24.3.10

Lavadeiras das Luzes – Vozes que ainda cantam no rio

Jornal JOÃO SEMANA (01/12/2009)
TEXTO: Fernando Pinto

Lavadeiras das Luzes, Ovar
FOTO: M. Pires Bastos
Sempre que um turista atravessa a ribeira da Graça, nas Luzes, fica com os pés colados no tabuleiro da ponte a contemplar o cenário bucólico que se estende lá em baixo no rio. Mulheres de chapéu e lenço na cabeça, com as suas bacias coloridas a transbordarem de roupa, batem as peças na pedra fria e cantam para passar o tempo, para espantar a crise...
O “João Semana” esteve à conversa com as lavadeiras das Luzes e trouxe de lá alguns recados: “Ponha lá no jornal, se faz favor, que as mulheres que lavam neste rio ainda não desistiram do seu sonho, do lavadouro que nos andam a prometer há anos”, repetiam elas, enquanto lhes tirávamos o retrato da praxe.

Maria do Céu, uma das lavadeiras mais antigas de Ovar
FOTO: Fernando Pinto
Dona Maria do Céu fez do rio a sua segunda casa. “Já não passo sem isto. Há anos que venho para aqui de manhã e só saio por volta das quatro horas”, confessa, cabisbaixa, passando a escova numa peça de roupa escura.
“Estamos para aqui esquecidas”, lembrou a Sr.ª Benvinda Oliveira, “mas os turistas gostam muito de nós! Estão ali no hotel, atravessam a rua Dr. João Semana”, e quando chegam aqui ficam a olhar para nós. Gostam de nos ver a ensaboar, a esfregar, a ensaboar”.

Ribeira das Luzes, onde as lavadeiras costumam lavar a sua roupa e a das freguesas
FOTO: Fernando Pinto
Rosa d’Assunção no seu texto Lavadeiras de Ovar, publicado na revista Reis de 1993 [clique no link], explica que a “roupa era ensaboada com sabão amarelo, bastante gordo. Ficava a roupa de um dia para o outro e só depois se lavava com o dito sabão, tirando-se primeiro o sujo. Lavava-se, em seguida, e depois de corrida em água corrente, voltava-se a ensaboar com sabão de veia azul e estendia-se a corar ao sol. Durante o dia, várias vezes se regava a roupa, a fim de não secar o sabão que continha. A determinada altura dava-se uma volta à roupa. Dizia- se mesmo: Vou dar volta à roupa.

Lavadeiras das Luzes, Ovar
FOTO: M. Pires Bastos
No fim do dia, às peças mais brancas tirava-se-lhes aquele sabão do coradouro, voltava-se a ensaboar e, no dia seguinte, voltava-se a estender. Só no fim do segundo dia de cora era corrida, torcida e posta a secar. Não havia lixívias, apenas se usava um pouco de cloreto nas toalhas de mesa com nódoas difíceis. Depois de seca, bem sacudida e dobrada, entregava-se ao dono e recebia-se o ajustado, conforme as peças”.

Uma grávida nas Luzes

No dia 20 de Maio, deste ano, recebemos este e-mail da jornalista Sónia Morais Santos, que nos deixou boquiabertos: “Estou a fazer uma reportagem para a revista de Sábado do novo jornal i, em que me era útil conversar com as Lavadeiras das Luzes. Vi no seu fotoblogue Olhar Ovarense, aquela fotografia belíssima, assim como um artigo do Ovarvirtual, de Joaquim Castro. O que eu queria perguntar-lhe, antes de me meter a caminho (sou de Lisboa e estou grávida de nove meses), é se me sabe dizer quando é que será mais fácil encontrar lavadeiras neste sítio. Agradeço a sua ajuda.”
Respondemos ao e-mail desta colega de profissão, deixando-lhe algumas dicas para que pudesse realizar o seu trabalho sem se cansar demasiado, devido ao “estado de graça” em que se encontrava. Passados dois dias, as lavadeiras das Luzes tinham a seu lado uma jovem de 35 anos, a poucos dias de dar à luz, sentada “confortavelmente” nos degraus escorregadios que levavam ao leito da ribeira da Graça!!!
No dia 20 de Junho, Sónia Morais Santos partilhava a sua experiência com os leitores da revista Nós. Deixamos-lhe a introdução desta sua aventura por terras vareiras, para que também possa ficar atónito: “É como se não fosse verdade. Como se fosse cenário. Como se houvesse uma câmara algures, de certeza, uma claquete, um ‘Corta!’ pronto a ser disparado por uma voz decidida. E, afinal, vai-se a ver e não. Não é uma cena de um filme, nem de uma novela, nem de uma série a relembrar tempos idos. Há mesmo mulheres dentro do rio, com alguidares de roupa suja e barras de sabão e escovas, há espuma e mãos que esfregam, há até cantorias para ajudar a passar o tempo, há tudo o que havia antes, num tempo que não é o de hoje”.
Lavadeiras das Luzes - FOTO: Fernando Pinto
Quem sabe se não é neste Natal, ou no próximo, que as lavadeiras das Luzes vão ter a prenda há muito desejada no “sapatinho”: um lavadouro condigno, desses que não deixam entrar água nas botas de borracha no Inverno, quando o caudal do rio engrossa e fica da cor do barro, desses que não gastam nada a não ser as mãos delicadas das vareiras que lavam passadeiras, colchas e carpetes para fora, para irem ganhando uns “tostões”, vencendo esta crise que teima em não passar.
Como disse uma das senhoras que passava pela ponte das Luzes – na altura em que a Dona Maria do Céu e a Sr.ª Benvinda Oliveira cantavam a “Aldeia da Roupa Branca –, “é ou não é verdade que os políticos passam a vida “a lavar roupa suja” e, no final, continuam todos amiguinhos uns dos outros e quem paga o pato somos nós?... E as duas lavadeiras continuaram a ensaboar, a esfregar, a cantar...

Ai rio não te queixes,
Ai o sabão não mata,
Ai até lava os peixes,
Ai põe-nos cor de prata.

Três corpetes, um avental,
Sete fronhas, um lençol,
Três camisas do enxoval,
Que a freguesa deu ao rol.

Água fria, da ribeira,
Água fria que o sol aqueceu,
Velha aldeia, traga a ideia,
Roupa branca que a gente estendeu.

Um lençol de pano cru,
Vê lá bem tão lavadinho,
Dormindo nele, eu e tu,
Vê lá bem, está cor de linho.

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Dezembro de 2009)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2010/03/lavadeiras-das-luzes-vozes-que-ainda.html




Um dos postais da minha exposição de Fotografia "FRUTOS DO OLHAR"
MUSEU DE OVAR (30 de junho a 28 de julho de 2012)

1 comentário:

Sara Sofia disse...

http://www.youtube.com/watch?v=LuuObWasgSA&feature=youtu.be

Um vídeo que retrata muito bem a entrevista! Uma reportagem fotográfica minha, de há 5 anos atrás!