31.5.11

Homenagem à poetisa Glória de Sant’Anna

Jornal JOÃO SEMANA (1/6/2010)

De Lisboa-menina, imersa na frescura de pregões, partiu para Moçambique-gigante, sorvendo do vento os mistérios da terra e as saudades do mar.
Cresceu por dentro, sentidos receptivos aos cheiros e às cores, coração dilatado respirando vida, cérebro febril congeminando ideias, palavras, poesia.
Avessa às armas, a guerra apurou-lhe o gosto pela paz e pela justiça, as grandes causas por que se batia.
Pemba foi o seu campo de batalha. A pena foi o instrumento da sua luta.
Exausta, voltou às suas origens. Calada, sentida, mas não rendida. Válega foi o relicário onde guardou o seu silêncio. Como se de um pacto com África se tratasse. (M. Pires Bastos)

TEXTO: Fernando Pinto

Glória de Sant'Anna
Faz amanhã um ano que a poetisa Glória de Sant’Anna deixou este mundo. Na madrugada do dia 2 de Junho de 2009 desaparecia uma das principais vozes do lirismo de Moçambique.
No dia do seu 84.º aniversário, ao passarmos de carro por Válega, eu e o Padre Manuel Pires Bastos fomos bater à sua porta para lhe dar os parabéns e agradecer a entrevista concedida ao nosso jornal, no qual chegou a colaborar em 2004 (clique AQUI para ler o artigo "Glória de Sant’Anna – Memórias a preto e branco").
Naquela tarde de 26 de Maio de 2009 fomos recebidos por sua filha Inez, que nos disse “que a sua querida mãe se encontrava hospitalizada”. À despedida, junto ao portão, ficámos a saber que a escritora tinha acabado de publicar Trinado para a Noite que Avança, o mais recente livro de poesia desta ilustre senhora para quem “a escrita surgiu através das Letras, do estudo, dos bons professores, das literaturas”, como ela própria confidenciou ao “João Semana” no dia 19 de Maio de 2009, em entrevista publicada há precisamente um ano neste quinzenário que caminha a passos largos para o Centenário.

Eterna poetisa do mar azul de Pemba

Glória de Sant’Anna nasceu em Lisboa em 26 de Maio de 1925 e concluiu o curso Complementar de Letras no Colégio de Odivelas.
Casou em 1949 com o arquitecto valeguense Afonso Henriques de Andrade Paes (da família Soares Paes, comerciantes em Ovar), autor do projecto da entrada do Parque Marques da Silva da Associação Desportiva Ovarense.
Em 1951 partiu com o seu esposo para Moçambique, onde fixaram residência em Nampula.
Em 1953 a família Paes mudou-se para Porto Amélia (hoje Pemba), onde permaneceu quase até ao seu regresso à pátria, em Dezembro de 1974, junto à baía que ficaria guardada para sempre no coração de Glória de Sant’Anna. (De 1972 a 1974 viveram em Vila Pery, actual Chimoio). Viver em África deu-lhe tudo o que a vida poderia oferecer: os seus filhos.
Um dos últimos desejos da autora de Livro de Água (laureado em 1961 com o prémio Camilo Pessanha) era que o mundo dos mortais mergulhasse “numa Paz verdadeira, sem hipocrisias”.
Antes desta obra que a tirou do anonimato, escreveu Distância (1951) e Música Ausente (1954).
Em 1964 publicou Poemas do Tempo Agreste e, um ano mais tarde, Um Denso Azul Silêncio. Em 1972, Desde que o Mundo e 32 Poemas de Intervalo, e, em 1975, já em terras lusas, Do Tempo Inútil (prosa). Em 1988 Amaranto e Não Eram Aves Marinhas. De 1996 até ao seu desaparecimento, para além de poesia, publicou uns livros para a infância, prosa e crónicas.
Silêncio, solidão, música e mar atravessam, segundo a crítica, a obra poética de Glória de Sant’Anna, uma alma que nunca se deixou amordaçar pelo poder.

Viagem

Na última vaga que a contém e arrasta
a casquinha é de ouro, de vento ou de água.
Nem âncora a amarra,
nem vela a segura,
mas o pescador
cheira a sal e a espuma.

Na última vaga que a contém e solta
a casquinha é de água, de vento ou de ouro.

Nem mastro a segura
nem leme a norteia,
mas o pescador
cheira a sal e a areia.

(E o pescador cheira a sal e a areia
e deixa tombar sobre os búzios claros
os peixes de vidro que traz do mar largo.

