15.7.11

Manuel Cascais de Pinho – Na peugada de Júlio Dinis

Jornal JOÃO SEMANA (01/10/2010)
TEXTO: Fernando Pinto


Manuel Rodrigues de Pinho nasceu em Ovar, em 1 de Outubro de 1918 – faria hoje 92 anos! – na Travessa da Rua Castilho, n.º 28, actual Rua Silva Porto. Era filho de Manuel Rodrigues de Pinho e de Rosa da Conceição Pinto Cascais, também naturais de Ovar. Casou em 1950 com Maria dos Prazeres, na cidade da Beira (Moçambique). Em 1973, já em terras vareiras, acrescentou ao seu nome o apelido materno Cascais.
Manuel Cascais Rodrigues de Pinho partiu deste mundo aos 87 anos, no dia 4 de Março de 2006. Foi um dos ovarenses que lutou pela conservação e restauro da Casa onde viveu Júlio Dinis. Agraciado com a Medalha de Mérito Municipal (Bronze), tem hoje uma rua com o seu nome, entre a Rua Luís de Camões e as traseiras da Casa de S. Thomé.

Manuel Cascais de Pinho, no Largo 5 de Outubro,
tendo em fundo o busto e a Casa-Museu Júlio Dinis
Tive o prazer de conviver com este meu conterrâneo, que dedicou grande parte da sua vida ao estudo da obra de Júlio Dinis, durante um passeio promovido pelo artista vareiro Marcos Muge, autor do recente restauro do retábulo-mor da Capela de S. Miguel.
Na tarde do dia 17 de Julho de 1999, o Sr. Cascais de Pinho, acedendo ao meu pedido, acompanhou-nos, de carro, a percorrer os locais por onde passou o escritor Júlio Dinis. Quatro anos antes, em 11 de Maio de 1995, por ocasião dos 122 anos da chegada do escritor portuense a Ovar, este ilustre vareiro organizara uma visita semelhante, denominada “Júlio Dinis passou por aqui”, um percurso pedestre que, infelizmente, não teve pernas para andar.

Cascais de Pinho (à direita), Fernando Pinto
(ao meio) e Marcos Muge, junto à ponte do Casal
Começámos por “acampar” debaixo dos salgueiros que ainda hoje embelezam as margens do rio Cáster, junto à ponte do Casal, local onde o autor de “As Pupilas do Senhor Reitor” costumava ficar sentado no banco de granito em forma de “meia-laranja”, a contemplar aquele belo cenário campesino. Sentado num pequeno banco que levámos para que pudesse repousar e estar mais confortável durante a entrevista que combináramos, o Sr. Cascais começou por recordar que o romancista passava ali várias horas a observar os camponeses:
– “No mês de Maio e Junho os trabalhos do campo estão no auge: há a sacha, a recolha do feijão, que é feita muito antes do milho, pois ele diz que já em Maio vai para a eira debulhar o feijão. Ele chega aqui no dia 7 de Maio de 1863 e escreve logo à sobrinha. Diz que está farto de comer pó, que é uma comida nada agradável... Mas, depois de conhecer a vila, chegou a afirmar que os quatro meses que passou em Ovar foi o tempo mais feliz da sua vida.
E o Sr. Cascais continuou a deliciar-nos com os esboços que fazia da figura veneranda do médico-escritor, desta feita junto à Fonte do Casal, hoje com o nome do romancista. Dali fomos desaguar ao Largo dos Campos, junto ao busto que lhe erigiram.
Apesar de termos insistido com ele para que nos acompanhasse numa visita guiada à Casa-Museu Júlio Dinis, para apreciarmos o seu recheio, não o quis fazer. Disse-nos que não queria ter nenhuma surpresa desagradável ao entrar naquele espaço que ajudou a abrir, mas que nos aguardava cá fora, para que pudéssemos prosseguir com o nosso passeio. À saída, pediu-nos emprestado o olhar, para que também ele pudesse apreciar um pouco daquilo que tínhamos presenciado.
– “Pelos vistos, está tudo na mesma”, atirou, quando nos deslocávamos para o carro.

Num texto escrito pelo seu punho, em 18 de Maio de 1950, no “Notícias de Ovar”, assume que é um fervoroso admirador da obra de Júlio Dinis, lembrando que “se não fossem, mesmo, alguns escritos do nosso saudoso Dias Simões (Pai), publicados (...) no semanário “A Pátria”, e, mais tarde, o Dr. Egas Moniz (...), não se saberia já que algumas das personagens da obra de Júlio Dinis foram nossas (...)”.
Deixámos o Jardim das Rosas, no Largo 5 de Outubro, e rumámos até ao Cais da Ribeira, lugar onde permanecemos quase até ao cair da tarde. Falámos um pouco de si, de África, da colaboração que tinha dado ao Museu de Ovar e aos jornais da terra, do seu gosto pelo coleccionismo, das relíquias que tinha reunido ao longo da vida, particularmente ligadas ao escritor (livros, fotografias, manuscritos, medalhas, objectos de uso pessoal, artigos de imprensa), espólio esse que doara, três anos antes, em 2 de Setembro de 1996, à Câmara Municipal de Ovar, para pertencerem ao acervo da Casa-Museu Júlio Dinis.
Antes de o deixarmos em casa, na Rua Manuel Arala, entregou-me alguns apontamentos que fotocopiara, referentes à obra de Júlio Dinis, que ele entendia serem-me úteis para a realização de um pequeno filme sobre o escritor portuense que eu tinha entre mãos.
Naquele dia, pude constatar que o Sr. Cascais de Pinho era uma voz inconformada, que não se calava sempre que o nome de Ovar era mordiscado. Mais do que um “detective literário”, como o apelidaram, era um grande bairrista, um homem apaixonado pelas coisas do seu torrão natal, como se comprova pela sua acção interventiva no Grupo de Reflexão Pró-Ovar, de onde nasceram diversas iniciativas com vista à defesa do património local.

Dois artigos

Cascais de Pinho e sua prima Deolinda Cascais, na Biblioteca
M. de Ovar (2002), durante o lançamento do n.º 2 da "Dunas"
Para que o leitor possa conhecer melhor o percurso deste homem, cujo esforço intelectual demorou a ser reconhecido, aconselho a leitura de dois artigos. O primeiro, “À procura da sombra de Júlio Dinis”, de Manuel Catalão, publicado no n.º 32 da revista “Reis” (1998), recorda que esta figura notável “ainda menino de berço, atravessou as vagas assustadoramente sibilantes do Atlântico, a caminho da aventura africana (...), e que “cresceu correndo pelas lamacentas ruelas de uma povoação temperada pelas tépidas e calmas águas do Índico”, acrescentando que aos 9 anos voltou a Ovar, mas ao entrar na maioridade retornou a Moçambique, onde trabalhou na Companhia Petrolífera Shell até 1971, ano do seu regresso definitivo à terra de origem.
Já Maria Deolinda Cascais Lopes Palavra, no seu artigo “Cascais de Pinho: Curiosidades, Autógrafos e Raridades para a História e Literatura Vareiras”, publicado no n.º 9 da revista “Dunas” (2009), para além de nos oferecer um valioso testemunho sobre o seu primo e padrinho, lança, no final do seu texto, este desafio de que nos fazemos eco: – Para quando a edição das cartas conhecidas que Júlio Dinis escreveu de Ovar?
Pode ser que a reabertura da Casa-Museu Júlio Dinis, que se espera para breve, nos possa trazer esta e outras agradáveis surpresas.

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Outubro de 2010)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com (TEXTO N.º 131)

Sem comentários: