18.12.10

A vitalidade do mito de Santa Camarão

Jornal JOÃO SEMANA (15/2/2003)

TEXTO: Luís Filipe Maçarico

“(…) Como fui envolvido

Na sequência da sugestão de um grupo de cidadãos (O Grupo de Reflexão Pró-Ovar), foi decidido pelo Pelouro do Desporto da Câmara Municipal de Lisboa elaborar a biografia de José Santa e fui incumbido da sua realização. A pesquisa, a análise dos dados, a criação e a digitalização do texto efectivaram-se num curtíssimo período (quatro meses), pois era objectivo inicial meu e da autarquia onde exerço funções trazer-vos o livro “Com o Mundo nos Punhos – Elementos para uma biografia de José Santa “Camarão”, cujo compromisso de publicação foi assumido pelo vereador Dr. Pedro Feist.
(…) Além da Biblioteca Municipal e das entrevistas realizadas nesta cidade, a pesquisa desenvolveu-se na Hemeroteca Municipal de Lisboa, no Gabinete de Estudos Olisiponenses, no Arquivo Fotográfico Municipal da capital, na Biblioteca do “Diário de Notícias”, na Biblioteca do Centro de Estudos de Antropologia Social do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa e Mediateca do Museu Nacional de Etnologia. Todavia, a consulta mais surpreendente decorreu na Biblioteca Nacional e na Mediateca de Centro de Estudos e Formação Desportiva, onde encontrei livros supostamente escritos pelo próprio Santa e diversos títulos sobre boxe de autores portugueses ligados à modalidade.
Durante a recolha efectuada em Ovar, primeiro em Julho, depois em Agosto, pude conhecer pessoas notáveis, generosas, de grande valia para a memória colectiva da cidade, todos empenhados em não deixar no esquecimento o exemplo de percursos que marcaram a história do povo vareiro.
(…) Fantástico foi, entretanto, ser divulgado de forma premonitória pelo “João Semana” de 15 de Julho – quando eu ainda pensava que a minha tese de mestrado em antropologia teria como tema o museu de uma popular colectividade de Lisboa – que o tema dessa prova académica seria o Santa “Camarão”… (…)

Algumas descobertas ao longo da pesquisa

A primeira descoberta que a elaboração da biografia de José Santa proporcionou foi a da obra existente na Biblioteca Nacional “A Vida de José de Santa Camarão por ele mesmo”, um livrinho dos anos 20, antes do jovem correr Mundo, onde se relatam episódios marcantes como este: “Eu tinha ido à terra, contente por ver a minha mãe e por levar alguns tostões comigo. Quis comprar umas botas… Mas não havia em parte nenhuma botas que servissem aos meus pés…
Então, desesperado, agarrei minha mãe pelos hombros e gritei-lhe com a voz cortada por soluços de desespero: – Porque foi que vocemecê me fez assim tão grande, porquê, porquê?”
Mais adiante, Santa conta: “Consegui fazer várias vezes o que a mais ninguém era permitido (…) É à minha força que eu devo ter tido certo desafogo na minha vida marítima. As minhas costas aguentaram as cargas mais difíceis. Isto hoje custa um pouco a contar, mas não se resiste a um certo orgulho. Não havia ninguém que levantasse como eu a carga pesada dos sacos. Apostavam comigo. Eu sorria. Aceitava. E lá ia ganhando sempre. Eram esses os únicos momentos em que me sentia feliz. À nossa vida à parte, num mundo só nosso, não chegava o conhecimento do sport. A gente sabia lá o que isso era!”
A ida ao Coliseu dos Recreios é assim recordada:
SANTA CAMARÃO

“Uma noite entrei no Coliseu e li por todos os lados – luta, luta… (…) Com alvoroço vi abrirem-se as cortinas. E na sala começaram a entrar (…) homens enormes, pesados, fortes, gigantescos!
Que hora de comoção a minha. Estaria ali o meu futuro (…) O público a cada um que entrava tinha um ah! Prolongado de espanto e de admiração.
E eu pensava alvoroçadamente: – Mas então aqueles não são ridículos, ninguém se ri deles! Toda a gente os respeita…”
Posteriormente, descobri um outro volume com José Santa no frontispício “Para ser um bom boxeur”.
“O motivo – explica o editor – justifica-se pelo facto de Santa ser a única esperança portugueza. O único cartaz vivo do que foi o boxe portuguez alguns anos atráz. O principiante necessita que o homem que o aconselha lhe inspire confiança, o lance decididamente no campo prático. Para isso é necessário um nome, um campeão”.

(Extracto da palestra apresentada por Luís Filipe Maçarico na Biblioteca Municipal de Ovar, em 28/12/2002).

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Janeiro de 2003)
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“Homem grande, mas modesto e humilde”

Jornal JOÃO SEMANA (15/2/2003)

TEXTO: Aníbal dos Santos Gomes

Embora conhecesse o Santa Camarão na década de 40, convivi com ele diariamente a partir de 1952 e até à sua morte, ocorrida em 5 de Abril de 1968, até porque trabalhei, durante cerca de 15 anos, no “Café Neves”, local onde o Santa Camarão passava os seus tempos livres, jogando dominó, as damas clássicas e a sueca, e cavaqueando com os seus amigos frequentadores deste espaço de lazer.Tive o privilégio de lhe servir milhares de cafés a 1$00, 1$20 e, mais tarde, a 2$50.
José Santa junto ao café Neves
Acompanhava os seus passos nessa época em que ele era visitado por excursões oriundas de vários pontos do país, sendo solicitado para entrevistas para os jornais e revistas desse tempo.
Homem grande, mas modesto e humilde, foi figura de relevo a nível nacional e até internacional através de boxe, desporto em que se tornou um ídolo mundial.
Recordo-me de que, na década de 50, tendo ele ido ao Porto, o que fazia mensalmente, para receber umas rendas, e quando subia a rua dos Clérigos, tropeçou e caiu, tendo feito algumas escoriações ligeiras pelo rosto.
Prudentemente, resolveu passar pelo Serviço de Urgência de Santo António, ali bem perto, onde foi tratado.
No dia seguinte, o “Jornal de Notícias” fazia, na 1.ª página, o destaque do acontecido e desenvolvia a notícia, com algum sensacionalismo jornalístico, nas páginas interiores.
Quando chegou ao café e lhe mostrei a notícia, ele ficou surpreendido com o relevo que lhe era dado.
Por esse sensacionalismo do “JN”, o jornal diário que ele lia no Café Neves, se constata que, nessa época, ele era ainda uma figura desportiva de destaque nacional.

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Janeiro de 2003)




NOTA: José Soares Santa “Camarão” foi incluído na lista “Cem Desportistas, Cem Anos da República”, uma iniciativa da Confederação do Desporto de Portugal, cuja distinção foi entregue em 16 de Novembro de 2010 na 15.ª Gala do Desporto, efectuada no Casino Estoril, ao seu biógrafo Luís Filipe Maçarico, em representação da Confederação Portuguesa das Colectividades de Cultura e Desporto. Este reconhecimento deve-se em grande parte à colaboração dada por diversos elementos da comunidade vareira que conviveram com o pugilista ou que possuíam elementos preciosos sobre esta ilustre figura ovarense. O VÍDEO QUE LHE OFERECEMOS É UM FRAGMENTO DO FILME "AMOR NO RINGUE" (1930).

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