4.12.10

Uma carta de Salazar seminarista (1908)

Jornal JOÃO SEMANA (1/12/2010)


Neste Centenário da República, achamos de interesse dar a conhecer um texto de 1908 saído do punho de Salazar, quando estudante no Seminário de Viseu.
Trata-se de uma carta dirigida, em Março de 1908, aos estudantes do Seminário do Porto. Certamente por ser representante da Academia deste Seminário o então jovem António Eduardo da Silva Cravo (Loureiro 21/9/1887-Rio de Janeiro 25/6/1981), futuro Barão de S. João de Loureiro (na última foto), guardou-a no seu espólio, conservado pela família na sua casa de Valverde (hoje Quinta do Barão).
Redigida em clima pré-revolucionário, um mês após o Regicídio, entendemos que poderá contribuir para compreendermos as tensões então existentes quer entre grupos políticos monárquicos e republicanos, quer entre a Igreja e o poder civil no período que antecedeu a promulgação da República, cujo centenário estamos a comemorar.  P. B.


Por uma Liga de Propaganda da Boa Imprensa

Princípio da carta de Salazar que se transcreve em seguida

Seminario de Vizeu, 15/3/1908
Caros amigos
Salazar
… Que amigos devemos ser, e bem unidos, para não fraquejarmos na grande lucta pelo mesmo ideal. E é desta lucta e dos meios de que havemos de lançar mão, para que mais fácil e mais seguro seja o nosso triumpho, que vamos fallar-vos, nós, os seminaristas de Vizeu. E estranhar não deveis que de tal assumpto nos occupemos, hoje que se exige a conjugação de esforços, para que, isolados, não sejamos esmagados, pela onda avassalladora da desordem e da desmoralização, legitimos filhos do anticatholicismo revolucionário.
É misera a condição da nossa patria, e gravemente ameaçada, bem vêdes que está a divina Egreja de J. Christo. A seus ministros, a todos os seus filhos, – não é avançar muito, sustenta-lo! – incumbe a ponderosa obrigação de trabalhar em defeza da religião e na salvação da nossa querida pátria! Nós vimos, caros amigos, que a causa das nossas desgraças e ameaça incessante de nossa ruina, é a desmoralização que campeia infrene, produzida por uma grande falta de fé, que se accentua cada vez mais, que se sente e se vê, não fallamos já nas camadas mais elevadas da sociedade, mas ainda nas mais baixas, no povo, onde rareiam as crenças sinceras, e se é cathólico, – que vergonha! – por tradição!... À imprensa se attribuem, e com toda a razão, a maior parte destes males; à má, entenda-se, que não à bôa, que relevantissimos serviços tem prestado no campo catholico. Pois bem! Se o mal, se a doença que mina e ameaça matar para a fé e para a grandeza, o povo portuguez, foi produzida pela má imprensa, que envenenou a sociedade, curemos o mal com a boa, propagando-a, defendendo-a, quando demais, está, em o nosso paiz, passando uma vida amargurada! Estas resoluções tomaram-nas, apoz uma festa celebrada a 8 de Dezembro, (como podeis vêr no “compromisso” junto), os seminaristas de Vizeu. Estudando o melhor modo de praticar o compromisso tomado aos pés da Virgem, fundamos com vizivel agrado e plena approvação de nossos Superiores, uma “Liga de Propaganda” da Bôa Imprensa. Esta Liga com as quantias mensalmente pagas pelos alunos e outras pessôas que queiram subscrever-se, compra e assigna jornaes, que são gratuitamente enviados a diversos indivíduos, para que, conhecendo-os e apreciando-os, os comecem a assignar apoz o tempo, em que por nossa conta os recebem.
Não sereis vós certamente quem ha-de pôr em duvida, a grandeza, importancia e efficacia da obra, que emprehendemos. A vós, dando-vos conta do que fazemos, resolvemos escrever, preguntando também se nesse Seminario alguma coisa ha neste sentido, ou se nisso pensam os briosos Seminaristas. Em correspondencia com os de Sevilha, que amavelmente nos tem mandado e offerecido sempre os seus meios de propaganda, soubemos que para o vosso dig.mo Vice-Reitor, haviam escripto, pedindo que fosse entre vós fundada uma Liga.

Seminário Maior do Porto
(varanda de S. João de Brito, debruçada sobre o rio Douro)
Secundamos o seu pedido com o maior enthusiasmo, e se elle alguma coisa vale por ser de amigos e filhos da mesma terra, em que mais se sente a necessidade destes meios, queremos ter em breve a satisfação de saber que muito se trabalha no vosso Seminário pela Bôa Imprensa. Estamos em começo de vida, no entanto ao vosso dispôr pomos tudo o que temos, todas as informações que precisardes, e que pudermos dar-vos.
Amigos: O momento é grave e de lucta! Criminoso será aquele que cruzar os braços, na immensa derrocada a que assistimos!
Seminaristas portuguezes: É Portugal que periga! É a Egreja que ameaçam! A terra formosa, de victorias sem conto e glorias sem par, a terra que nos viu nascer, em que o sol primeiro nos sorriu, e soltamos os primeiros vagidos affogados nos beijos ternos de nossas mães, que a mesma pátria possuem e no mesmo Deus acreditam, periga, clama por nós! Negar-lhe-hemos o que podemos dar-lhe?
Não são indifferentes aos males da Patria e da Religião, seminaristas portuguezes! Mostrae que assim é, e pela Bôa Imprensa sejam de hoje para o futuro o vosso trabalho e a vossa dedicação!
Para nós só queremos a satisfação de vêr em seminaristas, nossos amigos e nossos collegas, tão grande amor e tanta dedicação, que em muito excedam a muita que temos.


Abraçam-vos e saudam-vos os vossos collegas de Vizeu
Pela Comissão de Propaganda
O presidente
Antonio d’Oliveira Salazar
Seminario de Vizeu


Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Dezembro de 2010)

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