6.7.10

O primeiro café em Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (15/12/1981)
TEXTO: Maria José Vinga

Foi em 1933 que o corajoso Eduardo Sousa abriu o primeiro Café em Ovar. Situava-se na Rua Dr. Manuel Arala, numa pequena casa em forma de coração onde hoje está instalada a Relojoaria Ovarense.

Café Paraíso, em Ovar
Foi lá que, devido à onda de progresso que se vivia nesse tempo e à imaginosa ideia daquele vareiro, abriu ao público o doce e atraente cafezinho, lugar de descanso e de convívio.
Como o Eduardo de Sousa era amante do não-te-rales e o seu melhor desejo era não ter de quebrar as costas a ganhar o pão de cada dia, encontrou na exploração do seu café a melhor forma de viver galhardamente. E, então, tagarela como era!...
Esse brioso rapaz pôs ao seu estabelecimento o nome de “Paraíso".
Ora paraíso significa sítio aprazível, lugar onde há delícias. De forma que o nosso homem vivia todo garboso, cheio de pundonor, tanto mais que arranjou nessa altura como seu empregado um rapazinho esperto, filho de santa mulher que soube educar com seriedade o fruto do seu ventre, que tinha acabado de fazer o exame de 2.º grau, coisa rara naquele tempo.
Estava lançado em Ovar o primeiro Café, um verdadeiro Paraíso nesta terra!
E porque um Paraíso, para além de ser um lugar agradável e delicioso, deverá ser também espaçoso e bem situado, logo em 1 de Janeiro de 1937 o nosso Eduardo transferiu o seu Café para uma casa maior [CLIQUE NO LINK], muito mais ampla, localizada mesmo em frente da Câmara Municipal, onde se instalou, há cerca de um ano, o Banco Borges e Irmão (coisas do progresso actual!)
Meses depois de deixar o edifício da Rua Dr. Manuel Arala, novo Café ali se implantou, em 3/4/1937, sob a direcção do saudoso Mário Gomes Pinto, que bem cedo Deus colheu.

Chamaram-lhe “Celeste”. Não tanto para condizer com o primeiro apelativo, mas antes para celebrar um nome de família. E tal como o primeiro, também depressa mudou de sítio, na gerência de Zeferino Gomes Pinto, irmão do Mário, que se fixou, em 25/12/1942, em frente ao chafariz Neptuno. Ali ganhou fama, acrescida com a publicidade ao pão-de-ló do mesmo nome. Mas – ironia do destino! – tal como primeiro, veio a fechar as suas portas há cerca de um ano, para dar lugar ao “Snack-Bar John Bull”. (Na foto)
Só em 1940, ano do 8.º Centenário de Portugal, abriu novo Café, o “Zélia”, no lugar onde está hoje o “Caçarola”. Este 3.º Café foi montado pelo nosso amigo Manuel Gomes Pinto, que lhe deu o nome de uma sua filhinha, menina linda como uma estrela.
À custa de muito brio, também conseguiu que a sua casa se transformasse em ameno lugar de convívio. Na realidade, um Café é como uma praça ou um cais, onde se tornam possíveis os mais inesperados encontros, até com afastados amigos, com quem é agradável manter dois dedos de conversa.
Data de 17 de Dezembro de 1949 o grandioso Café Progresso que, na altura e pelo requinte com que foi idealizado, causou admiração no meio. Deveu-se à iniciativa de David Dias Resende (David Vilão), que se empenhou, com toda a coragem, por oferecer a Ovar um Café onde nada faltava, desde a máquina moderna de tirar café até um salão de chá no 1.º andar, onde a mocidade daquele tempo passou inesquecíveis horas de distracção e alegria, dançando ao som de boa música.
Passada uma trintada de anos, temos em Ovar cafés por todos os cantos. Como temos estabelecimentos de toda a ordem, alguns bem modernos e recheados. Apesar disso, a minha querida vila parece-me pobre em ideias. Pelo menos em ideias inovadoras, como a que levou Eduardo Sousa a criar o “Paraíso”.

