20.4.10

À memória de Monsenhor Miguel de Oliveira

1.º Centenário do seu nascimento

TEXTO: Manuel Pires Bastos

Conheci o Monsenhor Miguel de Oliveira – o P.e Miguel, como os conterrâneos o tratavam carinhosamente – ainda eu era seminarista, quando das Missas Novas de neo-sacerdotes amigos, de Válega, festas onde a sua presença era imprescindível, e particularmente notada durante os almoços, muito concorridos, onde era habitual fazerem-se encomiásticos discursos, cujo brilhantismo era medido pelas vezes em que eram interrompidos pelo fragor das palmas ou das gargalhadas.
Nisso, o Padre Miguel não pedia meças, quer pelo saber que manifestava, caldeando pensamentos profundos com referências curiosas ao homenageado ou a Válega, quer pelo sabor picaresco com que condimentava a sua oratória.
Já sacerdote, visitei-o em Lisboa, nas “Novidades”, a propósito de modesta colaboração minha naquele diário católico. Monsenhor era, nessa época, uma figura veneranda, quase apagada, mas ainda preso às suas funções jornalísticas, para que fora nomeado ainda jovem sacerdote.

Homem de inteligência e de memória invulgares, começou por dedicar as suas capacidades ao ensino, à oratória e ao jornalismo, enveredando, simultaneamente, pela investigação histórica – a partir de um primeiro ensaio “Válega-Memória Descritiva” – área em que deixou obras de marca, como “Paróquias Rurais Portuguesas”, “História da Igreja”, “História Eclesiástica de Portugal” e “Ovar na Idade Média”.
Colaborador de revistas e jornais, membro da Academia de Ciências, empenhou-se na criação da Revista “Lusitania Sacra”, de que foi Director e onde deixou valiosos escritos, um dos quais intitulado “Inquirições na Terra de Santa Maria”.
Personalidade de prestígio a nível nacional, Monsenhor Miguel de Oliveira honrou as páginas do “João Semana” com os seus primeiros trabalhos históricos, dedicados ao estudo da capela de N.ª Sr.ª de Entráguas.
Aqui fica a nossa homenagem.

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Dezembro de 1997)


Tributo ao Padre Miguel

TEXTO: Jacinto Guimarães Almeida (na foto)

Jamais (como diria o ministro do aeroporto) me irei esquecer dos momentos vividos na sede da Paróquia de Ovar, numa recente noite de Abril, com o P.e Manuel Pires Bastos e o jornalista Fernando Pinto. E digo já porquê.
Sendo afilhado e parente, em terceira linha, do ilustre valeguense P.e Miguel de Oliveira, fiquei envergonhado por não ter novidades para contar, por não ter uma história ou um detalhe que pudesse ser acrescentado ao que está escrito nos seus registos biográficos. Mais do que uma vergonha, era uma pena – pensei para com os meus botões.
Foi com este estado de espírito que aceitei o convite do P.e Bastos para irmos até à redacção do “João Semana”. Além de uma experiência nova, foi um privilégio ter lá ido. Por três razões. Pude avaliar o entusiasmo (a modéstia contém a alegria) do P.e Bastos ao falar sobre a feitura do “João Semana” e da importante colaboração que Fernando Pinto dá ao quase centenário órgão de imprensa; a inesperada surpresa de ver o excelente conteúdo dos “sites” do “João Semana” e das Procissões Quaresmais, e a forma ágil como o director manobra a nova “ferramenta”; e, finalmente, o privilégio de conhecer Fernando Pinto e ouvir as suas contagiantes palavras.


Por tudo isto e pelo desafio de Fernando Pinto, aqui estou eu a dar o testemunho pessoal de que nada mais sei sobre o P.e Miguel do que aquilo que sempre soube:
que, sendo primo de meu pai, celebrou o seu casamento na Igreja Matriz de Válega; que foi meu padrinho de baptismo e, querendo homenagear seu pai, me pôs o mesmo nome; que, na Páscoa, e desde que me lembro, ia receber o folar à casa da família, na Corga do Norte, ou que, quando ficava em Lisboa, a tão ansiada nota me era entregue pela sua irmã Maria José, no Largo da Igreja; que sentia uma alegria envergonhada quando me perguntava pela escola e pelas notas, e eu dizia que sim, vão bem; que em pequeno, quando via o pai Jacinto junto à casa da eira, ao soalheiro, me reconhecia no nome, mas não no enrugado rosto, que agora me está por perto. Sinto hoje, como meu, o entusiasmo do P.e Miguel ao oferecer-me maracujás, de que então desconhecia o sabor, e ao elogiar o efeito estético dos frutos e flores, suspensos da pérgula, como se de um quadro se tratasse.

Lembro ainda a alegria interior que sentia ao ouvir comentários de apreço à sua elegante figura, descendo a pé o jardim, a caminho da igreja. E o dia em que,em Fevereiro de 1967, já na tropa, mudei de quartel, de Tavira para Leiria, e numa fugaz visita ao Rossio deparei com o seu vulto numa mesa do café Nicola e ali partilhei com ele alguns minutos de conversa, mais sobre a minha vida militar e a minha família do que sobre a sua já frágil saúde e o dia-a-dia do jornal “Novidades”. Ali notei o contraste entre a elegância do seu fato preto e do distintivo cabeção e o verde anónimo da minha farda militar. E sempre, sempre, a alegria contagiante que lhe alegrava o rosto sofrido.
Um ano depois, já no quartel de Abrantes, senti os olhos humedecidos ao receber o telefonema que anunciava a sua morte.


Talvez fique mal, como afilhado, dizer que admiro o P.e Miguel. Mas posso afirmar, como valeguense e porque é verdade, que admiro muito o ilustre filho de Válega que foi Miguel de Oliveira. O padre, o jornalista, o escritor.
Agradeço ao “João Semana”, ao Padre Pires Bastos e ao desafio de Fernando Pinto poder dizê-lo aqui.

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Maio de 2010)
Fotos de Fernando Pinto

1 comentário:

Helena Teixeira disse...

Aproveito e deixo um convite: Participe na blogagem de Maio do blog www.aldeiadaminhavida.blogspot.com. O tema é:”Vamos ao Museu”. Basta escrever 1 texto de máximo 25 linhas, 1 foto, o título e o link do blog para aminhaldeia@sapo.pt até dia 10/05. Pode falar sobre o seu museu preferido ou monumento… Há boa disposição e prémios!

Abraço
Lena