4.11.10

O 1.º Prior de Singeverga – Um grande de Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (15/5/1995)

TEXTO: Manuel Pires Bastos
Padre Oliveira Ramos

O grupo instalador do Mosteiro de Singeverga, em 25 de Fevereiro de 1892, era formado pelos Padres Manuel Baptista Lopes de Oliveira Ramos e António Ildefonso dos Santos Silva, que para ali foram destacados do Mosteiro de São Martinho de Cucujães, do qual o de Singeverga dependeu, como simples cela, até 1922, ano em que passou a Priorado independente até à sua elevação a Abadia (1938).
O Padre Ramos [na foto], nascido a 13 de Julho de 1866 em Ovar, e aqui baptizado, dois dias depois, era filho de José Joaquim de Oliveira Ramos e de Maria Clara Correia Vermelha.
Tomou hábito beneditino em Cucujães com 16 anos incompletos, em 10 de Julho de 1882, ali fazendo a sua profissão simples em 16 de Julho do ano seguinte e a solene em 5 de Julho de 1886, acrescentando, então, ao nome próprio que usava, o apelido Baptista.
Ordenado sacerdote em Lugo, na Galiza, a 27 de Janeiro de 1889, foi Superior de Singeverga a partir de 1897.

Em tempos de perseguição religiosa…

Segundo os cronistas da Sua Ordem, conseguiu, pela extrema prudência que o caracterizava, salvar o Mosteiro nos tempos conturbados de 1901 e, sobretudo, de 1910, vindo a ser nomeado seu primeiro Prior Conventual em 1922, quando da separação de Cucujães a que atrás se fez referência.

Igreja Matriz de Cucujães, outrora do Mosteiro (no princípio do séc. XX)
Ao facto de permanecer em regime de fundação se deveu, aliás, a possibilidade de se manter aberta esta Casa Conventual de Singeverga nos anos difíceis da 1.ª República, em que apenas puderam viver ali os dois monges sacerdotes: o Padre António Ildefonso, identificado como inspirador da figura do Padre Anselmo, do romance “A Catedral”, de Manuel Ribeiro, e que viria a suceder ao seu colega como Prior Conventual, morrendo como Bispo de Silva Porto (Angola) em 1958.
Os dois preparavam, na casa monástica, alguns rapazinhos com vocação religiosa, que se iriam juntar a outros estudantes no exílio (em Samos, na Galiza), sob a orientação de outro célebre beneditino e notável liturgista, D. António Coelho.
Padre Ramos
O Padre Ramos [na foto, quando jovem] ainda se encarregava da assistência espiritual do pessoal leigo da casa, particularmente de umas venerandas senhoras a cuja família se ficara a dever a fundação do mosteiro.
Em carta de 2/6/24, um desses rapazes refere assim o ambiente que se vivia em Singeverga nesse tempo de perseguição religiosa:
“Eu tinha feito doze anos. Era um garoto enfezado e tímido, e só sabia segar erva para os coelhos; nos intervalos decorava o hora-horae (…). À hora marcada, o senhor Padre Ramos aparecia, de breviário debaixo do braço, para o Ofício no coro da capela fechada. Nós alternávamos como podíamos os versículos do Saltério, por uns calhamaços em que os ss eram semelhantes aos ff.
Comíamos na Casa de Cima, num cubículo à beira da cozinha, onde a Se-Maria Pigueiros dava o caldito aos “meninos”; os senhores padres comiam com as senhoras, na sala de jantar. No fim das refeições, vínhamos para a Casa de Baixo, e eu trazia o “panelo” com a comida para o “Douro”, o cão que nos guardava o claustro. Quando o breviário mudava, levávamos o volume velho e trazíamos o novo da Casa de Cima; porque vestígios de monaquismo na Casa de Baixo, nem pensar!”

