20.11.10

Ovar na evolução literária de Júlio Dinis

Júlio Dinis
Jornal JOÃO SEMANA (15/08/2008)
TEXTO: António Ferreira Valente

O Dr. Joaquim Guilherme Gomes Coelho, que usou o pseudónimo de Júlio Dinis, faleceu à primeira hora do dia 12 de Setembro de 1871, depois de uma longa agonia de três quartos de hora, em casa de seu primo José Joaquim Pinto Coelho, na Rua Costa Cabral, n.º 323, no Porto, onde, nos últimos momentos, teve a presença do seu amigo Custódio Passos (irmão do poeta portuense ultra-romântico Soares de Passos).
Foi sepultado no cemitério que então havia junto da Igreja de Cedofeita.
Com a extinção deste cemitério, em 20 de Agosto de 1888 foram transladados os restos mortais do escritor, assim como os de seu irmão José Joaquim Gomes Coelho Júnior, para o jazigo n.º 58 do cemitério privativo da Ordem de São Francisco em Agramonte, onde já estava sepultado seu pai José Joaquim Gomes Coelho, irmão daquela Ordem, da qual também fora médico. (O pai faleceu em Lisboa, em casa de sua neta Ana, no dia 21 de Julho de 1885).
Em 1939, o 1.º centenário do nascimento do escritor Júlio Dinis foi comemorado com forte adesão popular e de várias instituições portuenses, com iniciativas próprias, culminando com a romagem que partiu do Palácio de Cristal para o cemitério de Agramonte, com uma enorme moldura humana que ladeava a campa humilde onde pai e filhos repousam para a eternidade.
Actualmente, este pequeno jazigo é pouco frequentado, para não dizer esquecido, pois que até nos dias de finados raramente algum anónimo vai ali depor algumas flores.
Sinto um desgosto profundo quando visito este túmulo, pois, apesar de já ter denunciado o facto, há anos que permanece na mesma a desastrosa intervenção ali efectuada na intenção de avivar caracteres, mas que levou à adulteração ridícula das quadras de Soares de Passos dedicadas a José Joaquim Gomes Coelho Júnior, que faleceu em Dezembro de 1855, com 20 anos.
Joaquim Guilherme Gomes Coelho (Júlio Dinis), enamorado por Ovar, aqui permaneceu em 1863, na casa modesta de sua tia Rosa Zagalo, por um período de quatro meses, e em outras breves passagens posteriores, aqui encontrando motivos para escrever. Ovar, com o decorrer dos dias, ia-lhe dando elementos, desde a ida ao Furadouro, que o inspirou a escrever “O Canto da Sereia”, à intensa correspondência enviada e recebida, até à criação da sua obra-prima, “As Pupilas do Senhor Reitor”, e de “A Morgadinha dos Canaviais”.
Em Ovar o seu coração também foi tocado quando confrontado com os primeiros encontros com Ana Simões, uma das filhas de Tomé Simões, cuja casa Júlio Dinis passou a frequentar com maior regularidade. “Venceste meu coração com subtil arte de amor” é a dedicatória gravada, a seu pedido, num coração de madrepérola que, num momento único e íntimo, ofereceu a D. Ana Soares Barbosa Simões, personagem retratada na Margarida de “As Pupilas do Senhor Reitor”.
Esta jóia, que resistiu ao tempo, encontra-se entre o acerbo de Júlio Dinis instalado no Museu de História da Medicina “Maximiano Lemos” (na sala José Carlos Lopes, na Faculdade de Medicina do Porto, no 6.º piso do Hospital de S. João, no Porto). A mesma sorte não tiveram as cartas enviadas por Júlio Dinis a D. Ana Simões, porque esta, sentindo a vida extinguir-se, pediu à sua filha Emília para as queimar. Uma perda irreparável, pois as carta contribuiriam para dissipar o grande enigma, que alguns teimam em recusar, da possível paixão do escritor por D. Ana. Ou então, a hipótese provável da ida de Júlio Dinis, com familiares e conhecidos do lugar dos Campos, à tradicional e popular romaria ao Santuário de Nossa Senhora da Saúde em Vale de Cambra, “tão alto que a Senhora da Saúde é vista por quem anda no mar. (Os pescadores, em hora de aflição, viram-se para a santa e prometem pagar a ajuda divina. É por isso que os peregrinos são conhecidos por ‘vareiros’”).
Vejamos em que assenta aquela hipótese: Por essa altura, aquando da visita de dois dos seus melhores amigos vindos do Porto, o poeta Augusto Luso e Custódio Passos, estes não encontram Júlio Dinis na casa dos Campos, da qual se ausentara.
Tudo isto, e outros episódios interessantes são indicadores claros e evidentes da importância que Ovar veio a ter na vida literária de Júlio Dinis.

Casa-Museu Júlio Dinis

É bom lembrar que “Uma Família de Ingleses” se encontrava, há anos, metida numa gaveta, e só perante o êxito que tiveram “As Pupilas do Senhor Reitor” (no ano de 1866, em episódios no “Jornal do Porto”), e após ter regularizado o seu projecto pessoal, ao ser integrado na Escola Médica do Porto, onde leccionou, é que finalmente em 1887 é impressa essa obra, que viria a tornar-se outro êxito literário (a par da outra obra “A Morgadinha de Canaviais”, que sai nesse mesmo ano).
Lamentavelmente para Ovar, decorridos que vão quatro anos e oito meses (desde Janeiro de 2004), a Casa-Museu Júlio Dinis “continua encerrada temporariamente” para obras de remodelação. Recentemente foi deliberado e aprovado pela C.M.O. o anteprojecto de Requalificação e Ampliação do Museu Júlio Dinis – Uma Casa Ovarense. Mas é bom lembrar que este objectivo, que já é do conhecimento público há meses, continua sem qualquer resolução à vista, e neste já longo compasso de espera ainda não se vislumbra um final feliz, com todas as consequências da progressiva degradação que este edifício está sofrendo e da falta de cuidado por uma limpeza regular ao exterior que dignifique todo este espaço.
A obra de Júlio Dinis é “impregnada de bondade e de beleza, tão doce e tão afável, de tal modo conquistou o agrado do público”.
“O Homem morrera, mas o Escritor resistiu à morte, pois deixou uma obra que teve o raro condão de eternizar a memória do sublime artista que a concebera”!

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de Agosto de 2008)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2010/11/ovar-na-evolucao-literaria-de-julio.html

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