21.10.10

Pedro Homem de Mello

"Grande era a cidade e ninguém me conhecia.”
(A propósito do centenário do nascimento do poeta Pedro Homem de Mello)

Jornal JOÃO SEMANA (15/8/2004)
Pedro Homem de Mello

TEXTO: Manuel Bernardo

No próximo dia 6 de Setembro, passam cem anos sobre a data de nascimento do poeta Pedro Homem de Mello. Hoje já não serão muitos aqueles que o recordam, porque não se encontram, com facilidade, nas livrarias e bibliotecas, as mais de duas dezenas de livros que publicou…
Alguns ainda o recordarão como alguém que aparecia no pequeno ecrã da televisão (a preto e branco), apresentando, ao fim-de-semana, um programa de divulgação de folclore. Outros, como o autor dos versos que talvez fiquem imortalizados, na voz da nossa inesquecível Amália Rodrigues.
Mas… é possível que muitos daqueles que sentirem o arrepio que provoca escutar o fado “Povo que Lavas no Rio” ou a emoção causada pela canção “Fria Claridade” (“Grande era a cidade e ninguém me conhecia…”) não identifiquem o autor daquelas palavras.
Torna-se, por isso, necessário lembrar que Pedro da Cunha Pimentel Homem de Mello:
- Nasceu no Porto no dia 6 de Setembro de 1904. Frequentou as faculdades de Coimbra e Lisboa. Licenciou-se em Direito, na Universidade de Lisboa. Foi subdelegado do Procurador da República, advogado e professor, chegando a dirigir a Escola Comercial Mouzinho da Silveira (Porto);
- Colaborou em vários jornais e revistas (Diário de Lisboa, The Anglo-Portuguese News, Presença, Acção e Ocidente);
- Destacou-se como poeta, publicando mais de duas dezenas de obras (De Caravela ao Mar – 1934, a Sempre Sós – 1979);
- Viu onze dos seus poemas correrem o mundo, na voz da “nossa” Amália Rodrigues;
- Foi um grande estudioso e divulgador do folclore nacional. Interessou-se pelo folclore de Ovar, dirigindo grandes elogios ao Rancho da Marinha, quando, na noite de 30 de Junho de 1956, se deslocou à Assembleia do Furadouro para assistir a uma exibição deste agrupamento, facto que lhe inspirou um artigo intitulado “Na Beira Litoral, em danças folclóricas, a universidade é Ovar”, que o jornal “Notícias de Ovar” publicou em 19 de Junho de 1956.

Pedro Homem de Mello consagrou folclore vareiro

Pedro Homem de Mello, falecido em 5/03/1984, deu um contributo importante para a divulgação do folclore de Ovar, realizando, em 12 de Janeiro de 1960, um programa de televisão consagrado ao Grupo Folclórico de Ovar. Posteriormente, fez uma referência ao “Vira Vareiro”, no seu livro “Danças Portuguesas” (1962).

Ovar e o Rancho da Marinha não devem esquecer o centenário de Pedro Homem de Mello,
que considerou ser Ovar a universidade do folclore das Beiras
 Em 1996, a Câmara Municipal de Ovar deu o nome de Pedro Homem de Mello ao arruamento que liga a capela do lugar da Marinha à Tijosa.
Lembrando o homem, cumpre evocar, ainda, a sua obra literária:

Obras de Pedro Homem de Mello

1 - Poesia
“Caravela ao Mar” (1934); “Jardins Suspensos” (1937); “Segredo” (1939); “Pecado” (1942); “Príncipe Perfeito” (1944); “Bodas Vermelhas” (1947); “Miserere” (1948); “Adeus” (1951); “Os Amigos Infelizes” (1952); “Rapaz da Camisola Verde” (1954); “Grande, Grande Era a Cidade” (1955); “Poemas Escolhidos” (1957); “Há uma Rosa na Manhã Agreste” (1964); “Perguntas Indiscretas” (1968); “Povo que Lavas no Rio” (1969); “Nós Portugueses, Somos Castos “ (1967); “O Desterrado” (1970); “Fandangueiro” (1971); “Eu Desci aos Infernos” (1972); “Cartas de Inglaterra” (1973); “Ecce Homo” (1974); “Pedro (1975); “Sempre Sós” (1979).

2 - Estudos sobre Danças e Cantares
“A Poesia na Dança e nos Cantares do Povo Português” (1941); “Danças Portuguesas” (1962).

Poemas que deram origem a canções
Poemas de Pedro Homem de Mello (11) cantados por Amália Rodrigues; “Povo que Lavas no Rio” (com a música do “Fado Vitória”, de Joaquim Campos; “O Rapaz da Camisola Verde”; “Cuidei que Tinha Morrido”, “Fandangueiro”; “A Minha Terra é Viana”; “Havemos de ir a Viana”; “Gondarém”; “Prece” (música de Alain Olman); “Fria Claridade” (música de José Marques do Amaral); “Olhos Fechados” (música de Armando Góis); “Quando os Outros te Batem Beijo-te Eu” (música de Armando Machado).

