17.4.10

Prof. Egas Moniz e Júlio Dinis

Egas Moniz
Jornal JOÃO SEMANA (15/11/2006)
TEXTO: António Valente

Foi à Ciência Médica que o Prof. Egas Moniz deu o máximo da sua vida, sendo um altíssimo embaixador da cultura literária e científica de Portugal.
Natural de Avanca, obrigatoriamente passava por Ovar a caminho do Furadouro ou da Torreira, e, no Largo dos Campos, o seu olhar ia naturalmente para a casinha de linhas simples onde, em 1863, Joaquim Guilherme Coelho esteve hospedado durante quatro meses. (Esta casa e Ovar tiveram um efeito positivo naquele período difícil na vida de Júlio Dinis, desde a desolação pelo infortúnio que lhe tinha batido à porta, até à ilusão das melhoras.)
O Prof. Egas Moniz batalhou com bastante insistência pela concretização do “sonho” que tinha em vista e que sugeriu às forças vivas de Ovar. Mas foi com grande tristeza e mágoa que viveu o resto da sua vida, ao reparar no desinteresse total dos vareiros por esse projecto.
Essa ideia de que a casa se tornasse um espaço único para a comunidade ovarense, um local de homenagem ao escritor Júlio Dinis, uma fonte de memórias dessa Ovar que o prendeu e encantou e um ponto de encontro de tertúlias de cultura, não encontrou eco, infelizmente.
Como diria o Prof. Egas Moniz, “(..) Ligações de família o arrastaram até Ovar, paredes-meias da minha aldeia. Ali gisou dois dos seus mais belos romances: As Pupilas do Senhor Reitor e A Morgadinha dos Canaviais…, páginas escritas, por certo, num surto febril da tuberculose que o ia minando. Por elas se vê que a actividade literária no curto período que esteve em Ovar onde tanto escreveu, andava aguilhada por forças imperiosas. Assim pôde trazer daquelas paragens, bastos elementos para a obra que conseguiu levar a bom termo”.
Ao recordar estas duas figuras de enorme estatura, é um dever, e não vem a despropósito, no momento da passagem do 167.º aniversário do nascimento de Júlio Dinis, também aqui e agora fazermos uma vénia a um ovarense recentemente falecido, um dinisiano de coração, que conviveu de perto com o Prof. Egas Moniz, lutando pela concretização desses sonhos e sofrendo decepções.
Falo do ovarense Manuel Cascais de Pinho, que só em 1996 pôde assistir, em parte, à concretização da abertura da Casa do Largo dos Campos como espaço dinisiano, mas já com perda irremediável da maior parte do respectivo espólio.
Passados quase três anos do encerramento da Casa Museu Júlio Dinis para obras de recuperação, já que se encontra num avançado estado de degradação, é caso para ficarmos preocupados por toda esta demora, pois todos desejamos que a Câmara Municipal de Ovar tome em mãos, e em acção imediata, o início das obras da casa, a fim de se evitar a iminente derrocada do telheiro, o que, a acontecer, causará irreparáveis danos às lajes do tanque, uma peça a preservar como elemento museológico.
Com este apelo vou terminar, citando um excerto de um poema do grande Guerra Junqueiro:

A vida é uma farsa!
Por conseguinte é rir, até que um dia o nada
Venha a tapar com terra a vossa boca impura!
É voar, é voar, na asa da loucura.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de Novembro de 2006)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2010/04/prof-egas-moniz-e-julio-dinis.html



ADENDA -----------------------------------------

Júlio Dinis e Ovar

Monumento a Júlio Dinis,
junto à casa onde residiu em Ovar
Cuidado com o biografismo literário. Estou-me a referir à tendência para identificar personagens romanescas com modelos vivos, com pessoas da vida real.
Egas Moniz prestou um bom serviço, mas exagerou ao sustentar que Júlio Dinis encontrara em Ovar quase todo o material fabuloso de que precisava. Maria José Oliveira optou por Grijó e ultrapassou todos os limites.
Júlio Dinis era do Porto, mas para quem ler Egas Moniz ou Maria José até parece que o romancista viveu em Ovar, no primeiro caso, ou em Grijó, no segundo caso.
Discordo, em especial, da identificação de Júlio Dinis com Daniel, Henrique ou Carlos, e chamo a atenção para os artigos sobre o assunto que publiquei no “Notícias de Ovar”, números 2399 e 2401, de 1 e 15 de Setembro de 1994.
Se quisermos fazer uma comparação, estava bem mais próximo de Jorge ou de Augusto do que desses namoradeiros. Não era, na verdade, um galanteador frívolo; era um homem íntegro, quase na linha austera de Herculano e de Antero.

(Texto publicado na edição de 15/10/2004 do jornal “João Semana”, na rubrica “De tudo um pouco”, do Dr. Guilherme G. de Oliveira Santos)

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