senhora com seus pais (Santa Ana e S. Joaquim), e S. José com o Menino.
4 – Ao alto, no centro do tímpano, a Assunção da Virgem.
5 – Nas colunas centrais, de enrolamentos ténues, de estilo renascentista, emergem quatro virtudes em figurinhas alegóricas: Fé, Fortaleza, Temperança e Justiça.

2 – O painel de S. Domingos

Nossa Senhora entregando
o Rosário a S. Domingos
É o primeiro dos quatro painéis da base das colunas aquele que nos interessa neste momento, por se referir ao principal promotor da devoção do Rosário, São Domingos, nascido em 1170 em Caleruega, Castela-a-Velha (Espanha), falecido em Bolonha a 6 de Agosto de 1221, e canonizado 13 anos depois, pelo Papa Gregório IX.
A cena ali representada inspira-se numa piedosa tradição que refere ter N.ª Sr.ª aparecido ao Santo, então preocupado com a conversão dos hereges albigenses, sugerindo-lhe, como garantia de sucesso, que espalhasse a devoção do Rosário.
A Virgem, tal como o Menino, que se apresenta desnudo, ao seu colo, está coroada, e rodeada de anjos. A seus pés, S. Domingos, com uma açucena na mão esquerda, recebe, na direita, o rosário, tendo a seu lado um cão que segura, na boca, uma tocha acesa. (A açucena é símbolo da pureza, e a tocha acesa, enxergada, num sonho, por sua mãe grávida, simboliza a vocação do futuro evangelizador (“Vós sois a luz do mundo”).
A presença de Santa Catarina de Sena (1347-1380), figura grada do pensamento cristão medievo – como acontece com S. Francisco, que muitas vezes a substitui em quadros semelhantes –, tem a ver com o seu contributo, como Doutora da Igreja, para a difusão e purificação do Cristianismo na Europa, em pleno cisma de Avinhão. O Menino, fitando-a de frente, entrega-lhe, como dádiva celeste, uma coroa de espinhos, símbolo da sua união mística com ela.
Nossa Senhora dando o Rosário a São Domingos.
À direita, S. Francisco de Assis (registo em azulejo
na Casa-Museu da Ordem Terceira de Ovar)
Em pinturas similares são apresentadas a Santa Catarina ora uma coroa de rosas, ora a coroa de espinhos, ora uma açucena, ou mesmo o rosário. Esta divergência explica-se pelo facto de muitos artistas, ao reproduzirem quadros famosos, lhes introduziram algumas diferenças, como a mudança de posicionamento dos personagens, trocando, consciente ou inconscientemente, ou a pedido do cliente, a posição dos respectivos adereços.
Quadro de Bento Coelho (1620-1708)
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Acontece isso no quadro de Bento Coelho (1620-1708), do mesmo período da talha de Ovar: o Menino, à esquerda, dá a açucena a Santa Catarina, coroada de espinhos, enquanto a Virgem entrega a São Domingos, à direita, um Rosário (com oito mistérios), como arma infalível de conversão. É para ele que se volta o olhar terno de Nossa Senhora…

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 DE AGOSTO DE 2001)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2011/08/o-culto-sao-domingos-em-ovar.html


ADENDA -----------------------------------------


Após um restauro

Painel de S. Domingos recebendo o Rosário (Igreja Matriz de Ovar)
Antes do restauro (Maio de 2007) e na actualidade
Quando de uma intervenção de restauro feita neste altar do Rosário, após a publicação deste artigo, foram refeitas neste painel as mãos direitas da Virgem e de S. Domingos (entregando e recebendo um terço,) bem como a coroa de espinhos de Santa Catarina, peças que tinham sido vítimas de qualquer acidente involuntário ocorrido no decurso de três séculos bem medidos, e cujo desenho e características exactas se desconhecem. Opção discutível. Mais um tira-teimas para os curiosos da Iconografia…

Fraternidade Dominicana

Sucedendo a uma antiga Confraria do Rosário que em 2 de Fevereiro de 1935 tinha como assistente espiritual o Padre Cura de Ovar Padre José Ribeiro de Araújo, e que estava ligada à Ordem de S. Domingos, foi fundada em 12 de Outubro de 1935, a Fraternidade Dominicana na Paróquia de Ovar, que teve como primeiro assistente religioso Frei Gil Alferes, e como primeira presidentes (Prioresa) D. Palmira Freire de Liz (1935-1967), foi adquirida, em 1937, uma imagem de S. Domingos, substituída, em 1955, por uma de maior porte, que se encontra ao culto junto ao altar do Rosário. (A antiga conserva-se à guarda do actual presidente da Fraternidade, Manuel Pinto Soares).
Na Capela do lugar do Sobral, que agora pertence à Paróquia de S. João de Ovar, há uma boa imagem de S. Domingos, titular daquele templo, que conta cerca de três séculos.

Formação e serviços

Patente de admissão quando da fundação da Fraternidade Dominicana de Ovar (1935)
Leonor do Amaral

À primeira prioresa sucederam Maria Maia Ferreira (1963-1967), Leonor Prado Bueno do Amaral (1967-1992, na foto), Maria Marques da Costa (1992-1997), Carolina Alice Soares (1997-2009) e Manuel Pinto Soares (2010).
Em 1973 havia 118 membros, número que começou a diminuir progressivamente com o falecimento das Irmãs e por haver poucas novas admissões. (Em 1997 eram poucas dezenas).
É missão das irmãs leigas prestar serviços de caridade, de catequese e de liturgia, e participar em actividades de formação e de piedade dentro e fora da Paróquia.

Frontispício do 2.º volume da edição de 1767 da História de São Domingos, de Frei Luís de Cácegas, reescrita por Frei Luís de Sousa, natural de Santarém, obra oferecida recentemente à Paróquia por uma família ovarense
(FOTO DO PAINEL:  arquivo do jornalista Fernando Pinto) 

Texto da adenda: M. P. B.

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