7.9.10

Fundação do Colégio das Doroteias em Ovar (1897)

A propósito da canonização de Santa Paula Frassinetti [na imagem], grande educadora do século passado e fundadora das Irmãs de Santa Doroteia, achamos de interesse a publicação das notas inéditas que se seguem, extraídas de um caderno policopiado daquela Congregação Religiosa, e referentes à fundação do Colégio dos Sagrados Corações de Jesus e de Maria de Ovar, aberto em 21/10/1897 e encerrado a 8/10/1910. Pelo interesse histórico da descrição, esperamos publicar em seguida as notas referentes ao período de 1900 a 1910, ano da sua extinção compulsiva pelo Governo da República. (P. B.)

Nos últimos anos do século XIX, um venerando sacerdote de Ovar, o Padre João de Oliveira Saborino, já de idade avançada, pensou empregar os seus avultados bens de fortuna numa obra de beneficência em proveito da sua terra natal. Enquanto meditava na modalidade de beneficência que a fundação adoptaria, concebeu o projecto de construir um hospital para velhos, que entregaria às Irmãzinhas dos Pobres (1).
O Padre João Saborino conhecera as Irmãs Doroteias em Vilar (Porto), onde fora capelão, e conhecia, sobretudo, a Madre Ana Barbosa, sua conterrânea. Informada esta Madre dos planos do sacerdote, falou-lhe na fundação de um colégio para meninas de todas as condições sociais. Durante dois anos, o Padre Saborino estudou a proposta, e em 1897 decidiu chamar as Irmãs para a abertura dum colégio.
Quando estavam as paredes do edifício levantadas, a Madre Provincial Luísa Trabucco deslocou-se a Ovar para aí dirigir a divisão dos compartimentos, de acordo com a finalidade da casa. Era a primeira fundação cujo edifício se construía de raiz, e daí o poder obedecer a uma planta traçada pela Madre Provincial.
Um manuscrito anónimo, conservado no Arquivo da Casa Provincial, descreve esta visita da Madre Trabucco a Ovar com duas Irmãs cujos nomes não menciona. O ponto de partida foi Vilar, e o trajecto, percorrido de comboio. Na estação, a esperá-las, “duas senhoras num coupé em que caberiam, quando muito, três pessoas (…)”. Os solavancos do carro, por caminhos quase intransitáveis, atiravam as ocupantes umas contra as outras, em risco sério de “quebrarem as cabeças”, diz o manuscrito. Chegadas a casa do Padre Saborino, encontraram a mesa posta para jantarem (2), e só depois de um passeio de"char à bancs, até à praia, a cerca de uma légua de distância", foram visitar a construção do colégio.
O edifício levantava-se no meio de um extensa cerca e compunha-se de três corpos unidos entre si “numa arquitectura elegante e cómoda” que soubera tirar magnífico proveito do ar e luz circundantes. Depois de combinarem a divisão interna da casa, sentaram-se junto do grande poço aberto na quinta e aí discutiram as cláusulas da fundação que, da parte do Padre João Saborino, se reduziam a querer somente que ali sempre funcionasse uma escola para crianças pobres, sem exigir qualquer garantia material para si.
Uma parte da casa estaria habitável no princípio do ano lectivo 1897/98.
A 18 de Outubro de 1897 no comboio do norte, saíram de Lisboa para Ovar a Madre Ana Barbosa, como Superiora, Sor Guilhermina Sarmento e a Irmã Amélia Duque. Chegaram à estação de Ovar no dia seguinte, às 6h da manhã, e aí as esperavam duas senhoras, uma irmã e outra prima da Madre Barbosa. Dirigiram-se logo a casa do Padre Saborino, onde almoçaram. Sor Sarmento tinha continuado no mesmo comboio para o Porto, acompanhada da postulante Rita Figueiredo, que seguia para o Sardão. De Vilar trouxe a Irmã Gonçalves, destinada também à fundação, chegando ambas a Ovar pelas 13h do mesmo dia.
De tarde, as Irmãs entraram na sua nova casa, ainda em obras. O primeiro trabalho a que procederam foi o da abertura dos fardos trazidos de Lisboa com móveis, roupas, livros, loiças, utensílios de cozinha. Nesse dia, a ceia, mandada pelo Padre Saborino, foi servida em cima dum caixote, por não haver ainda mesas.
A inauguração da casa só pôde efectuar-se a 21 de Outubro. Os dias que mediaram desde a chegada das Irmãs foram ocupados nas limpezas mais urgentes, a que se associaram as zeladoras do Apostolado da Oração, de que o Padre Saborino era director, que espontaneamente se ofereceram para esfregar soalhos e lavar vidros. Ainda as mesmas “ornaram com bandeiras e auriflamas a fachada do edifício” para a inauguração.
No dia 21 chegou do Porto, para benzer a casa,“o cónego da Igreja Lauretana, Padre Ilídio da Costa”, grande amigo do fundador. Vinha com ele sua mãe e um sacristão da Igreja de S. Bento. No mesmo comboio das 9h da manhã chegaram as Superioras do Norte: a Madre Ana do Espírito Santo Morais, Superiora de Guimarães, a Madre Maria do Carmo Cabras, de Vila do Conde, acompanhada pela Irmã Miguel, que devia ficar cozinheira em Ovar, e a Madre Luísa Cervetto, do Sardão, acompanhada da Madre Teresa Sá.
A bênção da casa começou pelas 10h da manhã. Acolitavam o cónego Ilídio da Costa o Padre Saborino e outros eclesiásticos por ele convidados. Presentes, também, os zeladores do Apostolado da Oração, com opas e tochas acesas. Por fim benzeu-se a capela, depois do que o mesmo oficiante celebrou o Santo Sacrifício, a que assistiu numeroso clero e muito povo, que enchia a capela e corredor contíguo. Os operários que construíram a casa homenagearam o Padre Saborino, convidando duas bandas de música para tocarem à Missa. A alocução foi proferida pelo cónego Ilídio, que exaltou a obra do fundador em favor dos seus conterrâneos. Cantou-se, seguidamente, o Te Deum, e, de tarde, houve bênção solene do Santíssimo Sacramento. Estava inaugurado o colégio dos Sagrados Corações de Jesus e Maria, como foi chamada a casa de Ovar.
A abertura das aulas fez-se no dia 3 de Novembro. O colégio começou a funcionar com cinco alunas semi-internas. Ficou mestra de estudo Sor Sarmento; de trabalho, a Irmã Duque. A ”aula externa” abriu com cinquenta alunas. Do estudo e trabalho foi encarregada a Irmã Gonçalves, ajudada pela irmã Duque.

