24.6.10

D. Maria II de volta a Ovar

D. Maria II (recriação histórica)
FOTO: Fernando Pinto
Jornal JOÃO SEMANA (01/10/2009)
TEXTO: Fernando Pinto

Quem passeava pelo coração de Ovar, na tarde de 19 de Setembro, teve uma agradável surpresa: a cidade recuara no tempo e centenas de figurantes tomaram conta da renovada Praça da República dando vivas à Rainha D. Maria II, que pernoitara nos Paços do Concelho, para prosseguir viagem no dia seguinte, de barco, rumo a Aveiro.
A fachada da Câmara Municipal exibia bandeiras da Monarquia, e à janela surgiu a rainha D. Maria II, acompanhada dos dois filhos, o Príncipe Real D. Pedro e o Infante D. Luís, futuros reis de Portugal, observando o corrupio que se tinha instalado lá em baixo, na praça, enquanto as duas Bandas da terra tocavam peças de música, sob a regência dos respectivos maestros, as crianças jogavam ao pião e algumas mulheres exibiam na cabeça os característicos chapeirões. (Francisco António Pinto, em “O Despotismo”, conta que “quando a rainha D. Maria II visitou a vila, com os filhos, houve por bem esbofeteá-los à janela dos Paços do Concelho, por eles dali terem mofado da extravagância destes chapéus”).
Ricardo Nunes, Coordenador Técnico-científico da Mostra “Uma Guerra, uma Rainha, um Herói: Ovar no fio do tempo”, lembra no catálogo evocativo, que a rainha D. Maria II e o Duque do Porto chegaram à vila de Ovar no dia 22 de Maio de 1852, por volta das 4 horas da tarde, vindos pela estrada do Carvoeiro (Feira) e da Ponte Nova (Ovar). Recebidos por Manuel Bernardino de Carvalho nas escadas da igreja, debaixo do pálio, ali se celebrou um solene Te Deum, pregando frei Luís de Santana Zagalo, abade de Esmoriz, que recebeu da rainha uma esmola generosa para os pobres.
Recriação da Visita de D. Maria II a Ovar (foto M. Pires Bastos)
Acenando à rainha D. Maria II (foto: MPB)
Zagalo dos Santos refere que “nos Paços do Concelho “foram armados e mobilados um quarto com duas camas para SS. Majestades, com dois quartos anexos para vestir, um outro igual para SS. Altezas o Príncipe Real D. Pedro e o Infante D. Luís, também com quarto de vestir, seguido de um outro para o visconde da Carreira, seu Aio”.
No dia 23 de Maio, um Domingo, pelas 8 horas da manhã, Suas Majestades e Altezas foram ouvir missa à capela de Santo António, e pelas 9 horas, o rei D. Fernando visitou o hospital, confessando aos presentes ter apreciado muito a bela paisagem que se espreguiçava até à ria.



Nos Anais do Município, Pedro Chaves adianta que “Suas Majestades e Altezas, e mais Ilustre Comitiva, tiveram a delicadeza de elogiar o jantar que a Municipalidade lhes ofereceu, em nome da população que representava, asseverando o Duque de Saldanha, que tinha sido esta recepção e hospedagem de Ovar, uma das melhores, que Suas Majestades tinham recebido no seu trânsito...”.
A azáfama aumentou na praça com a saída para a rua de D. Maria II, acompanhada do seu séquito, para que se desse início ao cortejo pelas ruas da cidade. As varandas das casas por onde passou encontravam-se decoradas com ricas colchas, as pessoas assomavam às janelas e, à passagem da caleche onde seguia a monarca, gritavam: “Viva a Rainha”.
Chegado o cortejo à Ribeira, a rainha discursou, ouviram-se cânticos, e passado algum tempo, a comitiva seguiu em dois barcos, rumo a Aveiro. Atrás deles foram outros barcos moliceiros.
Pretendeu-se, segundo os responsáveis desta iniciativa, reconstituir o ambiente da Vila de Ovar em meados do século XIX, revelando a forma como os ovarenses receberam, pela primeira vez na sua história, um monarca português.

Quem foi D. Maria II?

D. Maria da Glória filha, de D. Pedro IV, nasceu no Rio de Janeiro, no Palácio de S. Cristóvão, a 4 de Abril de 1819, na época em que a família real fugiu para o Brasil, aquando das invasões francesas.
Em 24 de Setembro de 1834, com a morte de seu pai e com o fim da Guerra Civil, D. Maria é proclamada rainha de Portugal, subindo ao trono com apenas 15 anos de idade, passando a governar um país fragilizado. (A recriação histórica da visita de D. Maria II a Ovar evoca esse momento feliz da História de Portugal, em que um país pacificado após os conflitos da primeira metade do século XIX, procurava a almejada estabilidade…)
Em 1835, D. Maria II casou com Augusto de Leuchtenberg, mas esta união foi breve, devido ao falecimento de seu marido. Casou, segunda vez, em 9 de Abril de 1836, com Fernando de Saxe-Coburgo-Gotha, de quem teve onze filhos, vindo a falecer do último parto, no Palácio das Necessidades, a 15 de Novembro de 1853, aos 34 anos.



D. Maria II em Ovar - Recriação Histórica (cais da Ribeira)

FOTO: jornalista Fernando Pinto

FOTOS de Fernando Pinto (1, 5 e 20) e M. Pires Bastos (2-4, 6-19)

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de Outubro de 2009)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2010/06/d-maria-ii-de-volta-ovar.html

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