21.7.11

Os pescadores de Ovar… e as pinhas

Jornal JOÃO SEMANA (01/02/2009)
TEXTO: José Maria Fernandes da Graça

Veio-me às mãos uma cópia do Caderno Municipal referente ao Imposto do Trabalho de 1843, com interessantes informações acerca da estrutura sócio-económica da nossa terra. Em documentos como este saciamos, ainda que muito levemente, a nossa curiosidade pelo passado que nos é comum.
Apeteceu-nos recuar no tempo e “dar uma volta” por alguns dos bairros mais característicos desta terra. Escolhemos, para início da digressão, a Rua Velha, recheada de famílias de pescadores. Intencionalmente fizemo-lo uma madrugada. Seriam umas quatro horas quando ouvimos o toque de uma buzina. O que significava? O chamamento dos pescadores para a faina da pesca. Daí a pouco começaram a abrir-se muitas portas, de onde saíam inúmeros pescadores, não poucas vezes acompanhados de filhos com a idade de onze ou doze anos.

Pesca na Praia do Furadouro, Ovar
Ainda ensonados e abotoando a roupa de todos os dias, descalços, caminhavam para a praia, percorrendo, rotineiramente, a meia dúzia de quilómetros que a separava das suas casas. Para trabalho tão duro, apenas contavam com um frugalíssimo farnel, quase sempre broa, uma talisca de bacalhau – e nem sempre –, umas sardinhas da véspera, assadas ou fritas, e, para beber, já na praia, uns copos de maduro tinto. Era assim que decorria, quase sem alterações, o dia-a-dia dos nossos pescadores. Mais tarde, este mesmo trajecto seria percorrido pelas pescadeiras, na busca de peixe para vender pelas ruas da vila, num esforço físico impressionante, em nada inferior ao dos maridos, se considerarmos certas diferenças.
Era assim que esta sacrificada gente vivia. Como ninguém, arriscavam a vida, remando pelo mar fora até o barco se perder de vista, para lançar as redes, que muitas vezes chegavam a terra com pouco ou sem pescado algum. Trabalho tão árduo, seria muito difícil de encontrar em qualquer parte do mundo, mas era assim na costa do Furadouro.

Pinhas de um pinhal do Furadouro
(FOTO: FERNANDO PINTO)
Em certas épocas do ano, mas muito especialmente quando a safra acabava, o único recurso para alguns era ir às pinhas, primeiro aos pinhais da nossa zona e, depois, bem mais longe daqui, a uns dez a quinze quilómetros dos seus casebres.
Mal agasalhados e com o estômago vazio, saíam de madrugada, levando consigo os necessários apetrechos: vara de aproximadamente x metros, com uma pequena peça na ponta, a que davam o nome de tramelo, para derrubar a pinha, dois rapichéis, um bordão, e não sabemos se mais alguma coisa.

Pinhal do Furadouro (zona norte)
(FOTO: FERNANDO PINTO)
Chegados ao pinhal, toca a trabalhar no duro, sempre com receio de a qualquer momento surgir o dono e implicar com os intrusos, a quem, por vezes, ameaçavam com as autoridades, só abrandando a ralhação quando os pobres pescadores evocavam os filhos, que não tinham uma côdea de pão para matar a fome. Perante uma verdade latente e de todos conhecida, os donos dos pinhais aí moderavam os seus ímpetos, viravam as costas e lá os deixavam acabar o trabalho.
Quando acabavam as pinhas ao pé da porta, o rumo era a zona nascente: Souto, Cucujães, S. João da Madeira, Oliveira de Azeméis, etc, etc. Então, o pior de tudo era o regresso, com o bordão aos ombros, balançando os dois rapichéis cheios de pinhas verdes, que pesavam como chumbo. Porque a caminhada era penosa, de vez em quando tinham que dar um jeito ao bordão para aliviar um pouco as dores nos ombros, continuando a descer, numa passada que chegava a parecer de corrida, dando, por vezes, a impressão de que os passos eram ritmados para tornar o fardo menos pesado.
Chegados à sua terra e antes de entrarem em casa, iam vender o produto do seu trabalho, as pinhas, a pessoas que depois as abriam ao sol para delas extraírem o pinhão que era vendido a negociantes, geralmente do Porto, para sementeira de pinhais.