Algumas alunas do Colégio das Doroteias com professores e amigos da Instituição
(Foto extraída do "Dicionário da História de Ovar", de Alberto Sousa Lamy)
A Casa, nos seus inícios, não possuía proventos para se governar autonomamente. Quanto às Irmãs chagaram, o Padre Saborino deu-lhes 50 000 reis para as primeiras despesas, e responsabilizou-se por pagar anualmente a quantia de 300.000 reis até o colégio auferir os lucros necessários para a sustentação das Irmãs.
O acolhimento da população não podia ter sido mais favorável. Contudo, o meio social, pouco culto, não favorecia nem fazia pressagiar grande desenvolvimento ao colégio, sobretudo quanto as alunas internas.
Com grande concurso de crianças deu-se princípio à Obra das Catequeses, no dia 18 de Janeiro de 1898, na Igreja Paroquial.
Em Outubro do mesmo ano, veio como Superiora para Ovar, a Madre Joaquina Gomes. Durante o seu governo foi erecta a Congregação das Filhas de Maria, depois de um retiro preparatório pregado pelo Padre Morais (Sacerdote Jesuíta), de 17 a 21 de Janeiro de 1899. No dia de Santa Inês desse ano foram admitidas cinquenta e oito aspirantes a Filhas de Maria. Como director da Congregação foi nomeado o Padre Magalhães, S. J., que passou a deslocar-se mensalmente do Porto a Ovar para fazer as reuniões prescritas pelo Manual da Congregação.
Entretanto, a Superiora, atendendo talvez ao exíguo número de Irmãs que compunham a comunidade, julgou conveniente suspender o ensino da catequese na igreja paroquial, assim como não permitiu que as Irmãs continuassem a acompanhar as alunas externas à Missa nos domingos.
Desconhecem-se pormenores, mas sabe-se que, a quando da sua visita a Ovar, nos fins do ano 1899, a Madre Provincial Morais ficou na disposição de mudar a Superiora, a Madre Gomes: “(…) O Padre João Saborino está muito descontente e pediu de viva voz, o que já me tinha pedido várias vezes por escrito, que levasse aquela Superiora porque não sabia governar, embora fosse muito santa”. Foi escolhida, provisoriamente, para a substituir, a Madre Almeida Silvano, que partiu para Ovar nos fins de Fevereiro ou princípios de Março de 1900. No fim do ano, a Madre Provincial escrevia para Roma: “(…) Já visitei a casa de Ovar que, graças a Deus, vai indo perfeitamente e o Padre Saborino muito contente com a Madre Almeida Silvano; já mandou construir, à sua custa, um outro andar para as alunas internas”.

O Colégio das Doroteias, aberto a 21 de Outubro de 1897 e encerrado 8 de Outubro de 1910, já com o acrescento para as alunas internas. Com a saída das Irmãs após a implantação da República, o edifício passou a ser a sede da Santa Casa da Misericórdia de Ovar

A Madre Provincial deparou com uma lacuna "(…) e era de não ensinarem a doutrina às crianças, o que deixei recomendado”. Voltou, portanto, a abrir a catequese.

A capela do colégio polarizou a piedade dos arredores: acorria muita gente para tomar parte na Santa Missa, na Comunhão das primeiras sextas-feiras, nas devoções dos meses de Maria e do Sagrado Coração de Jesus.
Em Junho de 1900 foi pregado um retiro para as Filhas de Maria, mas nele poucas participaram devido aos trabalhos dos campos.
No fim do ano de 1900, as alunas semi-internas eram trinta e sete; as internas sete (o internato começou com duas alunas em Maio de 1899); quanto às alunas gratuitas, embora estivessem inscritas noventa, assistia às aulas uma média de cinquenta. A frequência destas era bastante irregular: no inverno, atingia o ponto máximo; a partir de Maio, a escola era trocada pela praia (3).
Neste mesmo ano, há que assinalar, em 10 de Abril, a morte da primeira Superiora da casa (e a quem se ficou devendo a fundação), a Madre Ana Barbosa, que santamente faleceu em Ovar, num acto de perfeito abandono no Santíssimo Coração de Jesus: “Nas Vossas Mãos e no Vosso Divino Coração entrego a minha alma e o meu corpo” foi a sua oração até ao fim, até ao momento da resposta divina ao seu humilde apelo.

Notas:
(1) As Irmãzinhas dos Pobres têm casa no Pinheiro Manso, à Boavista, no Porto.
(2) O jantar era (e ainda se chama nas aldeias), a refeição do meio-dia
(3) Nesse período, os trabalhos piscatórios atraíam ao Furadouro muitas famílias de Ovar

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Abril de 1984)

Leia AQUI um depoimento de Madre Virgínia Roque sobre o encerramento compulsivo deste Colégio, após a implantação da República (1 de Julho de 1984).

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