14.10.10

Figuras Populares – Armando Garcia Leitão (o “Disco Voador”)

Jornal JOÃO SEMANA (01/04/2008)
TEXTO: Orlando Caió

Armando Garcia Leitão
(o "Disco Voador")
Armando Simões Garcia Leitão de seu verdadeiro nome, nascido em Lisboa na freguesia de Santos-o-Velho a 9 de Outubro de 1925, era também conhecido, na região de Ovar, por “Disco Voador”.
Conta-se que, no início dos anos 50, em Lisboa, o Garcia teria engendrado e colocado no ar um disco voador, que viria a cair bem perto de uma zona residencial. Como resultado da então insólita experiência, foi detido e colocado em prisão durante vários dias.
Conheci-o desde meados dos anos 50 do século passado, até à sua ida para o Porto nos fins da década de 1960.
Gostaria de aqui recordar a sua participação, em Julho de 1955, no II Circuito Ciclista Motorizado realizado no Furadouro – correndo em motorizada da marca “Famel” –, e cuja competição teve nele o principal animador, não obstante ter sofrido várias quedas durante as 25 voltas do percurso.
O Garcia era uma figura com características verdadeiramente singulares. Dominava áreas que o seu círculo de amigos e a maioria dos colegas de trabalho não dominavam. Possuía, como habilitações, o Curso Electromecânico, e durante três anos frequentou Engenharia Mecânica no Instituto Superior Técnico de Lisboa. Daí a sua natural exuberância. Sendo magro, baixo e franzino, tinha uma genica fora do vulgar. Era, como hoje se diz, uma pessoa verdadeiramente hiperactiva.

A vinda para Ovar
Proveniente da Empresa PE “Produtos Estrela”, sedeada no Porto, seria admitido, em meados dos anos 50, na empresa vareira “Rabor”, de motores eléctricos, ali permanecendo até aos primeiros anos da década de 60. Na extinta empresa Rabor foi chefe de Laboratório, reparador de equipamento eléctrico e electrónico, colocando também em prática os conhecimentos adquiridos em áreas como desenho de máquinas, mecânica, pintura e artes decorativas. Como homem de múltiplas facetas, distinguiu-se em todas as áreas onde interveio.
O Garcia possuía veia artística, e, em certa medida, revolucionou o Carnaval de Ovar. Entre 1956 e 1965, viria a criar cerca de 15 carros de Carnaval, elaborados, em simultâneo, para a empresa onde era funcionário e para os bairros populares de Ovar, tais como S. João, S. Miguel, Outeiro e Mota, Campos e Alto de Saboga, tendo ainda sido nomeado Director Artístico do Carnaval de Ovar de 1961.
Como registo perene da sua permanência em Ovar, podemos referir como sendo da sua autoria o desenho do pedestal onde, no Jardim dos Campos, está colocado o busto do escritor Júlio Dinis, e o desenho do brasão que está incrustado na parede exterior do Palácio da Justiça (virada para a rua Elias Garcia), em frente ao actual edifício do Banco Espírito Santo.
O Garcia viveu sempre a correr, e bem à frente do seu tempo. Inteligente e criativo, era também, por vezes, inconstante, sarcástico e amargo para algumas pessoas que com ele conviviam. Se não estou em erro, vi-o, pela última vez, em 1967, na nossa Praça da República, caminhando de forma apressada em direcção à Estação dos Caminhos-de-ferro, segurando na mão esquerda uma maqueta de cartolina – réplica de um Sputnik (foguetão) de mais ou menos um metro de comprimento por 15 centímetros de diâmetro.

O crepúsculo
Em 1973, proveniente do Porto, o “Disco Voador” regressou, finalmente, a Lisboa, sua terra natal. Sabe-se que entre 1974 e 1978 trocou correspondência com o seu antigo patrão na Rabor, Eng. Manuel da Silva Borges, a quem carinhosamente tratava por “Patrão Manel”. Nos últimos anos de vida, o Garcia viveu das reparações que fazia em órgãos de igreja e pianos, e da pintura de quadros e da restauração de imagens religiosas em capelas e igrejas de Lisboa. Acabou praticamente só, como um sem-família, hospedado numa casa particular situada na freguesia dos Prazeres, em Lisboa, onde veio a falecer, vítima de trombose, a 19 de Abril de 1983, aos 57 anos de idade.
Armando Garcia Leitão, que em Ovar se tornara uma figura de lenda, talvez tenha encontrado, na morte, a tranquilidade e a paz que não tivera em vida.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de Abril de 2008)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2010/10/armando-garcia-leitao-o-disco-voador.html

6 comentários:

Costa disse...

