14.2.10

O Carnaval... há 150 anos


Jornal JOÃO SEMANA (15/02/2006)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

"Carnaval Sujo" - Ovar
FOTOS: Estúdio Almeida

As folias carnavalescas, tal como muitas outras manifestações de índole popular, enraízam em tradições milenárias, e andam ainda carregadas de marcas de paganismo, pese embora o empenho da Igreja em as cristianizar.
As próprias leis civis lutaram contra certos excessos, e disso nos dão conta, por exemplo, os Acórdãos de 1852 do concelho da Bemposta (extinto pouco depois), que incluía as vizinhas freguesias de Loureiro, Ul, Travanca, Palmaz, Branca, Santiais (Beduido), Salreu, Canelas, Fermelã, Pardelhas e Ribeira de Fráguas.
Assim, proíbe-se, no artigo 16, “jogar na taberna ou seus enxidios jogo de cartas, de bola, ou de qualquer outra denominação”; no 17 “os ajuntamentos noturnos a título de fiadas – espadeladas – amouçadas, e de qualquer outra denominação”, e no 19º “os repreensíveis divertimentos que uzam alguns mancebos inquietos nas noites do 1º de Maio, de S. João e S. Pedro, mudando cancelas, carros, vasos, ferramentas, e muitos outros objectos alheios…”.
Quanto ao Carnaval, diz o artigo 18:
“São prohibidos os jogos d’entrudo, com agoa, laranjas, farinha, immundices, e semelhantes, assim como aquelles que aterrem algumas pessoas, e espantem os gados, sob pena de 500 reis, com vistuarios, ou divertimentos alluzivos, insígnias e ritos Ecleziasticos da religião do Estado, ou offensivos da Moral publica e da honra de pessoa conhecida, sob pena de hum até 6 000 reis, segundo a gravidade das circunstancias, e hum ou 2 dias de prizão.
§ único – Hé tolerado o uso da mascara simples e innocente que não for qualificada com alguma das circunstancias, com alluzões prohibidas”.
Como se vê, há 150 anos atrás havia quem se aproveitasse do Carnaval para fazer das suas…

"Carnaval Sujo" - Ovar
FOTOS: Estúdio Almeida
Ainda há 50 anos se jogava um pouco assim o Carnaval em Ovar. Chamavam-lhe o Carnaval “sujo”. [Fotos do Estúdio Almeida]. Mas porque algumas pessoas de bem se lembraram de que em tudo deve haver maneiras – est modus in rebus, como se diz em latim –, o Carnaval vareiro passou, a partir daí, a apresentar-se de modo mais civilizado. Com algumas excepções à regra…

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Fevereiro de 2006)

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