20.1.11

Quem foi Clemente Meneres?

Jornal JOÃO SEMANA (15/06/2005)
TEXTO: José de Oliveira Neves

No regresso de um passeio com a família a Miranda do Douro, no nordeste transmontano, e já muito próximo de Mirandela, resolvemos fazer um pequeno desvio para ver uma típica povoação, denominada Romeu, onde nos diziam haver um interessante “Museu de Curiosidades”.
Confesso que não estava muito entusiasmado em fazer essa visita, pois julguei que iria ver um museu vulgar, com alguns objectos antigos pertencentes ao povo daquela aldeia… Mas não!

A Quinta do Romeu

Mal chegámos à povoação de Romeu, logo nos explicaram que aquele estabelecimento público reunia várias coisas pertencentes ao Sr. Clemente Meneres, grande empresário da segunda metade do séc. XIX.
Ao entrar no edifício, logo constatei estar na presença dum belo museu, em nada inferior a alguns que conheço nas grandes cidades.
Fábrica de conservas A Varina
Estão ali expostas autênticas peças únicas, coleccionadas, através dos tempos, por vários membros da família Meneres, desde os antigos automóveis Ford – sendo o mais antigo um T de 1909 – até carros de cavalos, bicicletas e biciclos. Podem também ver-se as primeiras máquinas fotográficas, de cinema, caixas de música, relógios, máquinas de costura, apetrechos de lagares de vinho e de azeite e diversos objectos e documentos dos finais do séc. XIX, quando da fundação daquela Casa Agrícola, agora transformada em museu.
Mas aquilo que mais me sensibilizou e surpreendeu foi ter encontrado ali, exposto, um quadro com uma varina, que até parecia a minha saudosa mãe naquele postal ilustrado que a Casa Santos, do Furadouro, editou nos anos 20.
Tratava-se de uma ilustração do princípio do séc. XX, anunciando uma fábrica a vapor (A Varina, em Ovar) de conservas de peixe, carne, frutas e legumes, da qual Clemente Meneres foi sócio de 1903 a 1908. Esta empresa, com a denominação social de Gomes, Meneres & C.ª Limitada, sedeada no antigo Largo do Mártir S. Sebastião (actual Praça Almeida Garrett), inaugurou em 1905, durante a permanência em Ovar de um filho deste empresário, de nome Agostinho, uma sucursal ao sul da Praia do Furadouro (grande armazém de madeira, que veio a ser do Mateiro), para a recolha e salga de sardinha capturada não só naquela praia, mas ainda na Torreira, S. Jacinto, Costa Nova, etc.
Esta ligação a Ovar daquele prestigiado homem de negócios no início do século passado, através da fábrica de conservas A Varina despertou o meu interesse em saber quem foi Clemente Meneres. Não foi fácil!
Reunindo algumas informações das pessoas responsáveis pelo “Museu da Curiosidade”, no Romeu, e também com o auxílio duma enciclopédia que me facultou o Sr. Padre Bastos, a quem, desde já, quero agradecer, consegui os elementos em que me baseei para poder compor este texto a respeito da sua vida.

De emigrante a industrial

Clemente Meneres
Nasceu Clemente Meneres no lugar da Cruz, da vizinha Vila da Feira, em 19/11/1843. Aos 16 anos embarcou para o Rio de Janeiro, onde se empregou no comércio e onde constituiu família.
Regressou a Portugal em 1863, estabelecendo-se no Porto, com negócio de exportação, o que o levou a viajar pela Europa e América do Sul.
Em 1874 adquiriu, no Romeu – Mirandela, grandes extensões de terreno e matas de sobreiros, dedicando-se à exploração corticeira. Desenvolveu as plantações florestais e iniciou outras culturas, especialmente a do vinho, transformando um ermo em importante centro agrícola. Instalou no Romeu uma fábrica de rolhas e de preparação da cortiça, ao mesmo tempo que fundava, no Porto, a primeira fábrica de conservas. Talvez esteja aqui a razão de se tornar sócio da fábrica “A Varina”, em Ovar, com o auxílio de seu filho Agostinho Fonseca Meneres, que veio a ser, como seu irmão José, um óptimo colaborador nos negócios do pai.
Estátua de varina que esteve
exposta no átrio da antiga
fábrica de conservas
(Largo Almeida Garrett)
e actualmente exposta no
Museu de Ovar

Clemente Meneres notabilizou-se também como um grande exportador de vinhos, percorrendo vários mercados externos para colocar os seus produtos.
Durante alguns anos dirigiu a Associação Comercial do Porto e fez parte dos corpos gerentes de várias instituições de instrução e beneficência naquela cidade, onde faleceu em 27/4/1916, e onde se encontra sepultado, no cemitério de Agramonte.
A municipalidade do Porto deu o seu nome à rua a norte do Jardim do Carregal, junto ao Hospital Geral de Santo António.
Achamos oportuno sublinhar que Clemente Meneres não tem ligação familiar próxima com o nosso ilustre conterrâneo António Ferreira Meneres que, em meados do séc. XIX, foi proprietário de umas caves de vinho do Porto e que ofereceu à nossa Igreja Matriz um artístico presépio em barro e cortiça, cuja autoria se atribui a Teixeira Lopes, de Vila Nova de Gaia, pai do conhecido escultor com o mesmo nome.
Seria de desejar que os investigadores da nossa história local se debruçassem sobre estas duas figuras, que contribuíram para o desenvolvimento da nossa terra.
Ferreira Meneres já foi homenageado por Ovar, que atribuiu o seu nome a uma rua da cidade.
Não merecerá também Clemente Meneres, pelo que fez na Varina, uma referência toponímica na nossa cidade?



