14.9.10

O encerramento do Colégio das Doroteias em Ovar (1910)

TEXTO: Madre Virgínia Roque

Depois de um primeiro artigo (“João Semana” de 1/4/1984) em que se contou a fundação, em 1897, do Colégio dos Sagrados Corações, vamos hoje lembrar um capítulo doloroso na vida daquela instituição, ou seja, a sua extinção compulsiva e a retirada dramática das Religiosas.
Estas descrições são feitas pela Madre Virgínia Roque, protagonista de todos os acontecimentos, e as que hoje publicamos estão transcritas num caderno policopiado da Congregação das Doroteias, da página 74 a 78, sendo-nos cedidas pela Irmã Lurdes Maia, do Colégio da Paz, no Porto.

RENOVAÇÃO DE VOTOS – A SAÍDA

O Ministro da Justiça Dr. Afonso Costa cumprimentando as Irmãs de S. José de Cluny

Depois de proclamada a República, escreve a Madre Virgínia Roque, pensei em mandar sem demora as Irmãs para casas de confiança que se tinham oferecido para as receber enquanto as famílias as não viessem buscar. Antes porém de nos separarmos, reunidas todas ao pé do Tabernáculo, renovámos os nossos votos e fizemos a Sagrada Comunhão no meio de lágrimas. Tirámos, depois, o nosso querido hábito, vestindo roupas que nos tinham oferecido famílias amigas, e na maior angústia começámos a dispersar-nos.
Em 10/10/1910, escreveu a Madre Virgínia à Madre Provincial a carta seguinte: «Minha querida Madre: Abraço-a no S. S. C. de Jesus.
– Deus lhe dê a força precisa! Sem mais peço-lhe que me diga, por qualquer meio, ainda que seja um próprio, se posso separar as Madres, isto é, ficar uma só em casa de confiança. Não posso mais; ainda não sofremos senão o susto, mas a todos os instantes espero os últimos sacrifícios. Se vai alguém para Itália diga-me, minha boa Madre Provincial. N. S. nos ajude. O que será de nós?»
Dias depois, escreve: “A nossa casa está em perigo. Vamos ver se ao menos salvamos a B…Deus lhe pague a consolação que nos deu mandando-nos este anjo (a postulante mandada de casa em casa com as instruções da M. Provincial) dar-nos notícias. Eu disse-lhe tudo e ela dirá a V. R. o que se tem passado, porque por escrito não é possível nem tenho cabeça.


Religiosas saindo (Illustração Portugueza, 30/1/1911)

A primeira a sair, por ser italiana, foi a Madre Pompei, a quem com a Madre Maria José Sousa Alvim, recebeu em sua casa a nossa antiga educanda Glória Carvalho.
Mais tarde retirou-se a M. Sousa Alvim para a sua família, e em seu lugar ficou a Madre Vicência Cardoso, até ir também ela para casa de um irmão.
Do mesmo modo se foram alojando as outras irmãs, ficando eu no colégio com a Irmã Antónia Vaz, cozinheira, e com a Madre Margarida Saraiva, que insistiu em me acompanhar até ao fim do sacrifício para me ajudar no que fosse preciso…

A EXPOLIAÇÃO

Continua a Madre Virgínia:
As autoridades procuraram imediatamente saber do conteúdo do testamento e inventário do falecido Sr. Padre João Saborino, e principiaram logo o arrolamento das quintas pertencentes à casa, impedindo a venda dos produtos e intimando com ameaças os caseiros que não pagassem as rendas. Muitas pessoas aconselharam-me que saísse para evitar insultos, mas entendi que devia esperar a chegada da Madre Joaquina Gomes, proprietária da casa. Chegou ela depois de alguns dias de ansiedade, e sentimo-nos então mais fortes para o que pudesse seguir-se.

INTERROGATÓRIOS E PESQUISAS - ADMINISTRADOR IMPORTUNO

Durante a noite íamos mandando para fora o que nos era possível, deixando apenas a mobília que fora do Sr. Padre João, porque os papéis e livros de importância, assim como as pratas, já antes da República se tinham posto em lugar seguro, porque havia tempo que está se receava.
Quando o administrador, acompanhado do seu Secretário, me fez o primeiro interrogatório, achavam-se comigo só as Madres Gomes e Saraiva. Interrogou-me sobre o número, idade e ofícios das Irmãs, tempo da sua profissão religiosa e outras mil impertinências.
Respondi que, quanto às Religiosas, tendo-se elas já retirado do Colégio, não o podia satisfazer, e, quanto a mim, tinha abraçado a vida religiosa no estrangeiro, para onde voltaria se no meu país não me fosse permitido seguir a minha vocação.
Como era homem de sentimentos baixos, dirigiu-me algumas perguntas atrevidas.
Naquela noite tratei de despachar para a estação de Estarreja diferentes malas com alfaias da capela e roupas, por temer que seriam apreendidas na de Ovar; mas ninguém se queria responsabilizar pela sua condução, até que apareceu um homem que, por uma grande quantia, aceitou o transporte. Era uma hora depois da meia noite. Avisado do que se passava, veio logo no dia seguinte o administrador exigir que lhe dissesse para onde tinha feito o despacho; e eram tão ameaçadoras as suas maneiras, que, por um momento, julguei que iria para a cadeia. Respondi que, tendo as Irmãs saído, tinham pelo menos direito às suas roupas, e que não tendo nós procedido de encontro ao decreto, não podiam obrigar-nos ao que nele não vinha especificado.
Fez uma busca a tudo, e deu ordem que nada saísse. Felizmente a casa estava já quase vazia, e até as imagens da capela, que eram um encanto, tinham sido retiradas, entregando-se a quem as tinha dado.

