30.9.10

Retábulo da Capela de São Miguel: antigo Retábulo-mor da Igreja Matriz?

TEXTO: Sofia Nunes Vechina*

Inserido numa capela construída entre 1711 e 1723(1), este retábulo é, claramente, resultado da acoplagem de vários elementos. Por um lado, várias peças que formam uma estrutura que se harmoniza com os restantes elementos, mas que, segundo Marcos Muge(2), é feita numa madeira diferente. Por outro, diversos elementos que se aproximam, estruturalmente, da descrição feita no dia 6 de Agosto de 1688(3): um arco de volta perfeita de estilo nacional, duas meias molduras maneiristas, quatro frisos com apontamentos maneiristas e dois com elementos vegetalistas a ladear um espaço onde já existiu uma cara de anjo (elementos que poderiam ter pertencido ao retábulo de onde foram retirados os elementos supracitados).
Retábulo da Capela de S. Miguel no início do restauro

Segundo Robert C. Smith(4), “em Portugal, como em Espanha, a influência serliana determinou em grande parte a formação da arquitectura e da decoração no período entre 1550 e 1700, dando-lhes um carácter marcadamente maneirista, de proporções alongadas, formas magras e superfícies planas (…).” Todavia, já em finais do século XVII (c. 1675), a talha, em Portugal, começou a renovar-se, “(…) divorciando-a em grande parte da espanhola e dando-lhe um carácter nacional (…)(5)”.
Em 1681, num período de transição do maneirismo para o estilo nacional, Domingos Lopes(6) assina o contrato de entalhamento daquele que seria o segundo retábulo-mor da Igreja Matriz de Ovar. Na segunda metade do século XVIII, com a ruína da capela-mor, o retábulo viria a ser substituído pelo retábulo rococó, que lá se conserva.
Ao analisar a documentação do primitivo retábulo, como já referimos, encontrámos semelhanças entre o contrato de pintura, de 1688, e alguns elementos existentes no actual retábulo-mor da Capela de São Miguel, sobretudo no que diz respeito à existência de um nicho, provavelmente central, e de “(…) tres painéis nos quais se farao em dous São Pedro e São Paulo, e no meyo se farao huns Anjos (…)(7)”,correspondendo, provavelmente, às duas meias molduras, existentes em São Miguel, e que em outros tempos, poderiam ter servido de enquadramento a duas pinturas, uma de São Pedro e outra de São Paulo, e, como diz o documento, (…) esta pintura hade ser feita plos melhores mestres q. ouver na cid.e do Porto(…)(8)".
As influências estilísticas, presentes no retábulo da Capela de São Miguel coadunam-se, perfeitamente, com a época a que já aludimos (de transição entre o maneirismo e o estilo nacional), sendo, portanto, possível, embora ainda não provado, que nesta capela subsistam alguns elementos do segundo retábulo da Igreja Matriz de Ovar.
Na hipótese deste retábulo não ser um reaproveitamento da obra de Domingos Lopes, é, claramente, uma estrutura com valor artístico. Deve, portanto, ser consolidado, conservado e divulgado, para que a comunidade local compreenda a importância do seu legado artístico, e para que, no presente e no futuro, melhor o preserve e estime.

* Investigadora e Mestranda em História da Arte na FLUP

Notas:
(1) LAMY, Alberto Sousa – Monografia de Ovar. Freguesias de São Cristóvão e de São João de Ovar . 922-1865. 1Vol. Ovar: Câ mara Municipal de Ovar – Divisã o da Cultura, Biblioteca e Património Histórico, 2001. p.141

(2) Responsável pela intervenção, já iniciada, no retábulo-mor da Capela de São Miguel.
(3) Escritura de fiança e obrigação da pintura e douramento do retábulo-mor da Igreja Matriz de Ovar, assinado pelo pintor José de Araújo (BRANDÃO, Domingos de Pinho - Obra de Talha Dourada, Ensamblagem e Pintura na Cidade e na Diocese do Porto. Vol. I. Porto: Diocese do Porto, 1985.p. 654-656)
(4) SMITH, Robert C. - A Talha em Portugal. Lisboa: Livros Horizonte, 1962. p.35
(5) Idem - Ibidem.p.69
(6) Morador da Rua da Ponte Nova (Porto), referido na documentação como ensamblador, entalhador, escultor, imaginário, mestre de arquitectura, mestre carpinteiro, mestre entalhador e oficial de imaginário, trabalhou em várias igrejas das cidades de Aveiro, Porto, Vila do Conde, Vila Nova de Gaia, Baião, Braga e Ovar. FERREIRA-ALVES, Natália Marinho (coord.) - Dicionário de Artistas e Artífices do Norte de Portugal. Porto: CEPESE, 2008. p.186-187
(7) BRANDÃO, Domingos de Pinho - Ob. cit. p. 654
(8) Idem - Ibidem. p. 654

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Abril de 2009)

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