No livro “Danças de Portugal” (editado pela Livraria Avis – Porto) são referenciadas mais as seguintes obras (sem indicação de data):
“Romaria” (conto), “Estrela Morta” (poemas), “De Portugal ao Mundo” (selecta), “Antologia da Literatura Portuguesa”, “Terra Portuguesa” (selecta), “Danças de Portugal” (Manual de Danças de Entre o Douro e Minho).

BIBLIOGRAFIA
1 - Monografias:
“Dicionário de História do Estado Novo”, vol II, pág. 560; “Danças Portuguesas”, pág. 77 (1962); “Biblos”, vol. 3, págs. 618-619; “Histórias do Fado”, págs. 370-371; “Amália: uma biografia por Vítor Pavão dos Santos, págs. 96, 150-151, 315-316; Amália: Uma Estranha Forma de Vida”, pág. 189; “Monografia de Ovar”, vol. 3, págs. 344-345 e vol 4, pág. 155.

2 - Artigos de publicações periódicas:
“O Rancho da Marinha: Divulgando o Folclore Vareiro!, in “Notícias de Ovar”, A VIII, nº 408, de 5 de Julho de 1956, pág. 1; “Na Beira Litoral, em Danças Folclóricas a Universidade é Ovar” in NO, A VIII, de 19 de Julho de 1956, págs. 1 e 2; “Pedro Homem de Mello”, in NO, A VIII, de 2 de Agosto de 1956, pág. 1; “O Grupo Folclórico de Ovar na Televisão”, in NO, a XII, nº 591 de 7 de Janeiro de 1960, pág. 1; “O Grupo Folclórico de Ovar na Televisão”, in NO, A XII, nº 592 de 14 de Janeiro de 1960, págs. 1 e 4.

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Agosto 2004)

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Que homenagem a Pedro Homem de Mello?

Jornal JOÃO SEMANA (15/11/2004)

TEXTO: José Maria Fernandes da Graça

Em 15 de Agosto último, foi publicado no “João Semana” o artigo “Grande era a cidade e ninguém me conhecia”, da autoria de Manuel Bernardo, recordando que ocorre, no ano em curso, o 1.º centenário do nascimento de Pedro Homem de Mello (6/9/2004), um poeta de grande merecimento a quem a cultura popular de Ovar muito ficou a dever e que nos deixou em 5/3/1984.
Muita gente estará recordada de um programa de folclore de grande audiência que Pedro Homem de Mello manteve semanalmente na RTP.
Foi através desse programa que o País ficou a conhecer e a admirar o até então quase ignorado Rancho Folclórico da Marinha.
Foi notória a simpatia que o autor do programa dedicou às nossas danças e também aos seus executantes, a quem endereçou, algumas vezes, as mais lisonjeiras referências, sendo disso prova os seus escritos, saídos em várias publicações.
Estamos a recordar-nos de que, numa determinada data que não podemos precisar, por já terem decorrido muitos anos, Pedro Homem de Mello manifestou aos responsáveis do Rancho o seu desejo de que se fizesse um ensaio, à noite, de forma a que pudesse mostrar a uma senhora canadiana, muito versada em folclore, a beleza das nossas danças e a “raça” dos respectivos executantes.
O ensaio efectuou-se no Salão de Festas da Rabor, e garanto-lhes que era bem visível a satisfação da referida senhora, e que entre ambos se trocaram algumas palavras que denunciavam o entusiasmo e a admiração de que estavam possuídos.
Lembramos que uma das moças, num gesto de cativante simpatia, ofereceu à senhora canadiana, não sei se um avental se uma blusa. (Inclinamo-nos mais para a segunda hipótese).
Depois da publicação, neste jornal, do artigo de Manuel Bernardo, sempre pensámos que algumas entidades locais não deixassem passar em claro uma data que se prestava, à maravilha, para que Ovar pagasse uma dívida que tem em aberto para com o ilustre poeta.
Em boa verdade, nada vimos que nos leve a crer que tenha sido ouvido o alerta do autor do artigo, o que muito sinceramente lamentamos.

Pedro Homem de Mello
Damos algumas sugestões, se tal nos é permitido:
1 – Não seria altura de descerrar, com o mínimo de dignidade, a placa que dá o nome de Pedro Homem de Mello a uma artéria do lugar da Marinha?
2 – Não viria a propósito a realização de uma sessão solene no Salão Nobre dos Paços do Concelho ou na Biblioteca, onde pudesse ser evocada a figura do poeta e do folclorista?
3 – Seria despropositado organizar um desfile integrado por todos os nossos ranchos folclóricos? Talvez fosse um acontecimento de grande efeito, porque reuniria uma quantidade muito apreciável de participantes.
Através do folclore, Pedro Homem de Mello manteve uma ligação muito estreita a Ovar e, nesse campo, devemos-lhe muito.
Ainda ficamos esperançados em que haja alguém que dê um passo em frente. Pagar uma divida, mesmo um pouco tarde, é sempre gratificante e muito honroso.

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Novembro de 2004)

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