13.1.11

Francisco de Oliveira Gomes Ramada – Um coração, um homem, um líder

Francisco Ramada (1888-1978)
Jornal JOÃO SEMANA (15/07/2010)
TEXTO: Serafim Oliveira Azevedo

Não é do grande empresário que venho falar, mas do Pai Chico, como era ternamente tratado pelos trabalhadores da F. Ramada.
Eu também continuo a recordá-lo com ternura, muita gratidão e grande amizade, pois foi graças a ele e ao valor que ele dava à instrução, cultura e qualidades humanas de quantos trabalhavam na sua empresa, que eu consegui realizar os fins que me impus quando comecei a leccionar na Escola do Conde de Ferreira.

De pescadores para operários

Quando cheguei ao Conde de Ferreira, recebi uma turma de 48 alunos, a maior parte dos quais morava nos bairros do Lamarão e na rua Castilho. Vi que tinham capacidades, e que mereciam mais do que serem pescadores na praia do Furadouro.
Dei umas voltas por aquele bairro e pela referida rua, e cheguei à conclusão de que precisavam de conviver a sério com os filhos dos operários de fábricas e da construção civil.
Na escola nunca descurei incutir junto dos meus alunos a vontade de procurarem outros meios de ganhar a vida. Fi-lo da primeira à quarta classe, e, no fim, tive a grande alegria em saber que só um deles seguira a vida de pescador. Mas mesmo esse, o Pereira, decidiu-se a ir para Matosinhos.
A maioria dos meus alunos foi trabalhar para a F. Ramada, empresa que crescia a olhos vistos. Eram os aços, as catanas, os botões, a carpintaria, os serrotes, a agricultura, as ostras. Até parecia que o senhor Ramada procurava criar postos de trabalho para satisfazer quantos lhe batessem à porta a pedir emprego.

Apoio à instrução

Todavia, não era só da actividade manual que ele cuidava. Também a instrução dos seus trabalhadores e dos seus filhos lhe merecia o maior apreço. Não estou nem quero falar daqueles a quem F. Ramada deu oportunidades e condições para tirarem cursos superiores. Falo dos filhos dos trabalhadores a quem a firma pagava as despesas dos seus estudos – o Álvaro Pinto, os Nunes, netos da senhora Hermengarda, etc. – é que podem dizer o quanto esta ajuda se reflectiu no seu futuro.
Mas também aos operários que, a partir de 1958, passaram a frequentar o 1.º Curso de Educação de Adultos de Ovar, a F. Ramada – e a Fanafel – pagavam as horas que a frequência das aulas lhes ocupava.
Até os professores agregados que em 69-70 leccionaram neste concelho devem a F. Ramada, sem o saberem, o terem recebido metade do mês de Julho e os meses de Agosto e Setembro. Marcelo Caetano decretara que quem trabalhasse depois do dia 15 de Julho teria direito a receber os vencimentos daqueles dois meses e meio. Para proporcionar um trabalho lucrativo para os referidos professores e útil para o concelho de Ovar, pensei em fazer um ficheiro com todos aqueles/as que tivessem feito o seu exame do 2.º grau no concelho de Ovar. Mas, para isso, precisava de mobiliário adequado para arquivar essas fichas. Foi quando o Sr. Ramada, logo que lhe falei no assunto, me bateu nas costas, comentando: “– É uma óptima ideia; trate das fichas, que eu mando pôr o mobiliário nos Combatentes”.
Foi sempre assim. E nem me deixava agradecer-lhe, por se tratar de um benefício para o concelho e para os alunos que eu leccionava. É que, até 1971, o Delegado Escolar leccionava e, simultaneamente, fazia o serviço da Delegação. (Era por isso que ninguém queria o cargo, só desempenhando essas funções por amor à causa e por espírito de sacrifício.)
Na organização do ficheiro foi importante a dedicação do Professor Manuel da Silva Ferreira, natural de Sande, deste concelho. Era um prazer vê-lo alfabetar as fichas – foram milhares – e dispô-las nas respectivas gavetas. Era um óptimo colega e uma excelente pessoa. Pena foi ter falecido tão novo. Foi peça importante num trabalho pioneiro (e único, creio eu) nas Delegações Escolares.

Uma cantina escolar

Mas voltemos ao Sr. Francisco Ramada, lembrando que ele não só ajudou a alimentar o espírito, como também o corpo dos mais necessitados.
Quando um dos meus alunos me caiu de fome no corredor da escola, resolvi procurar os meios materiais necessários ao funcionamento de uma cantina escolar. Para isso, bati à porta de cada uma das fábricas vareiras, e todas as bolsas se abriram para contribuições mensais ou anuais. Um industrial impôs-me uma condição: dava uma boa contribuição anual, mas a cantina deveria beneficiar as quatro escolas da sede do concelho: Combatentes, Oliveirinha, S. Miguel e Ribeira. Esse industrial foi o Sr. Francisco Ramada.
Aceitei o desafio, e fui pedir auxílio aos Sr. Presidente da Câmara, Carlos Nunes da Silva, pois precisava de meio de transporte para repartir a sopa e o pão pelas quatro escolas. O Sr. Presidente da Câmara conseguiu uma carrinha que, cinco dias por semana, repartia pelas outras três escolas a comida que era preparada nos Combatentes pela Magnífica, a empregada paga pela Cantina Escolar S. Cristóvão – era esta a sua designação oficial. Foi assim até ao final do ano lectivo de 1973/1974. Depois veio nova Direcção, e a Cantina deixou de funcionar. Desconheço os motivos, mas enquanto funcionou, teve sempre uma vida desafogada, e isso tenho de agradecer a quantos responderam de coração aberto ao apelo feito por mim, pelo Reverendo Manuel Fernandes (mais tarde advogado e até Presidente da Câmara de Ovar), e pela Professora D. Fileta Bonifácio.

Outros beneméritos

Na pessoa do Sr. Francisco Ramada homenageio os restantes accionistas da firma: filhos, genros, noras, o Sr. António Coentro de Pinho, que sempre apadrinhou as minhas iniciativas, o Sr. Francisco Correia de Almeida, e ainda o meu “embaixador”, Sr. David Almeida, para os pedidos de ajuda aos filhos dos trabalhadores da firma que desejassem estudar.
Nesta altura de crise, devemos “trazer à pedra” os nomes daqueles que tornaram possível o “salto” que Ovar deu na década de sessenta. Aos nomes citados posso acrescentar os Borges, da Rabor, o Álvaro Rola, da Sicor, e o Armando Alves, de Esmoriz, que muito fez para que os tanoeiros da sua terra não sentissem a crise que afectou a sua profissão.
Estes nomes, e outros menos sonoros, mas também de grande valor, sirvam de exemplo à geração actual, para que esta não desfaleça, antes lute, como eles o fizeram, por uma vida melhor. Vamos a isso!...

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de julho de 2010)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2011/01/francisco-de-oliveira-gomes-ramada.html

1 comentário:

Anónimo disse...

Que saudades!! Que bonito! Obrigado pela minha parte. Maria Ramada Leite