Artigo publicado no quinzenário ovarense

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“Quem foi Clemente Meneres”

Complementando o texto de José de Oliveira Neves aqui publicado em 15 de Junho último, informamos que a Clemente Meneres (1843 -1916) sucedeu, na Quinta do Romão, seu filho José Meneres, que zelou pelo património da quinta e da região, criando uma cooperativa e uma Casa do Povo com consultório médico, farmácia e biblioteca.


À morte deste, coube a seu irmão Manuel Meneres a tarefa de dar novo impulso ao “Romeu” e às aldeias de Vale de Couço e Vila Verdinho, particularmente no campo da agricultura e da assistência social, com ajudas estatais (Junta de Colonização Interna e Ministério das Obras Públicas).
A Manuel Meneres se deve a criação do Restaurante Maria Rita e do Museu das Curiosidades, onde se guardam relíquias do passado, entre as quais alguns velhos exemplares de automóveis (isto devido ao seu relacionamento com Manuel Alves de Freitas, da Ford, do Porto, de quem se tornou genro).
Do outro filho de Clemente Meneres, Agostinho da Fonseca Meneres, que residiu em Leça da Palmeira, e a quem aqui nos referimos há 15 dias, apresentamos um curioso postal/fotografia do tempo em que esteve ligado à gerência da fábrica A Varina, em Ovar e Furadouro.
Este postal, acompanhado por uma amável carta, foi enviado a José de Oliveira Neves pelo senhor José Clemente de Oliveira Meneres, da Sociedade Clemente Menéres, Lda., Porto, neto de Clemente Meneres.
A foto não tem data, mas sabe-se que Clemente Meneres fez parte da sociedade entre 1903 a 1908, época em que também foi aberta a secção no Furadouro. TEXTO: Manuel Pires Bastos ("João Semana", 1 de Julho de 2005)

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Ainda Clemente Meneres

Da professora e escritora vareira Isabel Almeida Ferreira, residente na Póvoa do Varzim, recebemos uma amável carta que reproduzimos:

Póvoa de Varzim 19 de Julho de 2005
Exmo. Sr. Director do Jornal “João Semana”

Estátua da Varina
 (Pormenor) 
No “João Semana” de 15 de Junho de 2005, a ilustrar o artigo intitulado “Quem foi Clemente Meneres?”, da autoria de José de Oliveira Neves, foi publicada uma fotografia da estátua da Varina, actualmente exposta no Museu de Ovar [ver foto em cima]. Ao vê-la, ali reproduzida, vieram-me à lembrança imagens da minha infância, quando “brincava” com essa mesma varina, que se encontrava à entrada da Agência de Viagens Almeida, situada no Largo Almeida Garrett, pertença do meu avô José António Rodrigues de Almeida, que a adquiriu quando, juntamente com o seu irmão Manuel Rodrigues de Almeida, compraram a fábrica “A Varina”, para ali implantarem um armazém de vinhos.
Esta estátua – na verdade uma admirável obra de arte, que já em menina exercia em mim um certo fascínio, a tal ponto de me orgulhar de, também eu, ser uma varina que, quando crescesse, iria ser tão bonita quanto ela (coisas de criança!), foi doada ao Museu de Ovar pelo meu avô José António, quando este passou ao Sr. Delmar Marques Pereira a referida Agência.
Apenas um detalhe ao redor de uma estátua que fez parte da minha infância e que agora é património de todas as varinas e vareiros.

Com os meus melhores cumprimentos,
Isabel Almeida Ferreira
("João Semana", 1 de Agosto de 2005)


Nota do autor: Este Meneres não é da família Ferreira Meneres de Ovar. [Clique no link a azul]

4 comentários:

Luís Bonifácio disse...

Clemente Menéres também tem uma avenida com o seu nome em Matosinhos.
É a primeira Avenida perpendicular ao mar, que entra pela Rua Brito Capelo.

Fernando Pinto disse...

Obrigado pela visita ao nosso blogue e pelo comentário. Registamos com agrado a sua informação.

Cumprimentos de Ovar

Manuel Ribeiro disse...

a minha primeira residência no Porto. Rua Clemente Meneres)
,mas não sabia quem foi este Senhor. Obrigado

Afonso Bernardo Grego de Freitas disse...

Sou Bisneto de Manuel Alves de Freitas

Neto de Manuel Alves de Freitas Jr.

Filho de Manuel Pedrosa Alves de Freitas