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Dezembro de 1981)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2010/07/o-primeiro-cafe-em-ovar.html


Antes do “Paraíso”

Jornal JOÃO SEMANA (15/12/1981)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Nesta casa, que a família Fonseca Soares tinha construído em terreno onde possuíra um palheiro que foi devorado por um incêndio, nasceu em 30/7/1933 o primeiro Café, a sério, na vila de Ovar. Foi-lhe dado pelo fundador e locatário, Eduardo de Sousa, o nome simpatiquíssimo de “Paraíso”.
Antes, porém, houve em Ovar vários estabelecimentos a que chamavam “cafés”, mas sem as características das actuais casas da especialidade.
Segundo Zagalo dos Santos (“Notícias de Ovar” de 22/11/1949), o primeiro “café com bilhar” terá sido aberto em 1888 – vai para 100 anos! – por João Sucena, “nas pontes da Senhora da Graça”.

O mesmo ilustre publicista e historiador vareiro cita mais os seguintes: o de José Luís da Silva Cerveira (ao centro da pintura, ao lado do Passo da Praça), que passou a ser loja do Alves Cerqueira e, hoje, da Molaflex); o de Caetano Farraia, “no chão dos escritórios de Bonifácio e Filhos” (actual ângulo das Ruas Mártires da República e Cândido dos Reis); o de Manuel Nunes Lopes, aberto em 1898, “com frente para a Praça e Rua dos Campos”, onde se encontravam os cartolas e intelectuais do tempo”; o do Albino Exposto, na sua casa da Rua Cal de Pedra, onde “dava café a recatados e escolhidos “; o High Life, de Jacinto dos Santos Cunha, em frente ao cinema do mesmo nome e ao lado da Casa da Ordem Terceira (actual Casa S. Luís); e o de Maria Vinagre, em frente à Câmara (1.º andar do actual “A Toca” e do prédio a sul), aberto depois de 1900).
Além do café “junto do Passo”atrás citado, o mesmo Cerveira possuía na mesma Praça um Hotel, aberto em 1893, em cujo rés-do chão (no actual estabelecimento de Januário Marques Dias) se bebia e se ouvia música de gramofone. O mesmo proprietário abriu um café na Rua José Estêvão, e o Hotel Cerveira, do Furadouro, inaugurado em 1905, onde havia também um café. Ainda por 1930 ali se jogava à batota e …à roleta. O roleteiro era Jacinto dos Santos Cunha (o dono do High Life), que viera de Fornos de Algodres para exercer esse ofício, e que acabou por casar com a filha do proprietário, D. Emília Cerveira, tornando-se o responsável da casa e do café, que passou a ter o seu nome.
E, já que estamos no Furadouro, não será descabido, até pelo bizarro da situação, lembrar que por essa mesma época havia perto da taberna do Chafarrica, do lado norte da praia, uma vacaria onde o leite era fornecido aos veraneantes extraído directamente das vacas, a qualquer hora do dia.
Há várias dezenas de anos, chamavam “Café do gelo” à loja das Calmas, na esquina da Praça e da Rua Cândido dos Reis, de que era proprietário Joaquim Ferreira da Silva, a quem sucedeu sua esposa, Maria Magna que, por sua vez, a passou ao falecido Sr. Castro. Apesar de não servir café, por se dedicar especificamente à venda de tabaco e de papel selado, era assim chamada por ali se reunirem os doutores e escrivães do tempo, apanhando, no inverno, o sol nos pés, e olhando, de verão, o movimento da Praça, nisso encontrando pábulo suficiente para longas cavaqueiras. Quando não discutindo, até em grupos opostos e em salas diferentes – a “câmara alta”e a “câmara baixa” –, a política do momento. (Será que este café se identifica, possivelmente em épocas diversas, com o do Manuel Nunes Lopes, citado por Zagalo dos Santos, “com frente para a Praça e Rua dos Campos”?
Ou seria outro diferente, talvez na actual Casa Folhas?)
Outro local da vila onde se servia café ao balcão, e que o Dr. Zagalo não cita, era o 1.º andar de uma loja que se localizava onde hoje se encontra o portão da Casa Camossa, junto ao Correio Velho. Chamavam-lhe “Café Moca”, e a dona, a Aurora “Pinta-Ratos”, não seria menos famosa do que a Maria Vinagra.
Há quem se lembre ainda de ter havido outros destes cafés na Rua Dr. José Falcão.
Nestes antigos “cafés, onde não faltavam, a par da mesa do bilhar, as mesas da batota, passaram-se aventuras picarescas de que muitos guardam ainda a memória.

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Dezembro de 1981)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2010/07/o-primeiro-cafe-em-ovar.html

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