TEXTO: Maria José Vinga
Atrevo-me a ampliar o quadro, lembrando mais três figuras que eu considero típicas de Ovar de há mais 50 anos. Será uma maneira de amenizar as agruras que a vida a todos nos inflige.
São eles o “Zé dos pauzinhos”, também conhecido por “Zezinho da Ribeira”, o “Polaco” e o “Cacoila”.
Então posso lá eu esquecer, por exemplo, o que o Cacoila fazia ali pelos arredores da ponte de lata, ou seja, a ponte do Melo? De cabeça no ar, imitava o toque de todos os sinos com tanta mestria, que nos confundia. [CLIQUE NO LINK A AZUL]
Sua figura era de corpo meão, sempre oscilante, como quem balança – flutuação própria do vinho! Só que, nele, aquele vai-e-vem, aquela flexibilidade era só de aguardante, que a bebia copo após copo, como se fosse água pura!... De camisa aberta, desabotoada até à cinta, deixando livre o peito felpudo, braços abertos, mas para baixo, em forma de apoio, cabeça bem erguida para cima, olhos fechados, imitava, com a boca, o toque do sino dos Passos: ão, ão… ão, ão… Seguiam-se todos os outros sinos: delão, delão; de lim di dão; dão, dão de lim di dão…
As crianças rodeavam-no, admiradas e curiosas. E não só as crianças. Também certos adultos, que lhe iam buscar mais aguardente, pois o Cacoila, quanta mais aguardente bebia, melhor imitava os nossos sinos. Quando lhe davam estas crises, era até cair no chão. Bêbado, adormecia.
Pensando bem em tudo isto, que grande reconhecimento deve a Deus quem sabe apartar o bem do mal, quem sabe conduzir-se bem na vida.
Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de março de 1982)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2011/08/lembrancas-de-tempos-idos.html

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