TEXTO: José de Oliveira Neves
Diz-nos o escritor portuense Hélder Pacheco no livro da sua autoria “Porto”, que no início do século XIX muitos ovarenses migraram para a capital do norte, indo fixar-se na zona da Falperra, conhecida como bairro de gente vareira. Outros debandaram para Afurada, Ouro e Carvalhido.
Nesta última zona fundaram uma grande colónia. Eram os “vareiros do Carvalhido”. Pescavam o sável no rio Douro e apanhavam marisco na costa marítima.
Muito devotos do Senhor da Pedra, àquela romaria gaiense deslocavam-se em grupos, calcorreando a pé vários quilómetros e formando animadas danças tal como acontecia, aliás, nas suas idas a Nadais, Carregosa, Senhora da Saúde da Serra, etc.
É curioso que, vivendo eles da faina do mar e do rio, tenham procurado o Carvalhido, na parte oriental da cidade, longe do local onde labutavam no dia-a-dia.
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| Vareira palmilhando uma rua do Porto |
Nos finais da Primeira Guerra Mundial, por volta de 1918, e daí em diante, muitos vareiros emigraram para os Estados Unidos, como anteriormente o faziam para o Brasil. Muitas vareiras no Porto eram casadas com esses emigrantes e, conforme a vida lá fora ia sorrindo aos seus maridos, iam abandonando a venda do peixe, regressando a Ovar para se tornarem domésticas.
A vida das nossas vareiras no Porto era difícil: manhã cedo, por volta das 7 horas, saíam a caminho do Mercado Abastecedor de Peixe que, na época, era o Anjo, que eu ainda conheci, no Jardim da Cordoaria, no local onde hoje se encontra o Palácio da Justiça. (Só mais tarde foi construído o do Bom Sucesso, na Boavista). Abastecidas com o pescado, e com as canastras à cabeça, bem pesadinhas, partiam para as zonas da cidade onde moravam as suas freguesas. A Elvira do Padre foi, durante muitos anos, a fornecedora do peixe para o Seminário Maior da Sé do Porto, onde era muito considerada.
Palmilhando a pé, com sol ou com chuva, aquelas ruas íngremes, alcantiladas, como o são grande parte das ruas do Porto, subindo e descendo escadas, muitas vezes até ao 3.º e demais andares dos prédios, num tempo em que estes não possuíam elevador, não esmoreciam no trabalho. Saíam de casa com o pequeno-almoço – às vezes iam tomá-lo ao botequim do mercado – e assim andavam quase todo o dia, a não ser quando alguma freguesa lhes dava um prato de sopa. Não tinham horas para comer, nem para o regresso a casa.
No fim da venda, viam-se essas vareiras a lavar as suas canastras na rampa e nas escadas típicas dos Padeiros, junto ao tabuleiro inferior da ponte D. Luís [na foto].![]() |
| O Porto visto pelo fotógrafo Alvão |
Assim como em Lisboa chamam varina a qualquer vendedeira de peixe, seja ela de que origem for, também na cidade do Porto, ainda hoje, qualquer peixeira, seja ou não de Ovar, é conhecida por vareira. E é pela vareira que os portugueses chamam quando precisam de se abastecer de pescado.
Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de Outubro de 2001)


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