9.4.11

Algumas notas toponímicas ovarenses – Cáster

A. de Almeida Fernandes
FOTO: M. Pires Bastos
Do insigne historiador e medievalista Dr. Armando de Almeida Fernandes, que ao “João Semana” dedicou atenções que não podemos esquecer, publicamos o precioso trabalho, relativo à toponímia ovarense.

Jornal JOÃO SEMANA (01/08/1993)
TEXTO: A. de Almeida Fernandes

Por amável sugestão e porque uma elucidação toponímica tem sempre interesse (não são do próprio povo tantas e tantas “explicações” – naturalmente quase sempre erradas?) –, tentarei obter das minhas hoje fracas disposições intelectuais, e, mais fracas ainda, da minha saúde física, algumas que me permitam ir-me ocupando de certos casos.
Seja, para principiar, o nome do pequeno rio que nasce pouco distante e passa na ex-Vila da Feira, para vir acabar em Ovar – nome este que se lhe deve, certamente: tenciono tomar o caso noutra ocasião. É Cáster esse nome e, como Ovar, foi aquele que teve (e muito bem se lhe documenta), resulta, imediatamente, que houve uma substituição: portanto, Cáster é nome relativamente moderno – o que não quer dizer recente.
E compreende-se a substituição, desde que o nome primitivo começou a designar, cerca da foz do pequeno rio, um centro populacional em constante crescimento (origem da actual cidade) na área de Cabanões-Muradões: uma elementar necessidade de distinção – se bem que não impositiva, claro está. Mas sucedeu, sem dúvida, em meu entender –, passe a presunção que o não é.
Um caso para ventilar noutra oportunidade.
Ponte medieval sobre o rio Cáster em Ovar
Ponte Reada (=derreada)
FOTO: Fernando Pinto
Seria ocioso insistir muito em que desvendar a origem e significação de um topónimo repousa, essencialmente, num exame cuidadoso da palavra, mas sendo já e em absoluto necessário jamais se esquecer que regularmo-nos pelo ouvido e pela vista (escrita actual e pronúncia) é a “recomendação” mais eficaz para o erro rotundo. Sobretudo, ou como corolário disso mesmo, não é possível, e nunca deve tentar-se, qualquer explicação sem conhecer-se a forma antiga do topónimo – ou, melhor direi, a mais antiga, pois que a evolução fonológica pode oferecer várias. Exceptuam-se – mas nem sempre – estruturas muito simples. O caso do rio Cáster está no médio termo.
Quero eu com isto significar, apenas, que a forma anterior do nome pouco deve ter diferido, porque, realmente, a estrutura fonológica é singela, e foi-o por certo de origem, parecidamente. Não é preciso lucubrar muito, nem ser muito versado na ciência da nossa fonética, para, desde logo, se concluir que o problema não se põe na primeira sílaba, desde que convicto como estou de ser ele a tónica. Acho que Cáster é mesmo – e com razão – a pronúncia mais corrente, e não Castér, que tem todo o carácter de intromissão pretensamente erudita, nunca antiga; de facto, não é popular -er átono (final). Foi o povo quem “fez” a língua, e, com esta, a toponímia. Eu insisto em Cáster, e não Castér, nesse sentido, dado que um jornal manuscrito da segunda metade do ano de 1910, e da Vila da Feira, se designava “Caster”, sendo de crer que, se quem o designou (um erudito, já se vê) pronunciasse Cáster, lhe poria o acento – embora na época não se fosse muito apurado ou melindroso no diacritismo. Castér, portanto, uma fantasia prolativa erudita: mas nem por isso Cáster deixou de sofrer e, por isso, a mostrar. Com efeito, -er átono (final já se vê) não se manteria popularmente, que é a circunstância que impera: a evolução far-se-ia Castre (se mesmo esta se não alterasse). Em suma, “Caster” manifesta intromissão erudita ou culta, pretensamente – e, se não estou em erro, é de crer que a palavra não tenha, desde há muito, um uso generalizadamente popular.
E, no entanto, ela foi popular na origem, sem dúvida. As circunstâncias acabadas de apontar, uma a substituição do nome “Ovar” na designação do rio pelo povo, e outra as intromissões eruditas sobre a forma de nova designação, levam a concluir, à luz da ciência fonológica – que é intransgredível nestes estudos e que, infelizmente, tão pouco ou nada se tem em conta (deixando-se tudo à fantasia sónica e visual, o que é tremendamente aleatório e quase sempre fatalmente erróneo), levam a concluir – ia eu dizendo – que a forma inicial foi a tão simples palavra “Castro”. Enfim, “rio do Castro” (sem se excluir mesmo “Crasto”, mas nada obrigando a admitir esta forma), isto é, o rio que vinha do sítio de um castro ou se passava num local mais ou menos afastado da actual cidade (que recebera o nome desse curso de água, Ovar – nunca, o esqueçamos) e chamado Castro.
Como tudo deve ter partido a povoação de Ovar (surgida na área de Cabanões-Muradões histórica), o local de castro ou daquele nome Castro seria realmente afastado; mas não o poderia ser muito, sob pena de o nome desse local se não impor, dado que outros locais na extensão se habilitariam, pelos seus nomes, à designação, que foi tomada a partir da actual Ovar.
Um trecho do rio Cáster em Ovar na actualidade (zona do Palhas)
FOTO: M. Pires Bastos
Assim tudo indica – pela perfeita integração em todos os circunstancialismos a que me venho reportando – que o local do Castro, ou onde existia o “castro” que levou à designação, era cerca do de São João actual, um pouco ao norte, onde o rio passa. É aí que deve considerar-se o factor – e a arqueologia poderá comprovar-lhe a existência, por muito pouco que hoje, materialmente, ela se manifeste. É aí que há elevação apropriada.
E, agora, a questão fonológica, que impossível é, sempre, pôr-se de parte: se a fonética se opuser, fica tudo destruído, por muito apropriado e bem congeminado que seja – e isso é o que, vulgarmente, e para fatalidade do erro, se não tem em vista.Tal se não dá aqui: uma alteração de -o final para -e perfeitamente provável (e regiões há em que ela é positiva): Castro - Castre (pela própria influência da tónica, com abrandamento vocálico escalar), passando a incidir sobre Castre o pretenso eruditismo: Cáster ou Castér (passe o emprego do acento nesta segunda forma), com um certo ar de estrangeirismo, ou mesmo exotismo, de parecer bem, tão próprio da erudição mal orientada.
Mudado o nome de “Ovar” para Castro (“rio Ovar” para “rio Caster”, e, se mudança suficientemente antiga, com a preposição “de”, do uso medieval em tais casos), o novo nome foi adoptado em toda a extensão do curso – até na própria Feira. Se ele tivesse partido desta, teria certamente o seu nome – visto que em Ovar se criou e adoptou esse (Castro), para reservar o lugar a si o primitivo do rio (Ovar).

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de Agosto de 1993)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2011/04/algumas-notas-toponimicas-ovarenses.html

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