14.10.10

Dagarei e Ovar no primeiro mapa impresso de Portugal

Jornal JOÃO SEMANA (15/03/2006)
TEXTO: A. Pinho Nunes

Já há muito que o Arq. Hélder Ventura me referiu ter visto numa exposição de cartografia, em Leça da Palmeira, salvo erro no Instituto Marítimo Portuário, um mapa antigo de Portugal em que aparecia este topónimo, situado perto de Ovar. O autor do mapa era um tal Álvaro Seco. Não há dúvida de que estamos em Válega...
Pus-me, então, em campo para encontrar esse mapa, a data da sua publicação, o autor e mais pormenores. Comecei pela “Memória Histórica e Descritiva de Válega”, em que o Padre Miguel de Oliveira diz: “Dagarei aparece com o nome de DAGARES nas tábuas de Abraão Hortélio (1597) e com o de GANDAREI no foral de D. Manuel I à Terra da Feira, em 10 de Fevereiro de 1514. Este lugar chama-se, actualmente, S. João…, mas até há bem poucos anos, … chamavam-se lugares da parte de DIGAREI aos que ficavam ao sul do rio da igreja”…


Pormenor do mapa "deitado" (1561), de Fernando Álvaro Seco.
A seta indica Dagarei e Ovar, a norte da ria. Mais à direita, vêem-se Feira, Arrifana, Louredo, Cabeçais.
Abaixo: Avanca, Oliveira d’Azemeis, Ossela, Pinheiro (da Bemposta), Vouga, Albergaria...
[CLIQUE NO MAPA]

Antes, porém, de Abraão Hortélio, o cartógrafo português Fernando Álvaro Seco elabora, em folha de cobre, em Roma, em 1561, o primeiro mapa de Portugal, editado por Aquiles Estaço, que o dedica ao Cardeal Guido Sforza, desta forma solene e saborosa e que se traduziu do latim:
“A Guido Ascânio Sforza, Cardeal Camareiro da Santa Igreja Romana, Aquiles Estaço. Saúde. Guido Sforza: dedicamos-te, devido à protecção dispensada à nossa gente, a Lusitânia descrita pela arte de Fernando Álvaro Seco. Dela partindo, homens de incrível valor e felicidade, atingiram todas as partes do orbe terráqueo, reduziram à condição de província grande parte de África, foram os primeiros a ocupar e a descobrir ilhas inúmeras, das quais era conhecido ou só o nome ou nem o nome sequer. Obrigaram a Ásia, terra riquíssima, a pagar-lhes tributo, instruíram os mais remotos povos no culto da religião de Jesus Cristo. Adeus. Em Roma, 20 de Maio de 1561 (Romae, XIII Kal. JUN DLXI (Aos 13 dias das Calendas de Junho de 1561).”

O 1.º mapa de Portugal, da autoria de Fernando Álvaro Seco (1561)
[CLIQUE NO MAPA]

Vale a pena ver quem eram estas três personagens. Assim, Fernando Álvaro Seco era “um matemático insigne e famoso geógrafo de cuja ciência deu um manifesto argumento em o mapa que fez do Reino de Portugal”… (Biblioteca Lusitana).
Aquiles Estaço
Aquiles Estaço nasceu na Vidigueira, em 1524. Foi aluno de Pedro Nunes, em Lovaina. O Papa Pio IV chamou-o a Roma para desempenhar a função de Secretário do Concílio de Trento. Viveu vinte e um anos em Roma. Escreveu muitos livros, sobretudo de comentários a obras da antiguidade clássica e de carácter religioso. Foi bibliotecário do Cardeal Sforza. Prestou notáveis serviços na Cúria Romana do tempo. Por duas vezes, pronunciou Orações de Obediência aos Pontífices Romanos em nome do Rei D. Sebastião. Faleceu e foi sepultado em Roma. O Cardeal Farnese observou, na altura, que tinha morrido o maior homem saído de Portugal…
Voltando à dedicatória do mapa, devo dizer que não consegui saber que espécie de protecção é que o referido Cardeal dispensava à gente da Lusitânia. Seria no relacionamento entre o Rei de Portugal e o Papa?
Do Cardeal Sforza não consegui saber mais nada.
Mas vamos a Dagarei. Não é longe daqui. Pode-se ir pela estrada Ovar - Pardilhó…

Portugalliae 1561 (baseado no primeiro mapa de Portugal), atrás publicado

No mapa de F. A. Seco não se lê muito bem, mas estão lá Dagares e Ouar. O mesmo acontece com outra edição, cópia da primeira, mas publicada em Antuérpia em 1565, também dedicada ao dito Cardeal e com o título: “PORTVGALIAE QUAE OLIM LVSITANIA VERNANDO ALVERO SECCO AVCTORE RECENS DESCRIPTIO” (DESCRIÇÃO RECENTE DE PORTUGAL QUE FOI, OUTRORA, A LUSITÂNIA, SENDO O AUTOR VERNANDO ÀLVERO SECCO).