E o pescador cheira a sal e a espuma
e deixa tombar sobre a areia húmida
seu longo cansaço).

A casquinha solta da última vaga,
espera sob as nuvens translúcidas,
pousada na areia como uma concha de nácar.

Glória de Sant’Anna (Livro de Água, 1961)


Amanhã, pela manhã, vamos recordar-nos com saudade desta “Princesa da Poesia”, que em Música Ausente, livro que gentilmente nos enviou com uma dedicatória, confessa que “largo é o silêncio do pensamento. Triste a distância de toda a parte”.


Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Junho de 2010)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com (TEXTO N.º 127)

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Glória de Sant’Anna

Jornal JOÃO SEMANA (1/6/2010)

No arquivo do “João Semana” guardávamos, desde há anos, um belo texto sobre Glória de Sant’Anna e a sua obra literária, subscrito por Pinto Soares no “Jornal de Matosinhos” de 23/3/1990.
Aqui inserimos esse texto, que dedicamos à memória da grande escritora luso-moçambicana falecida em Válega, e da qual publicamos, poucos dias antes da sua morte, pela pena do jornalista Fernando Pinto, a última intervenção como escritora.

TEXTO: Pinto Soares

Jaime Ferraz Gabão, em homenagem justíssima, escreveu, para a sua rubrica “Postal da Régua”, um artigo sobre a figura e a obra da consagrada poetisa Glória de Sant’Anna – trabalho que veio a lume, nestas páginas, na edição de 23/2/1990.
Nele afirma o estimado colega (trabalhámos, durante anos, no mesmo Jornal) e prezado Amigo (de longa data), que o signatário conheceu, muito bem, em terras de África, mais concretamente em Moçambique, essa extraordinária mulher que era, no Índico, uma das figuras representativas do florescente meio literário: com nome feito e prestígio invejável, conquistado mercê de uma obra que continua a ressumar a qualidade de outrora.
Nunca ninguém pôs em dúvida as qualidades excepcionais, nem a cultura de tão destacada princesa, que se distinguia, sobretudo na poesia – uma poesia fresca, luminosa, com substância e mensagem, recriadora –, também, frequentemente, repertório das suas vivências e daquilo que, atenta, circunvagando o olhar, presenciava e retinha, emprestando-lhe a elegância do seu verbo, não descurando o pormenor nem, tão-pouco, o cromatismo.
Segui, de perto, a trajectória de Glória de Sant’Anna, não pude trazer os seus livros – com pesar – ,li as críticas, sempre favoráveis, que lhe eram tecidas, a colaboração que oferecia a publicações diversas, e, mantive, em Nampula, um afável relacionamento com o seu marido, Andrade Paes, arquitecto, piloto de aviões, sabedor e corajoso, amigo de Carvalho Durão, do Catoja & Saldanha, firma sita na rua fronteira à Delegação do “Diário de Moçambique”, que eu chefiava, em instalações alugadas por Manuel Justino Sargento, “O Napoleão de Macuana”, segundo o juiz Paiva.

Glória de Sant’Anna deslocava-se com frequência de Porto Amélia a Nampula, sendo natural que, volvidos anos de tanto sofrimento para quem amava África e em particular aos habitantes de Pemba tanto se dedicou sem restrições de alma e coração, haja esquecido o cabouqueiro que um dia, afrontando o poder, se apresentou a sufrágio sem outros apoios do que aqueles que nunca lhe faltaram da parte do povo simples, mais tarde envenenado na sua candura e vítima de credulidade congénita, a macerá-lo numa guerra desumana e cruel, cujo termo ainda não se vislumbra.
Agradece, Glória de Sant’Anna, a divulgação, nestas páginas, da sua personalidade e da sua obra, graças ao dedicado empenho de Jaime Ferraz Gabão. Sentindo-nos honrados, auguramos que ela persista, enriquecendo as letras nacionais com o seu talento e forma especialíssima de versejar.
– “Não me recordo do seu nome. Muitos anos passaram…”
De Matosinhos para Válega, com ternura, “aquele abraço, a disponibilidade do JM e do seu Director – para Glória de Sant’Anna, um nome grande, respeitado, com lugar na literatura de Moçambique, nas antologias, no coração das suas gentes, na memória dos seus intelectuais.”

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Junho de 2010)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com (TEXTO N.º 128)


Sobre Glória de Sant’Anna leia ainda:

- "Glória de Sant’Anna em Ovar – Uma escrita de água e fogo" (texto de Maria Luísa Resende, in revista REIS/1989)

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