28.9.10

Manuel Alves Pardinhas – um homem de vocações

Jornal JOÃO SEMANA (01/05/2009)
TEXTO: Fernando Pinto

«Ao escrever, descrever e analisar, o escritor, como qualquer produtor de obra de arte, ou outra afinal, escreve e descreve e analisa-se a si mesmo e à sua circunstância, e como que se produz e reproduz. Não se lhe esgota o talento criativo nesta ou naquela produção, nem a obra literária, nascida e autonomizada, se prende à sorte eventual do seu demiurgo. A obra pode ser crítica do autor e este dela. Facilmente se passa de sujeito a objecto literário, e não só.
Desde já, é agradável sentir-se o autor agasalhado no mérito e memória da sua obra de algum dia, adormecida embora no pó de qualquer estante e no sorriso parado dos seus heróis.
Escrever tem algo de destino e de vocação.
Esse Livro é um testemunho.» (Manuel Pardinhas, “Breves Palavras”, em “Para um Álbum Diocesano”)

Faz um ano que o Rev. Dr. Manuel Alves Pardinhas partiu. Teve uma vida longa – 83 anos bem preenchidos.
Confesso que as frases que servem de introdução ao presente artigo continuam a florescer no meu espírito. Escutei-as, pela primeira vez, corria o ano de 1995, aquando da composição deste seu livro. Aqui, no jornal “João Semana”, de pé, a meu lado, trajado de negro, com um punhado de folhas brancas nas mãos, da cor do seu cabelo, o Dr. Pardinhas lia e relia, em voz alta, estas suas “Breves Palavras”.
O seu rosto iluminava-se sempre que encontrava, abandonado sobre a mesa da redacção, um manuscrito de algum colaborador do jornal. Perguntava, a correr, de quem era aquela letra e, depois de satisfeita a sua curiosidade, dizia, quase soletrando: «– Não existem caligrafias bonitas, meu jovem! CA-LI-GRA-FI-A já quer dizer letra bonita.» E sorria...

Homem de leis e de letras
Sacerdote, jurista, professor, o Dr. Pardinhas era um cidadão do Mundo. Nasceu em Cortegaça em 27 de Fevereiro de 1925, e faleceu em 5 de Maio de 2008, em Vigo (Espanha), onde residia há alguns anos.
Descobriu o desenho das primeiras letras em Angola (Moçâmedes) e já na sua terra natal pôde fixá-las nos cadernos escolares.
Estudou nos Seminários de Vilar e da Sé, no Porto, tendo sido ordenado sacerdote em 20 de Setembro de 1947, pelo Bispo D. Agostinho de Jesus e Sousa.
Licenciado em Direito Canónico (Universidade de Salamanca) e em Direito Civil (Universidade de Coimbra), colaborou no Centro Académico da Democracia Cristã (CADC), de cuja revista “Estudos”, foi redactor e sub-director.

Barítono, professor e orador
Cantor e ensaiador do Orfeon Académico de Coimbra, de que foi Vice-Director artístico, viajou pelo país, pelo Brasil (cuja visita, realizada em 1954, deu azo à publicação de várias crónicas fixadas no “Roteiro do Brasil”, facto referido na edição n.º 8 da revista vareira “Dunas”), pelos Açores, em 1960 (“Capas Negras nos Açores”), e, mesmo depois de concluído o curso, por Angola e pelo Japão.

Professor no Centro de Cultura Católica do Porto, no Seminário Maior (durante cerca de 20 anos) e no Liceu Alexandre Herculano, da mesma cidade, trabalhou no Tribunal Eclesiástico (como notário e advogado) e na Pastoral Diocesana.
Cultivou com mestria a Oratória sagrada e colaborou em várias revistas e na imprensa, sobretudo regional. (No “João Semana” manteve por algum tempo a secção “Mel do meu favo”, onde discorria serenamente sobre temas de diálogo entre razão e fé).

Três das suas obras –“Rosa Rosas com Perfil” (1992), “Minha Terra Nossa Gente” (1993) e “Para um Álbum Diocesano” (1995) – foram compostas na redacção deste jornal. No prefácio da última, D. Armindo Lopes Coelho, na altura Bispo de Viana do Castelo e depois Bispo do Porto (1997), escreveu: «Inteligente e perspicaz, o Dr. Pardinhas assimilou o espírito académico, sobretudo coimbrão, que o faz vaguear na satisfação da curiosidade e da cultura, sem se deixar colar para não perder a liberdade, sem se vincular ao compromisso monótono para conservar a distância que é necessária à perspectiva e à análise crítica.»

Manuel Pardinhas, ao centro, no "Dia do Escritor Ovarense" (21 de Novembro de 1993)

Escolhi o início de “Regresso na Primavera”, último capítulo de “Para um Álbum Diocesano”, para terminar esta minha homenagem ao P.e Dr. Manuel Alves Pardinhas.
Tentem ouvir essas palavras, saídas das profundezas do seu espírito, como quem escuta o gorjear de uma andorinha rasgando o céu:
«Mas quando for de vez de férias – que o curso não dura sempre, os anos cansam e a própria memória escurece –, já não encontrarei ninguém. Chegarei tranquilo da grande Catedral perpendicular, apontando ao céu, e da grande Praça horizontal, partida, de muitas e variadas gentes, por onde andei e me gastei e me cumpri ou me cumpriram. Da meia volta que dei ao mundo, e da quase volta inteira que dei a mim mesmo, rezam as marcas das ilusões e os traços de neve que me coroam, e o que fazer é só com Deus.»

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de maio de 2009)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2010/10/manuel-alves-pardinhas-homenagem-um.html

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