Religiosas em trajos seculares no Posto de Desinfecção do Arsenal

Das outras casas chegavam-nos notícias incríveis, de horrorosas que eram, mas que vinham aumentar a nossa grande consternação, quando um dia de manhã se nos apresenta a Irmã Ana Maria Reis, vinda de Lisboa, onde partilhara a sorte das mais no Arsenal. É impossível descrever a impressão que nos causou a sua visita e as lágrimas que chorámos com o que lhe ouvimos. Mas havia graves inconvenientes em conservá-la, e com grande mágoa nossa lá a deixámos ir para sua casa.
Tinha ela apenas saído, quando nos aparece a Irmã Isabel Manso, chorando e instando por não voltar para a casa onde fora colocada. Mas era conhecida. E, como se não permitia estarmos juntas mais de três, eu não sabia onde colocá-la.
Nesta angústia, aparecem-nos, disfarçadas, as Irmãs Maria José Costa Nunes e Ana Rodrigues, que vinham pedir notícias. Recebi-as como enviadas do céu, e pedi-lhes que levassem a outra Irmã. Compreendendo o motivo da minha aflição, assim o fizeram, saindo do colégio sem demora.
Poucos momentos depois entrava outra vez o administrador, o qual, sem esperar um instante, principiou nova pesquisa sem deixar canto por visitar.
De tudo suspeitava, e até aos montes de palha que tinham ficado das colheitas da Quinta queria examinar, declarando que devíamos ter em casa uma Irmã que, havia pouco, atravessara a vila e se dirigira para o colégio. O secretário, aparentando interessar-se por nós, pedia que não negássemos a Irmã, para não sofremos algum dissabor.
Afinal lá se foram, depois de muitas ameaças, deixando-nos bem fatigadas. Graças a Nosso Senhor nunca faltou, com eles (dissabores), a coragem necessária; mas, passada a ocasião, o abatimento fazia-se sentir extraordinariamente.

SUSTOS DOS AMIGOS

Correu voz na vila que se ia proceder a uma busca em todas as casas onde se suspeitava haver objectos do colégio. O susto das famílias foi enorme, e nessa noite quase todas nos quiseram restituir o que tinham em depósito, inclusivamente as imagens. Foram de trabalho imenso e de verdadeira agonia aquelas horas, e nem sei como não sucumbi de todo. Pedi que, ao menos, nos guardassem alguma coisa que não desse tanto na vista; mas, sem esperarem que alguém nos auxiliasse a meter dentro de casa o que traziam, tudo nos deixavam à porta, móveis e caixotes.
No dia seguinte efectuou-se a busca nas famílias suspeitas, sofrendo todas muitos incómodos e grosserias.
Tínhamos de novo connosco, no Sacrário, para nosso conforto, o hóspede Divino quando, pelas 10 da manhã, estando nós na capela, se nos apresenta mais outra vez o administrador, o qual, com o seu conselho, nos vinha intimar a saída imediata. Respondi que sairia, visto ser obrigada, mas que a Madre Gomes, como proprietária, tinha direito a continuar ali, que tínhamos em casa o Santíssimo, e que desse ordem para o pároco o vir buscar. Veio este em pessoa, e em menos de um quarto de hora era Nosso Senhor transportado para a freguesia (Igreja), com grande impressão da vila. Saí de casa com a Madre Saraiva, a qual tomou sempre parte em todos os interrogatórios, buscas e trabalhos. Acompanhava-nos uma educanda, filha de um republicano, que tínhamos conservado por conselho do próprio pai, para evitar insultos.
No caminho, outra aluna, Maria da Conceição Carvalho, nos veio oferecer sua casa, na qual estivemos um mês a Irmã Vaz, a Madre Saraiva e eu. A Madre Gomes, como eu pedira ao administrador, ficara no colégio. Mas teve também de sair com a criada depois de um terrível interrogatório antes de principiar o arrolamento, durante o qual não queriam ninguém no colégio. Tinham o lume acesso e a refeição preparada; mas esta ficou para quem eles quiseram. Recolheu-se ela a casa de uma antiga aluna com quem esteve algumas semanas até poder ir para Vilar (Porto). Eu, por minha parte, notando que a família que nos hospedava começava a inquietar-se com os boatos que corriam contra quem hospedava religiosas, tratei de alugar na vila uma pequena casa donde pudesse ir seguindo os acontecimentos, chamar caseiros e receber rendimentos com o auxílio de um óptimo advogado. Ali estive de 15 de Novembro a 22 de Fevereiro, dia em que embarquei para a América do Norte com a Madre Saraiva e a Irmã Maria Castro.
É-me impossível exprimir a minha satisfação ao receber a ordem de partir com minhas queridas irmãs, depois de tão longos meses de aflição e susto.

Texto enviado pela Irmã Maria de Lourdes Maia, do Colégio da Paz (Porto)

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 e 15 de Julho de 1984)

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