28.4.11

Padre António da Silva Maia - Um grande em Angola

Jornal JOÃO SEMANA (01/05/2011)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Padre António Maia
Encontrar em Abril de 2011, numa feira de antiguidades no Mercado de Ovar, uma obra científica de um autor vareiro, foi inesperada e saborosa surpresa. Mais saborosa ainda sabê-la publicada há menos de um ano, em 3.ª edição, com o alto patrocínio de duas fortes empresas de Angola. Uma verdadeira consagração internacional!
Trata-se de um dicionário complementar, editado pela primeira vez há 50 anos (1961), referente à língua portuguesa e a dois dos dialectos mais falados do centro e norte de Angola – Kimbundu e Kikongo –, do qual se dizia, em palavras prefaciais, ser “obra sublime realizada por mais dum decénio pelo génio extraordinário e fecundo do Revmo. Padre António da Silva Maia, verdadeiro orgulho e glória do clero secular de Angola” (Félix J. Gaspar Pereira Bravo).
O Padre António da Silva Maia, nascido em 13 de Maio de 1905 no lugar de Cimo de Vila, Ovar, fez os estudos eclesiásticos em Portugal. Optando pela vida missionária, seguiu em Novembro de 1975 para Angola, ordenando-se sacerdote na Catedral de Luanda em 26 de Junho de 1936.
No seu vasto percurso por terras angolanas Gabela (Amboim), Vila Nova de Seles (Dezembro de 1941) e Ambriz –, deixou a assinalar a sua passagem, como marcos característicos, o estudo das línguas nativas (também o Omumbuim e o Mussele), que utilizou na palavra falada e escrita, e que verteu em textos impressos em Cucujães, na Editorial Missões, bem perto da sua casa natal, e a solidez da fé nas comunidades paroquiais que criou.
O facto de se manter sempre ao lado dos seus fiéis foi considerado pelas autoridades portuguesas como uma traição a Portugal. Expulso de Angola, Pátria que o considera como um dos seus filhos adoptivos mais ilustres, voltou à terra de origem em 1975, colaborando nas Paróquias de Ovar, vindo a falecer em 10 de Março de 1981.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de Maio de 2011)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2011/04/padre-antonio-da-silva-maia-um-grande.html

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Padre António Maia

Jornal JOÃO SEMANA (15/05/1992)
TEXTO: D. André Muaca

Angola está a celebrar os 500 anos da evangelização que teve início no dia 29 de Março de 1491 com a chegada dos primeiros missionários portugueses à foz do rio Zaire.
A partir de então começou uma nova história, que se prolonga até hoje. Angola entrou na história da Salvação com os seus patriarcas e profetas, apóstolos e doutores, virgens e mártires.
O Padre António da Silva Maia faz parte da plêiade de missionários que, em Angola, alargaram os horizontes da Igreja, dissiparam as trevas que obscureciam as inteligências, acendendo nas almas a luz da fé. Piedoso, ensinou-nos a rezar; zeloso, aumentou o número de cristãos pela catequese; activo, percorreu a pé as picadas das florestas de Angola, abrindo os olhos aos cegos, os ouvidos aos surdos, a língua aos mudos, e fazendo andar os coxos.
Os Actos dos Apóstolos fazem a estatística das primeiras conversões. Padre Maia não mediu o seu trabalho nem contabilizou o resultado. Semeava e colhia, preocupando-se apenas com a qualidade. Que formou bons cristãos, famílias unidas e zelosas, não restam dúvidas. Nas zonas evangelizadas por Padre Maia estão a surgir vocações consagradas de ambos os sexos, de uma maneira admirável.
Padre Maia não conquistava as almas; atraía-as. Era afável, compreensivo e tolerante. Mas no tocante à prática das virtudes cristãs, era enérgico e decidido. Em cada circunstância tomava a atitude mais eficaz na transformação e melhoria dos seus cristãos.
Sabia controlar-se. Guiava os seus impulsos. Repreendia com suavidade. Nunca provocou qualquer tempestade. Não era exigente. Fazia o que os seus superiores lhe pediam e ia para onde o mandavam. Em todos os lugares era o mesmo, inspirando confiança, portando-se como pai e levando a semente do Evangelho aos corações.
Monumento ao Padre Maia, na Gabela,
junto da Igreja por ele iniciada. As placas em bronze
foram oferecidas pela Paróquia de Ovar
Padre Maia trabalhou principalmente na Província Administrativa de Kuanza-Sul, hoje Diocese de Nova Redondo ou Sumbe.
Esta região é uma fronteira cultural, com populações falando diversos dialectos ou línguas.
Sabendo que só podia transmitir eficazmente a palavra de Deus através da língua falada pelos seus evangelizandos, Padre Maia estudou e falava correctamente as línguas dessas populações, tendo deixado Gramáticas e Dicionários para a aprendizagem de algumas dessas línguas.
Nunca fez discursos sobre a inculturação, mas viveu-a e praticou-a. Fez-se angolano com os angolanos para ganhar todos o Cristo.
E isso criou-lhe problemas.
A violência que caracterizou o início da guerra da independência semeou o pânico, e muitos portugueses perderam a cabeça. Padre Maia conservou-se tranquilo, não modificou o seu comportamento em relação aos negros, andava de porta em porta consolando e confortando as vítimas injustas da represália. Por esta razão foi taxado de traidor à Pátria Portuguesa e de conivente com os terroristas.
Preso em Ambriz, sua última paróquia, e depois de alguns meses nas cadeias de Luanda, não foi deportado, mas expulso e exilado em Portugal, como vários sacerdotes angolanos.
Foi exilado porque uma vez que escolheu a vida das Missões, foram dirigidas ao Padre Maia as palavras de Deus a Abraão: “Deixa a tua terra e a tua parentela e parte para a terra que Eu te indicar. Farei de ti pai de um grande povo”.

Casa natal do Padre Maia em Cimo de Vila, Ovar
Padre Maia, português por nascimento e angolano por opção, é um dos pontífices da Igreja de Angola, que está a celebrar os 5 Séculos de Evangelização e Encontro de Culturas.
Honra e glória a Ovar, que o viu nascer.
Parabéns a Angola, sua nova Pátria.

Lisboa, 5 de Maio de 1992
Eduardo André Muaca
Arcebispo Emérito de Luanda

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de maio de 1992)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2011/04/padre-antonio-da-silva-maia-um-grande.html

Em 29 de Setembro de 1941, quando da sua nomeação para Santo António de Seles, a Paróquia da Rainha Santa Isabel, da Gabela, prestou-lhe uma sentida Homenagem de despedida.
"Lançou ali as bases da fé pela evangelização do indígena, e pôde assim criar uma freguesia, dotando-a com uma Igreja Paroquial, que é na verdade um monumento de fé, elegante, ampla e artística" (Jornal JOÃO SEMANA, 25/12/1941)

1 comentário:

Anónimo disse...

Meu caro amigo,

Qualquer adjetivo usado para elogiar o Padre Maia será pouco com o grande trabalho feito por ele.

Este livro é tão raro quanto a sua riqueza material e cultural.

Tem alguma ideia de como adquiri-lo? através da compra ou de arquivos digitais.

Grato com a matéria e a colaboração,
Agradeço o retorno, se não for incomodo.

Atenciosamente,
André Jardim
andrejcoelho@hotmail.com
Araruama - RJ