TEXTO: José Oliveira Duarte
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| José Oliveira Duarte |
Entrei numa pequena oficina de fundição existente junto da habitação dos meus pais, na Rua de Baixo, Ovar, rua que ligava – e continua a ligar – São João à Ponte Nova, contrariado por já não poder brincar e também por não sentir qualquer atracção por aquela profissão. Talvez a idade tenha contribuído para que a contrariedade se manifestasse através de algumas recusas ao trabalho...
Os anos foram passando, e a minha curiosidade foi sendo despertada pelas peças que saíam das mãos do grande Mestre e dono da fundição, Sr. Francisco Augusto da Silva.
Comecei a minha aprendizagem a preparar a areia própria para a moldagem numa masseira grande, que servia, ao mesmo tempo, de bancada de trabalho.
O Sr. Augusto fundia peças destinadas ao fabrico de variadíssimos artigos de menagem, incluindo muitas imagens de Jesus Cristo. E foi neste tipo de serviços que começou a despertar em mim o gosto pela arte e pelos trabalhos de escultura a ela ligados.
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| Utensílios utilizados pelos fundidores |
Os anos foram passando. Entretanto, o Sr. Augusto edificou, no lugar do Temido, uma nova oficina, que passou a chamar-se Bronzearte Lda. O gosto pela profissão manifestou-se então em mim com o aparecimento de pequenas obras de arte, como estatuetas de mosqueteiros e outras, que eu ia fazendo debaixo da supervisão do Mestre Sr. Augusto. Tive o privilégio de ser o seu principal ajudante quando da feitura do busto do Sr. Marques da Silva, que tinha doado o campo de jogos à Ovarense. Esta obra foi muito importante para mim, pois permitiu perceber o que era a arte da fundição.
O dia-a-dia continuava, até que outra obra de grande relevo apareceu para se fazer. Tratava-se do busto do fundador da Rabor, Lda., Sr. Albano Borges, busto que tinha cerca de 70 centímetros de altura e que ficou exposto no hall de entrada da referida fábrica. Este trabalho, embora supervisionado pelo Sr. Augusto, foi praticamente feito só por mim.Pouco tempo depois, o Museu de Ovar viria a encomendar a estatueta de um Navegador-Guerreiro, com cerca de 80 centímetros de altura, que executei na sua totalidade.
Convém deixar dito que grande parte das obras chegava, feita em barro, da mão de escultores. As peças eram, então, copiadas em gesso, para poderem ser moldadas na areia da fundição.
Muita coisa fiz relacionada com a arte sacra, permitindo-me destacar a figura de Santo António, uma imagem com cerca de 30 centímetros que tinha sido encomendada pela Ourivesaria Aliança do Porto, e que foi fundida em prata, na própria ourivesaria. Essa pequena obra demorou quase dois meses a executar, devido ao serviço de arte que exigia.
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| Busto de Júlio Dinis, tendo em fundo a Casa-Museu dedicada ao escritor, edifício que vai ser ampliado |
Do barro passei o busto para gesso, e depois para o bronze, fazendo questão de deixar no seu interior, junto à base, o meu nome.
Gostei também de fazer um outro busto, este mais pequeno, mas muito belo: trata-se da reprodução de uma obra do célebre Mestre escultor que foi Teixeira Lopes, com o nome Flor Agreste, cuja encomenda foi feita pelo médico de Ovar Sr. Dr. Afrânio Lamy.
Esta é a memória de um aprendiz de fundidor que deu por terminado o seu percurso de 16 anos na Bronzearte Lda., em Ovar, após o falecimento do seu fundador e grande Mestre, o Sr. Francisco Augusto da Silva.
Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Fevereiro de 2011)
SUGESTÃO: LEIA TAMBÉM O ARTIGO A ARTE DO BRONZE EM OVAR, EDITADO NO BLOGUE DA REVISTA REIS.



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