TEXTO: José Maria Fernandes da Graça
Veio-me às mãos uma cópia do Caderno Municipal referente ao Imposto do Trabalho de 1843, com interessantes informações acerca da estrutura sócio-económica da nossa terra. Em documentos como este saciamos, ainda que muito levemente, a nossa curiosidade pelo passado que nos é comum.
Apeteceu-nos recuar no tempo e “dar uma volta” por alguns dos bairros mais característicos desta terra. Escolhemos, para início da digressão, a Rua Velha, recheada de famílias de pescadores. Intencionalmente fizemo-lo uma madrugada. Seriam umas quatro horas quando ouvimos o toque de uma buzina. O que significava? O chamamento dos pescadores para a faina da pesca. Daí a pouco começaram a abrir-se muitas portas, de onde saíam inúmeros pescadores, não poucas vezes acompanhados de filhos com a idade de onze ou doze anos.
![]() |
| Pesca na Praia do Furadouro, Ovar |
![]() |
| Pinhas de um pinhal do Furadouro (FOTO: FERNANDO PINTO) |
Mal agasalhados e com o estômago vazio, saíam de madrugada, levando consigo os necessários apetrechos: vara de aproximadamente x metros, com uma pequena peça na ponta, a que davam o nome de tramelo, para derrubar a pinha, dois rapichéis, um bordão, e não sabemos se mais alguma coisa.
![]() |
| Pinhal do Furadouro (zona norte) (FOTO: FERNANDO PINTO) |
Quando acabavam as pinhas ao pé da porta, o rumo era a zona nascente: Souto, Cucujães, S. João da Madeira, Oliveira de Azeméis, etc, etc. Então, o pior de tudo era o regresso, com o bordão aos ombros, balançando os dois rapichéis cheios de pinhas verdes, que pesavam como chumbo. Porque a caminhada era penosa, de vez em quando tinham que dar um jeito ao bordão para aliviar um pouco as dores nos ombros, continuando a descer, numa passada que chegava a parecer de corrida, dando, por vezes, a impressão de que os passos eram ritmados para tornar o fardo menos pesado.
Chegados à sua terra e antes de entrarem em casa, iam vender o produto do seu trabalho, as pinhas, a pessoas que depois as abriam ao sol para delas extraírem o pinhão que era vendido a negociantes, geralmente do Porto, para sementeira de pinhais.
![]() |
| Pescadores com as cangalhas de pinhas, perto do Carregal (FOTO: ALBANO SÁ PINTO) |
E para todos os que se comprazem em dizer mal dessa classe, que nunca soube o que era a ajuda do Estado – salvo em míseras proporções e já bastante tarde –, devemos lembrar que no tempo em que não havia um bocado de pão para tragar, as casas de Ovar tinham as fechaduras apenas no trinco, sendo facílimo praticar qualquer furto – a não ser no caso das pinhas, mas isso é outra história, que não foi ainda contada a sério… (A Estrumada não foi semeada só para proteger Ovar da invasão das areias, mas para fornecer lenha aos mais pobres. Cumpriu-se o que foi então deliberado pela Câmara Municipal a este respeito?)
Em anteriores apontamentos temos lembrado que seria muito oportuno que a Câmara Municipal envidasse os maiores esforços junto de qualquer Universidade para encontrar quem estude, com método científico, a vida dos pescadores de Ovar que, a partir de determinada época, debandaram para outras terras. A literatura já publicada e a documentação existente nos nossos arquivos poderão ser um bom ponto de partida para essas pesquisas sobre a diáspora vareira. A concretizar-se, esse trabalho constituiria o monumento mais ajustado a essa gente simples e trabalhadora que em muitos pontos onde aportou tão bem dignificou as suas origens. Não podemos deixar de recordar o grande contributo que já deram para a nossa história Monsenhor Miguel de Oliveira, Alberto Lamy, Eduardo Lamy Laranjeira, João Frederico e Padre Aires de Amorim. Mas poderão outros investigadores enriquecer esse contributo.
Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Fevereiro de 2009)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com (TEXTO N.º 133)
LEIA AQUI UM TEXTO PUBLICADO NA REVISTA REIS/1985 SOBRE O NOSSO COLABORADOR JOSÉ MARIA FERNANDES DA GRAÇA.




1 comentário:
Fiquei encantado pelo texto relativo à apanha de pinhas pelos pescadores de Ovar.
Na Terra da Maia, sobretudo na freguesia de Vila Nova da Telha, a apanha das pinhas era realizada pelas mulheres, tendo ficado conhecidas pelas "Pinheireiras".
No caso de Ovar, a tarefa era realizada pelos pescadores ou também era realizado pelas mulheres destes?
A descrição realizada no artigo corresponde a que época? Século XX (até aos anos cinquenta/sessenta)? Ainda hoje é praticada alguma recolha de pinhas para venda?
Existe alguma descrição histórica mais antiga relativa ao século XIX, ou mesmo, relativo a períodos anteriores, como nas Memórias Paroquiais?
Agradeço a atenção dispensada.
Enviar um comentário