4.3.10

Nos 25 Anos do 549 – 73 Anos de Escutismo em Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (15/10/2003)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

As raízes
As raízes onde mergulhou o grupo escutista de Ovar vêm de 1924, com a formação, aqui, de um núcleo da Associação da Cruzada Nacional de Nun’Álvares Pereira, presidido por António Augusto de Abreu.
Esta Cruzada, que tinha ideais patrióticos e religiosos, aglutinou à sua volta conceituadas famílias da então vila, e em 1930 foi reorganizada com a adesão de cem associados, entre os quais se contavam o Dr. João Maria Lopes, o Dr. António Fragoso, cujo centenário de nascimento ocorreu recentemente, Manuel Pacheco Polónia, o Dr. Marques Reis, o Dr. Nunes da Silva, António Coentro de Pinho, etc.

A fundação dos Escuteiros
Foi aquela Associação que incentivou a criação do Grupo de Escuteiros, cujo instrutor foi o militar e associado da Cruzada Ilídio Barros Félix, casado com D. Hermínia Silveira, filha do Dr. João Silveira, o famoso “João Semana” das “Pupilas do Senhor Reitor”.
Os primeiros exercícios foram executados em 23 de Julho de 1930, na casa do Sr. Abreu, na Rua Rodrigues de Freitas (onde, depois, foi construída a casa do Dr. Esperança), continuando às 5.as-feiras à noite e aos Domingos de manhã). É natural que nesse mesmo local se estabelecesse a primeira sede do Agrupamento que, pouco depois se mudou para uma sala construída pelo P.e José Ribeiro de Araújo (o Padre Cura) no quintal da sua casa, na Rua Visconde de Ovar.
Data de 31/10/1930 – há 73 anos – a filiação oficial do Grupo 66 Nun’Álvares de Ovar no Escutismo, com a seguinte direcção:
Chefe – Manuel Ferreira Regalado (o 1º classificado); Ajudante – Luciano Valente da Fonseca Soares; Capelão – P.e José Maria Maia de Resende; Chefe de Administração – P.e José Ribeiro de Araújo; Médico – Dr. Álvaro dos Santos Esperança.
Os restantes escuteiros da primeira hora foram: Manuel de Pinho Alho, João Fernandes da Graça, José da Silva Miranda Júnior, António Soares Dias, Armando Pereira de Almeida, Artur Fernandes dos Santos, Joaquim Valente (Lambranca), Mário Augusto Pereira Veloso, Jaime Marques Tomé, Humberto Rodrigues Gomes Pacheco, José Pereira Mendonça, Manuel Maria Valente Nunes, Joaquim Manuel Abragão, Marcos Ferreira Dias, José Leitão Cardoso, José Maria Dias Marques de Almeida.

A festa de inauguração foi em 5/7/1931 [foto], de manhã, com cortejo precedido pela Banda Ovarense, Missa com as Promessas, seguindo-se, de tarde, recepção ao Dr. Costa Lobo, Lente da Universidade de Coimbra, cumprimentos na Câmara, B.V. e Misericórdia, e sessão solene no velho Teatro Ovarense, e à noite um sarau cultural e recreativo.
O 1º acampamento foi em 26 de Agosto, junto de S. Miguel.

Junto à fonte do Quartel (Combatentes)
Em Novembro, com a saída de Manuel Regalado, que optou por servir os Bombeiros, de cuja corporação também fazia parte, a chefia passou sucessivamente, para António Augusto de Abreu (até 15/9/1932), P.e Manuel da Silva Brandão (até 30/4/1934) e Eugénio Vinagre (de Maio de 1924 a 30 de Novembro de 1937).
Em 1932, na sede do Agrupamento 66,na Casa do P.e Ribeiro de Araújo,
 à direita na foto. (À esquerda, o P.e Brandão, e ao centro o 1.º assistente,
 P.e Maia de Resende)
Acampamentos, récitas, passeios, filmes, reuniões gerais e de formação, a instalação de um rádio na sede (7/1/1932), novas Promessas, a criação de uma Biblioteca, a participação em procissões quaresmais (1933), eram algumas das actividades que alimentavam o entusiasmo dos jovens escuteiros, apoiados por pessoas amigas. Entre estas, para só falar nos ensaiadores das festas, contavam-se o Professor Patrício, o seminarista António Manarte e o P.e António de Carvalho, estes dois últimos com um papel relevante na música, com obras publicadas.


Na noite de 15/2/1933 os Escuteiros promoveram, na sua sede, uma “diversão carnavalesca” muito concorrida, em que brilharam António de Oliveira Salvador, “o rei da gargalhada”, e Horácio Lopes, “que se estreou muito bem”.
Em 6/7/1933 foi agraciado pela Junta Central de Braga o P.e Manuel Brandão, e em 7/8/1934 foi descerrado na sede o retrato do P.e José Maria Maia.
Em 23/1/1934 a sede foi visitada pelo Comissário Regional do Porto, José Augusto de Sousa, e pelo Inspector Aristides Rodrigues, que almoçaram em casa do “grande benemérito do Grupo 66”, Dr. Gonçalo Huet de Bacelar, na Rua José Falcão, assistindo, de novo na sede, a um programa festivo e visitando o monumento aos Mortos, B.V. e Hospital.

Escuteiros com dirigentes de Lisboa entre o Carregal e o Torrão do Lameiro

Tempos de crise...
A Alcateia 52 (lobitos) foi fundada em 28/2/1934, tendo como chefe António de Oliveira Salvador (de 15/7/1934 a 15/8/1936) e Eugénio Vinagre (a partir dessa data).
Durante a chefia de Eugénio Vinagre (de Maio de 1934 a Novembro de 1937) houve crise no Agrupamento. Isso de depreende da Convocatória para uma reunião assinada por Manuel Coentro Alves Cerqueira e publicada em 17/12/36 no “João Semana”, para “resolver sobre a reorganização do Grupo e da Alcateia” e para escolha dos dias de ensaio do Grupo Cénico.
O Grupo ressurgiu com récitas, um acampamento no Lopo (de 24 a 26 de Julho de 1937) e outro em S. Miguel (Setembro de 37), havendo novas admissões. Em 20/3/38, por exemplo, fizeram a Promessa 5 escutas e 12 lobitos,contando-se entre os escutas o actual Major Jaime Ferreira Regalado, e entre os lobitos, os sobrinhos do P.e Ribeiro de Araújo (José e António Soares Ribeiro).
Em 13/5/38 os dirigentes da Região do Porto quiseram celebrar a sua festa anual em Ovar, associando-se ao evento alguns altos dirigentes de Lisboa. Foram tiradas fotos junto à fonte do Quartel, e foi-lhes proporcionado um passeio em barcos desde o Carregal ao Torrão de Lameiro.
Em 11/11/38, o Chefe Alves mimoseou a rapaziada com um magusto, e em 6/11 e em 8/12 foi apresentado um “animado espectáculo” de variedades, tendo o Ajudante António de Oliveira Neves, “o Ideias”, pintado um pano de boca representando um acampamento de escutas.
Para avaliar a boa disposição da rapaziada, pode consultar-se o “João Semana” da época:
“O Costinha foi premiado, num concurso de “alta-costura” pelo fraque e chapéu de coco que usou no cortejo carnavalesco”... “o nosso comissário José Augusto anda atrapalhado com os óculos novos”; “Chefe Alves quer escrever uma monografia sobre a Ordem Terceira de S. Francisco e nem dorme por causa disso”. (J.S. 26/3/1939).
E o jornal de 15/6 avisa que o “acampamento anual já não se realiza na quinta do Sr. Dias, mas noutro local próximo, por causa das plantações de “pinus maritimus””; que o Chefe Alves anda muito aborrecido com certos manejos comunistas e por isso ou entra tudo nos eixos ou… vai tudo raso”. [E foi, pois o Alves acabaria por passar algum tempo na cadeia, com maus tratos, por ideias subversivas, segundo escreve Joaquim Santos no jornal “Tribuna Press” de 2/10/2002). Era o tempo da Grande Guerra (1939 – 45), com as divergências entre os apoiantes da Alemanha, Inglaterra ou Rússia…

Grupo Misto
Após 2 acampamentos realizados no Verão de 1940 – um em Arada, frente à Igreja, em 22 e 23 de Junho, e outro ao cimo da Rua Fernando Tomás, na mata onde existiu uma fábrica de curtumes da família Santiago (actual Bairro da Misericórdia), o Grupo 66 estiolou, “mergulhado em sono letárgico”, de que só saiu 2 anos depois, com a entrada do novo Chefe, Francisco António Marques Alegria, em 16/9/42, data que coincide com a passagem do 66 a grupo misto.
A morte do P.e Maia de Resende (1863-1940), e o desenrolar Guerra explicarão, em parte, essa crise. Outra razão, e forte, terão sido os derriços surgidos no Grupo misto…
Sinais de alguma vida são a referência à passagem, na estação do C.F., do Comissário Nacional do CNE, Dr. José de Lencastre (21/6/1942), de passagem para a sua terra, Paços de Ferreira; uma nota do cronista Lince, em 9/6/42, queixando-se da falta dos confrades às reuniões e afirmando que tem rezado o “responso a Sto. António a ver se eles aparecem”... (Num acampamento no Parque da ADO apresentaram-se 25 escutas, faltando 9 com justificação.)
Nova crise surgiu em 1943, pelos vistos por causa do casamento do Chefe. O “João Semana”fez-se eco de alguns apelos. Um do velho Lince, em Dezembro de 1943 e outro de Júlio Manarte, em 13/7/1944.
E nada mais se diz sobre o Agrupamento até ao fim de 1945, sinal de que de nada valeram aqueles apelos. O Grupo deixou, na prática, de funcionar, sendo dado como inactivo em 1950.
Em 1951, o Chefe António Neves, o Ideias, como era conhecido, escreve uma série de artigos sobre Escutismo, chegando a apontar Salazar e Caetano como apreciadores do movimento. (Segundo opinião contrária, Salazar nunca terá visto com bons olhos o Escutismo, por fazer sombra à Mocidade Portuguesa.)
Em Junho desse ano, o 66 foi reorganizado (27/5/89-7/9/1972), com a entrada de 14 aspirantes:
Anselmo da Costa Resende, José da Costa (Costinha), Joaquim Rodrigues da Silva, Joaquim Valente da Silva, David e António de Oliveira Gaspar, José Francisco Ribeiro, Joaquim Machado da Costa (Guimarães), Joaquim Carriola, António Jorge Tavares Carvalho, Antero Alves Moreira, Alberto Martins, Manuel Mendonça e José de Pinho.
A sua investidura, em 29/7/51, coincidiu com a passagem por Ovar de cerca de 50 dirigentes do Porto, a caminho da Torreira, em festa de confraternização. Tendo participado nas cerimónias na Igreja, todos se dirigiram para o Carregal, de onde seguiram em lanchas do Turismo e de António Neves e num Andorinha, tendo chegado às terras de S. Paio, para almoçar, pelas 3 e 4 da tarde… Mas a alegria de todos era contagiante, para isso concorrendo a viola de Anselmo Resende, que nesse mesmo dia foi nomeado Chefe do Agrupamento.

Em dia de Promessas, junto à Igreja Matriz
Em Janeiro de 1953 foi reorganizada, sob a chefia de Maria Celeste Carrelhas, e com 15 lobitos, a Alcateia 52, “que há muito dormia o sono letárgico dos seres inanimados”, confraternizando com a “Patrulha de Estado Feminino Pelicano” e com o Grupo 66, com o qual se veio a integrar, “em regime de Agrupamento” em Outubro de 1957.
A crise agudizou-se de novo quando Anselmo Resende, que também era regente da Banda Nova (1955 – 1958), deixou a Chefia em 19572, deixando o Agrupamento nas mãos de José Augusto de Almeida, logo nomeado Secretário (24/12/1957), sem qualquer outro dirigente em exercício.

Da Exposição Permanente ao Museu de Ovar
Sozinho e mais propenso a actividades culturais, o José Augusto dedicou-se, com os escuteiros que restavam, à recolha de materiais de coleccionismo, tendo êxito uma Exposição Permanente de objectos africanos oferecidos por um amigo do Agrupamento.

No edifício do antigo quartel que também serviu de sede, o Agrupamento 66
promoveu a Exposição Permanente que deu origem ao Museu de Ovar 

Museu de Ovar
Neste trabalho teve especial participação António Jorge Pereira de Carvalho, que viria a tornar-se Chefe (o último do Agrupamento 66) em 14/6/1960 (Ordem de Serviço n.º 250).
Obrigado a sair do edifício do Quartel, destinado a funcionar como Escola Primária, o CNE ocupou uma casa na Rua Heliodoro Salgado, para onde foi mudado todo o espólio do Agrupamento, incluindo o material da Exposição Permanente, e onde sobreviveu cerca de 6 anos, em desagregação constante.
Foi a partir desse espólio museológico amealhado pelos Escuteiros que se foi consolidando o Museu de Ovar, nascido oficialmente em 1961 e umbilicalmente ligado ao movimento escutista vareiro.
Quando da última restauração do Escutismo em Ovar, em 1978, foram retirados do sótão do Museu os objectos que ali restavam, alguns dos quais com muitas dezenas de anos de vida, voltando ao convívio dos novos escuteiros.

Como nasceu o Agrupamento n.º 549


Primeiros chefes do Agrupamento 549: António Claro, Joaquim Guimarães, José Maria Costa, José Victor, Laura Poças (Madrinha), P.e Bastos (Assistente), Maria do Carmo e João Casas, António Carvalho e Natália Guimarães. (Os Casas entraram poucos anos após a fundação)

Pela Páscoa de 1976, estando eu na Igreja Matriz, fui abordado por um jovem, o António Claro – Toni –, que me questionou sobre a hipótese de se formar, em Ovar, um Agrupamento de Escuteiros. Tinha sido escuta em Lamego, tinha bastante experiência…
Disse-lhe logo que aplaudia a ideia, e que, tendo Ovar uma tradição de Escutismo, seria conveniente abordar antigos escuteiros, alguns dos quais eu conhecia.
Assim aconteceu. O Toni falou com alguns elementos do antigo 66, entre os quais o José Vítor, o José Maria Costa e o António Carvalho que, entretanto, agendaram comigo uma primeira reunião, realizada em 20 de Maio, uma 5ª-feira, às 19h30, no fim da Missa da tarde.
A partir de Outubro, os encontros tornaram-se mais frequentes e, em breve, com a persistência daqueles chefes e a entrada, como dirigente, do antigo escuteiro Joaquim Machado da Costa Guimarães, ficou a percepção de que a causa estava ganha, até porque, já que foram muitas as crianças e adolescentes que, correspondendo ao apelo do Pároco e dos responsáveis, iniciaram as actividades de formação, na antiga sede da JOC-LOC, na Rua Alexandre Herculano, 20.
A oficialização do Agrupamento veio em 1978, cabendo-lhe o nº 549, e tendo como primeiro Chefe Joaquim Guimarães, que tem permanecido no seu posto até aos dias de hoje.



Escuteiros em dias festivos
Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Outubro de 2003)

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