Pescadores com as cangalhas de pinhas, perto do Carregal
(FOTO: ALBANO SÁ PINTO)
Muitas vezes observámos a chegada desses pescadores da zona dos Campos. Estamos a vê-los suados e alquebrados pelo auto-esforço despendido num trabalho penoso e arriscadíssimo quando iam ao mar – com idas de três e até quatro lanços. Não acreditamos muito que pessoas doutras latitudes se esforçassem mais para sobreviver. Quanto à vertente das pinhas, interrogamo-nos se essa tarefa não seria mais própria de escravos…
Esta descrição, feita ao correr da pena, está ainda longe da realidade vivida por toda essa gente humilde que, infelizmente, foi acusada de madraça e pouco amiga de trabalhar. Nada de mais injusto e desumano, podemos afirmá-lo, tendo em conta que conhecemos de muito perto quase todos os habitantes do Poço de Baixo, e, da minha rua, a família Dara. Gente honesta, trabalhadora e sociável, respeitada por todos os vizinhos.
E para todos os que se comprazem em dizer mal dessa classe, que nunca soube o que era a ajuda do Estado – salvo em míseras proporções e já bastante tarde –, devemos lembrar que no tempo em que não havia um bocado de pão para tragar, as casas de Ovar tinham as fechaduras apenas no trinco, sendo facílimo praticar qualquer furto – a não ser no caso das pinhas, mas isso é outra história, que não foi ainda contada a sério… (A Estrumada não foi semeada só para proteger Ovar da invasão das areias, mas para fornecer lenha aos mais pobres. Cumpriu-se o que foi então deliberado pela Câmara Municipal a este respeito?)
Em anteriores apontamentos temos lembrado que seria muito oportuno que a Câmara Municipal envidasse os maiores esforços junto de qualquer Universidade para encontrar quem estude, com método científico, a vida dos pescadores de Ovar que, a partir de determinada época, debandaram para outras terras. A literatura já publicada e a documentação existente nos nossos arquivos poderão ser um bom ponto de partida para essas pesquisas sobre a diáspora vareira. A concretizar-se, esse trabalho constituiria o monumento mais ajustado a essa gente simples e trabalhadora que em muitos pontos onde aportou tão bem dignificou as suas origens. Não podemos deixar de recordar o grande contributo que já deram para a nossa história Monsenhor Miguel de Oliveira, Alberto Lamy, Eduardo Lamy Laranjeira, João Frederico e Padre Aires de Amorim. Mas poderão outros investigadores enriquecer esse contributo.

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Fevereiro de 2009)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com (TEXTO N.º 133)

LEIA AQUI UM TEXTO PUBLICADO NA REVISTA REIS/1985 SOBRE O NOSSO COLABORADOR JOSÉ MARIA FERNANDES DA GRAÇA.

1 comentário:

Jose Goncalves disse...

Fiquei encantado pelo texto relativo à apanha de pinhas pelos pescadores de Ovar.

Na Terra da Maia, sobretudo na freguesia de Vila Nova da Telha, a apanha das pinhas era realizada pelas mulheres, tendo ficado conhecidas pelas "Pinheireiras".

No caso de Ovar, a tarefa era realizada pelos pescadores ou também era realizado pelas mulheres destes?

A descrição realizada no artigo corresponde a que época? Século XX (até aos anos cinquenta/sessenta)? Ainda hoje é praticada alguma recolha de pinhas para venda?

Existe alguma descrição histórica mais antiga relativa ao século XIX, ou mesmo, relativo a períodos anteriores, como nas Memórias Paroquiais?

Agradeço a atenção dispensada.