7.4.10

A louça de Ovar e Aveiro na Barra do Douro

TEXTO: Manuel Leão 

É do Prof. Padre Manuel Leão o artigo que publicamos e que faz parte de um trabalho mais longo. Foi inserido na revista "Olaria – Estudos Arqueológicos, Históricos e Etimológicos".

É muito antiga na cidade do Porto a venda de louça de Ovar. A facilidade do transporte marítimo completava o acesso por terra, pela estrada que ligava entre si as localidades hoje pertencentes aos concelhos de Ovar, Espinho e Vila Nova de Gaia. Eram uma via de comunicação muito frequentada, havendo mesmo documentos que atestam o apoio a viajantes e suas montadas, como eram as estalagens.
Em 1537, veio para as obras da cidade (do Porto) telha de Ovar. A documentação da época é escassa, mas a louça de Ovar constava da primeira lista de vendedores da cidade, em 1620. Chamava-se louça vermelha. Seria vidrada ou não, porque esse tipo de louça continuou a ser usado até ao século vinte, pelo menos no primeiro quartel.

Ester Pinho, de Ovar, que há mais de 60 anos transportava, com outros carreteiros,
louça das olarias vareiras para as feiras da região e para o Porto

A louça de Ovar sofreu a concorrência vinda de outros centros cerâmicos. Destes, o mais predominante foi Coimbra, cujo alto nível de consumo se manteve na época industrial, em fins do século XVIII.
Os louceiros de Ovar ficaram nominalmente conhecidos na segunda metade do século XVIII, porque os seus cântaros eram mobilizados para acudirem a incêndios que lavravam nos prédios com estruturas de madeira que bordejavam as estreitas ruas do Porto setecentista.
A feira mais frequentada realizava-se, desde longa data, na Praça da Ribeira, local de fácil descarga dos artigos tanto trazidos de barco como atravessados da outra banda de Gaia. Muito mais tarde passou para o terreiro defronte do Convento de S. Bento da Avé Maria, onde mais tarde foi instalada a estação de S. Bento.
Havia, por vezes, uma certa retracção da Câmara quanto ao pagamento da louça, por suspeita de aproveitamento da confusão para alguém se poder assenhorear de algumas peças consideradas, perante a autarquia, partidas durante a azáfama do incêndio.
Nesta época tardia, Ovar forneceu materiais destinados à construção civil, nomeadamente, encanamento da água de abastecimento público.
Nos livros da Alfândega, em 1640 (1), encontra-se uma encomenda destinada a Bento de Matos, que recebeu hua pouca de louca dovar. (Esta escrita deste centro cerâmico resulta dum fenómeno fonético criado pela pronúncia local, que ainda chegou ao século XX, na boca das pessoas sem instrução.)

Em 1650 (2), o comerciante Policarpo de Oliveira despachou para a Ilha Terceira, seis caixas de louça de Ovar. O mesmo comerciante recebeu catorze caixões de louça de Ovar, em 1652 (3). Ainda em 1655 (4), encontra-se um despacho que pode indicar alguma razão de preferência pelo produto vareiro: Gualter Maynard envia para Barbados, hua barqua de louca uermelha do Var. O comerciante citado pertencia a uma das famílias mais influentes da cidade, embora de origem britânica.
Parece haver um longo período de silêncio sobre a cerâmica vareira, que deixa de aparecer nos registos aduaneiros do Porto. Em 1783 (5), há duas encomendas, mas não distinguimos de que artigos se trata. Tudo leva a crer que se refiram a artigos destinados à construção civil, porque nunca se mencionam peças, o que não é corrente quando de trata de louça utilitária para uso doméstico.
A louça de Aveiro, mesmo na época, teve larga circulação, tendo em conta documentos disponíveis. Durante muitas décadas, a louça de Coimbra ocupou a dianteira, a seguir à produção cerâmica dos arredores do Porto. O impedimento da barra do Mondego para barcos de elevada tonelagem para a época não justifica este volume de vendas de louça coimbrã. A qualidade devia ser o parâmetro predominante (…).

Notas
(1) ADP Cabido 115, 116.
(2) Ibid. 127, 12v.
(3) Ibid. 131, 16v.
(4) Ibid. 136, 8v.
(5) Ibid. 366, 78v. - 196 Peças despachadas para o Maranhão por José Francisco Maia; ibid. 366, 126v. - 100 Dúzias de peças para a Baía, despachadas por Francisco António de Castro.

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Janeiro de 2006)

Cerâmica vareira medieval
no Mosteiro de S. João de Tarouca

Lemos no “Jornal de Notícias” de 13/7/1999 que durante as escavações em curso no mosteiro cisterciense de S. João de Tarouca, envolvendo estruturas antigas entre os séculos XIII e XVII, foram encontradas, na suposta zona dos antigos claustros, algumas peças de cerâmica medieval, em barro vermelho, oriundas de Ovar.
O Mosteiro de Tarouca é uma das jóias do património arquitectónico português, havendo a intenção de o candidatar a património mundial da UNESCO.
É constituído pela Igreja, onde se encontra uma célebre estátua de S. Pedro, a torre (em reconstrução), os dormitórios, do século XVIII (à esquerda da gravura, em ruínas), o sistema hidráulico subterrâneo, a Casa da Tulha, etc.


Vista geral do complexo do Mosteiro de Tarouca, em obras de recuperação,
onde se encontraram antigas peças de barro vermelho de Ovar


Zona de intervenção arqueológica no Mosteiro de S. João de Tarouca
Foto DAQUI

A constatação da presença de cerâmica em Ovar num mosteiro que marcou a história e a cultura portuguesa não é apenas motivo de orgulho para os vareiros, mas é também uma achega importante para recuarmos, no tempo, o início da actividade dos oleiros nesta povoação, primeiro situados na zona de Cabanões, sede primitiva da freguesia de S. Cristóvão, e depois, também na zona urbana de Ovar onde, no início do século XX, existiam dezenas de olarias.
A localização de um antigo lugar do Barreiro entre Cabanões e S. João justifica essa actividade, na Idade Média, já que se trata de um topónimo relacionado com o barro, produto base das artes cerâmicas. (Texto: P. B. em "João Semana" de 1 de Novembro de 1999)

LEIA também o artigo "Ovar em 1920 - Uma Vila próspera em Olarias", publicado na revista "Reis" (2000), e editado AQUI.

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