Em ambos os mapas aparece Dagarei de forma pouco perceptível, perto de Ouar, junto à linha de costa, com terras conhecidas a Nascente, tais como, Feira, Azeméis, etc. Este mapa está publicado no 2.º volume do “Portugaliae Monumenta Cartographica”, estampa 198. Dele existe uma cópia no Fundo Local da Biblioteca de Ovar, bem como uma outra muito rudimentar e com menos topónimos. Foram-me facultados pelo Dr. Manuel Bernardo, que organizou um “dossier” muito interessante para a cartografia local. O original desta última cópia estava incluído no Atlas do Escorial, realizado entre 1577 e 1585. Esta cópia tem, no verso, a indicação: “Escorial/Madrid/Mss.K.I.1”. Aí aparece Dagarey, Ouar, Abbacan (Avanca?), Acames (Azeméis?), Osela, Afeira, etc.
O mapa de Portugal de F.A. Seco teve várias edições e deu origem a muitas cópias e reproduções. Assim, Joan Blaeu, cartógrafo holandês dos mais reputados, no seu Atlas Maior, de 1665 (El Mejor y el Mas Grande Jamais Publicado) apresenta-o na capa e no interior quando descreve a Europa. Digaris está lá bem visível. Vi este atlas na livraria Bertrand, em Lisboa. O peso dele andará bem por uns cinco quilos. O preço, porém, é astronómico! Contentei-me em comprar um mapa de Portugal baseado na versão de Willem e Joan Blaeu do mapa de F.A. Seco, publicado em 1638, em Amesterdão, no qual aparecem Dagaris, Ouar, Avero, etc.

Mapa de 1638, baseado na versão feita por Willem e Joan Blaeu do mapa de F. A. Seco.
(Os nomes têm grafia mais actualizada, estando Aveiro situado erradamente para cá do Vouga).
[CLIQUE NO MAPA]

Estes caminhos da cartografia antiga são muito interessantes, sobretudo quando sabemos que foram calcorreados, no terreno, pelos pés dos nossos antepassados nos trabalhos da lavoura e na faina da pesca.
Finalmente, sobre Dagarei, o Arq. Hélder Ventura, em nota ao seu artigo “A Náutica de Recreio em Ovar, Factos de Identidade e Desenvolvimento”, publicado na revista Dunas 2005, afirma que aquele topónimo corresponde a “um povoado antigo onde hoje é Válega, ali pelos lados do Portinho, Senhora de Entráguas ou Seixo Branco, e que vem referenciado num mapa de Vitorio Secco de 15… e teria origem em culturas “exteriores”, a julgar pelo nome (celtas?)”.
Peço vénia ao meu ilustre conterrâneo para notar o lapso que lhe ocorreu quanto ao autor do mapa e para dar a minha opinião sobre a origem do nome Dagarei. Este topónimo poderá não ser de origem celta mas germânica e virá do antropónimo Dagaredo, o nome do primitivo possuidor desta vila medieval, como escreve o P.e Miguel na “Memória Histórica e Descritiva de Válega”, à semelhança de Recaredo que deu o nome ao Castro de S. Martinho da Gândara. Deste nome não terá vindo Ricardo e Recarei? E de Dagaredo, além de Dagarei, o que terá vindo?

Regno di PORTOGALLO
(Mapa na vertical, elaborado a partir do original de Fernando Álvaro Secco)
CLIQUE no mapa (pode aumentar 2 vezes)

E o autor do artigo refere, a seguir, o mais importante: “Perfeitamente colocado no topo de uma baía, notando-se já o desenvolvimento do cordão dunar que daria origem à ria de Aveiro, este “porto”, com acesso ao mar, desapareceu. As construções, mesmo as mais representativas, seriam em madeira, como os barcos. Daí, não termos, por enquanto, grandes certezas quanto à sua localização. Novos locais de atracagem de embarcações surgiram em locais mais navegáveis e a produção de sal, talvez a actividade económica mais desenvolvida, declinava”…

Pormenor do mesmo mapa

Uma coisa, porém, é certa: a referência a Dagarei na cartografia daquela época dá a entender a importância daquela localidade à beira-mar plantada, a antiga “villa” onde pontificou e deixou o nome o Sr. Dagaredo… É até muito provável que tenha tido aí início a formação da freguesia de Válega, uma vez que esteve situada nessa área de Seixo Branco, entre a linha da CP e a Capela da Senhora de Entráguas, a primeira igreja de Válega. É o que dá a entender o Padre Miguel de Oliveira a este respeito.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de Março de 2006)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2010/10/dagarei-no-primeiro-mapa-impresso-de.html

Sem comentários: