19.8.10

A Barca da Misericórdia

João Arada e Costa
Jornal JOÃO SEMANA (01/01/1978)
TEXTO: Arada e Costa

Não pretendemos desenvolver a sua história. Ela está bem documentada na “Monografia de Ovar” da autoria do nosso ilustre conterrâneo Dr. Alberto Sousa Lamy.
Simplesmente dar a conhecer aos que ainda não sabem, que ela sulcava as águas da Ria, de Ovar a Aveiro, transportando pessoas e cargas. Desde o sábado até ao pôr do Sol de segunda-feira os pobres não pagavam a passagem.
Cais da Ribeira - Ovar - ponto de partida e de chegada da Barca da Misericórdia
(Fotografia do início do séc. XX)
Era uma obra de Misericórdia da Igreja, cujo espírito, aliás, esteve na origem das Misericórdias portuguesas.
O produto da exploração da Barca da Misericórdia revertia em favor dos pobres, dando-lhes auxílio na doença e proporcionando-lhes sepultura condigna após a morte.
Nossa Senhora da Boa Morte
(Pietá) 
Existia ainda outra Obra de Misericórdia, o Albergue dos peregrinos, devoção da família Pereira de Campos, de quem descendemos pelo ramo paterno. Funcionava numa casa sita ao Coval do Concelho, nome mais tarde adulterado para Curral do Concelho, e tinha por fim dar pousada aos peregrinos pobres que por aqui passassem, dando-lhes ceia e pequeno-almoço. Vinha este albergue do ano de 1700.
A família instituidora era dona da quinta de S. Roque na Ribeira, cuja área cobria 69.000 metros quadrados. Ali edificaram o pequeno oráculo do santo. Na doação que deixaram de uma parcela da quinta, desde o rio velho até ao moinho de vento, se determinava que as esmolas revertiam para o culto do santo e para mandar rezar três missas no dia de Natal na capela de Santa Catarina: a primeira pelos doadores, a segunda em louvor a S. Roque, e a terceira a Nossa Senhora da Boa Morte, cujo culto e imagem foi também da sua devoção.
Consultámos um livro da Barca da Misericórdia, que possuímos entre volumoso maço de documentação, com o termo de abertura lavrado em 10 de Fevereiro de 1831.
Está assinado e comprovado pelo Provedor da Comarca, Luís Manuel Ferreira da Veiga. Desse velho livro destacamos e respeitamos a seguinte transcrição:

Contas da receita e despeza da Barca da Misericórdia d’esta Villa d’Ovar no anno de 1831 para o de 1832:
RENDIMENTO
- P[elo] dinheiro de Arrematação da Barca, na Lei moeda em ouro = 10$100 (10 mil e cem reis)

DESPEZA
- P se pagou de Receptuario ao Capitão-Mor Dom.ºs do Rosário Costa e ao boticário Joze Manoel Teix.ª de Pinho 85$190 (Líquido 15$810)
-P Inporte de Esmollas aos pobres d’esta vila e fora d’ellla e barcagens aos passageiros p.ª Aveiro (6$020)
-P D.º de Mortalhas p.ª os Defuntos pobres d’esta Freguesia (6$050)
- P D.º de prover estas contas ($500)
- E por esta forma se verão estas contas por feitas e acabadas ficando a receita pella despesa e assignarão,
Eu António Roiz Pepulim o sobre escrevi asegnei. O Juiz da Ihreja Domingos do Rozario Costa
O escrivão da Igreja
António Roiz Pepulim

Provedor da Igreja
Manoel José Marques

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de janeiro de 1978)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2010/08/barca-da-misericordia.html

ADENDA -----------------------------------------

A Barca da Misericórdia

"A beneficência pública, a cargo da Mesa da Igreja, objetivara-se numa Misericórdia, e a particular originara no Curral do Concelho, o Albergue dos Peregrinos. Faltava casa para recolher e tratar os doentes pobres; mas em 1801 lançam-se os alicerces do Hospital, por iniciativa do benemérito e exemplar sacerdote e caritativo pároco desta freguesia, João de Sequeira Monterroso e Melo". (Era ainda Ovar uma freguesia da Feira, só alcançando independência administrativa em 1835". (in Almanaque de Ovar, 1916, pág. 49) 

1 comentário:

Anónimo disse...

Obrigado por intiresnuyu iformatsiyu