Simplicidade e espiritualidade altíssimas

Com este garoto viveu o futuro Frei Bernardo de Vasconcelos, que trocara as aulas na Universidade de Coimbra pelos estudos eclesiásticos, vindo a falecer, ainda jovem, em fama de santidade, e cujo processo de canonização corre, actualmente, em Roma.
Em carta de 17 de Junho de 1924 a um amigo, escrevia Bernardo de Vasconcelos:
“Não sei se já tive ocasião de te dizer que estive uns dias com o meu Superior [Padre Ramos] e com esse que o Manuel Ribeiro retratou na “Catedral”, chamando-lhe Anselmo” [Padre Ildefonso].
“Digo-te, contentíssimo, que me agradaram imenso esses dois monges, na simplicidade altíssima da sua vida, toda devotada a Deus Nosso Senhor.
Creio bem – e é essa uma das razoes por que escolhi a O. S. B. [Ordem de São Bento] – que são estes homens quem – com a sua espiritualidade toda d’amor – realiza melhor o ideal cristão. Conversei largamente com ambos, mas em especial com o Superior a quem – com a maior facilidade – expus a minha vida, os meus desejos, tudo quanto na minha alma tinha…
E ficou assente a minha entrada em Samos – apesar de tudo… – no próximo mês de Setembro”.
Muitos ilustres beneditinos e homens notáveis da nossa sociedade receberam do Dom Prior Manuel Baptista Ramos, naquele período difícil (“apesar de tudo…”), a chama que os havia de estimular à construção do “Portugal novo, ávido de cristianizar-se”, como definia Frei Bernardo a Pátria portuguesa de então, marcada ainda pelo anticlericalismo republicano.
Entre esses portugueses ilustres conta-se D. Gabriel de Sousa, futuro D. Abade de Singeverga, hoje a residir na Igreja de São Bento, no Porto, e que na última 5.ª feira Santa, junto à Sé Catedral da Cidade Invicta, nos recordou com ternura a memória do seu primeiro Superior quando se iniciou, em 1923, no estudo e na mística do ora et labora (“reza e trabalha”), que personaliza a mística da Ordem de São Bento.

A ele devo as informações amáveis que tornaram possível este pequeno retrato de um ovarense desconhecido dos seus conterrâneos, mas que, pelas suas virtudes e trabalhos, merece figurar na galeria dos homens grandes de Ovar.
Falecido em 21 de Setembro de 1925, com 59 anos, em Singeverga, o Padre Manuel Baptista Lopes de Oliveira Ramos está sepultado no cemitério de Roriz, freguesia do concelho de Santo Tirso, a que pertence aquele Mosteiro beneditino.

Assento de Baptismo do Padre Oliveira Ramos

“Aos quinze dias do mez de Julho do anno de mil oitocentos e sessenta seis pelas dez horas da manhã na Igreja Parochial da freguezia de S. Christovão, da villa, Concelho e Comarca d’Ovar, terceiro Distrito Eclesiastico da Feira, Dioceze do Porto, eu, o Presbyteri Francisco Dias Coadjutor da mesma freguezia, baptizei solenemente e pus os Santos Oleos a uma criança do sexo masculino a que dei o nome de Manoel, que nasceu às nove horas da manhã do dia treze do mez de Julho do anno de mil oitocentos sessenta seis, filho legítimo e primeiro do nome de José Joaquim d’Oliveira Ramos e de Maria Clara Corrêa Vermelha, de profissão Mercanteis, naturaes, Recebidos e Parochianos desta freguesia de São Cristóvão do Concelho d’Ovar, Dioceze do Porto, moradores na rua Direita das Ribas, Neto Paterno de José d’Oliveira Ramos e Anna Thereza de Jezus da mesma rua, e Materno de Manoel Joaquim Fernandes da Graça, e Maria Corrêa Vermelha da rua de Sant’Anna, Padrinho Manoel Corrêa Vermelho, de profissão Mercantel, solteiro, da rua Travessa das Ribas, e Madrinha Maria Rita Corrêa Vermelha, solteira, tia materna do menino, da rua Direita das Ribas, os quais todos sei serem proprios.
E para constar (etc.) / Não assigna a Madrinha por não saber escrever.
O Padrinho Manoel Correia Vermelho / O Coadjutor Francisco Dias”

Arquivo Distrital de Aveiro, Livro 68, N.º 198, f.ª 99, v.º)

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Maio de 1995)

1 comentário:

oasis dossonhos disse...

http://aguasdosul.blogspot.com/2010/11/santa-camarao-distinguido-como-um-dos.html