Conheci esta figura ainda criança quando ele tralhava na Rabor uma vez que morava nessa zona de Ovar. Ele era conhecido pelo Garcia Leitão ou pela alcunha de “Disco Voador”. Recordo-me ainda muito criança de uma corrida de motorizadas na praia do Furadouro, patrocinada pela Famel com motor Sachs. O circuito ia desde a Rotunda das Varinas passando pelo Hotel Mar e Sol. Sempre que ele passava junto do local onde eu estava com meus pais, ouvia os gritos de incitamento do povo assistente!
Em 1964 até 1966, conheci a pessoa mais diretamente, uma vez que eu trabalhava na cidade do Porto, e o Garcia na “Photomatom” nesta cidade também. Era ele quem reparava as máquinas fotográficas analógicas e os aparelhos de foto instantâneas colocadas em diversos sítios, como estações de metro e da CP. Algumas vezes eu e outro amigo meu colega de trabalho aqui de Ovar também, almoçávamos os três na “Transmontana”. Á mesa o Garcia Leitão não se coibia de falar sobre politica e sobre a Guerra Colonial e do Comunismo e de uma revolução para derrubar a ditadura de então. Eu e o meu colega ficávamos tensos pois ele falava de modo a que fosse ouvido na mesa ao lado. O que não era muito motivador pra mim e para o meu colega que nada percebíamos do que ele queria dizer… só sabíamos que a PIDE existia e que estava em todo o lado, e por isso nada agradável assistir às palestras do nosso amigo.
Como particularidade, todos os dias quando eu e o meu colega de Ovar (Joaquim Mendes) chegava-mos á estação de S. Bento (Porto) já o Garcia Leitão tinha os nossos lugares guardados com várias máquinas fotográficas que ele trazia para casa, julgo para as reparar.
Guardo saudades deste amigo.

Mafalda disse...

Tenho muito orgulho em ser neta deste senhor!! E muito pena de nunca o ter conhecido.

Anabela Leitão disse...

Ao Sr Costa: muito obrigado pelos seus comentários. Fico feliz por ter privado com o meu pai e recordá-lo com carinho. Também recordo com muita saudade os momentos que partilhei com ele. Era um grande homem.

Tiago Leitao disse...

Que linda História , me emocionei não sou parente mas me deparei com essa linda história.

Tiago Leitão

Joaquim Fernandes disse...

Cara Anabela Leitão,

Tenho muita urgência e interesse em conhecer mais informações e documentos sobre o seu pai para uma investigação que estou a fazer sobre o seu invento "Disco Voador". Terá algum documento que me possa facultar sobre esse trabalho?
Muito obrigado.
Aguardo a sua resposta,
Com os melhores cumprimentos,
Joaquim Fernandes, PhD
CTEC
Universidade Fernando Pessoa
Praça 9 de Abril, 349
Porto
email: jfernan@ufp.edu.pt
fernandesjoaquim46@gmail.com

Valente disse...

Conheci muito bem o Garcia Leitão...éramos amigos e colegas de passeio: ele de motorizada e eu de bicicleta. Só que o acompanhava porque eu era rebocado com uma corda. Essa corda era amarrada à motorizada e eu segurava-a com uma das mãos. Se houvesse perigo, largava-a. De uma vez fomos para as festas de S. Geraldo em Maceda, onde se disputava uma "brincadeira" de motorizadas. Havia um grande morro de terra e quem conseguisse cegar até ao topo, de motorizada, claro, ganharia um prémio ...o amigo Garcia Leitão em vez de meter gasolina misturada no depósito, atestou-lhe benzina e a motorizada até "voava"...lógicamente que ganhou o prémio e ao outro dia já tinha o motor desmanchado para arranjar...tambem fez um disco voador e fê-lo subir no Furadouro, o que lhe valeu ir parar à cadeia onde dava lições aos presos, todos bons e respeitadores, ensinando-os a ler e a escrever...é verdade...um grande amigo, inteligente e simples.