3.2.10

Na Marinha de Ovar, há 150 anos...

TEXTO: Marco Pereira

É impreciso o título, porquanto queremos falar em concreto sobre a «Marinha da Moz» [ver setas na gravura], no extremo sul da Marinha de Ovar, e porque o assunto em causa tem mais que os tais 150 anos. Mas para explicar tudo isto de maneira a que toda gente percebesse, talvez não nos chegassem aquelas poucas palavras do título, que da mesma maneira chamam a atenção dos interessados pelas antiguidades vareiras. E não são poucos, seja no passado ou no presente, os que no concelho deixaram e vão deixando trabalho feito, e com grande mérito. Por isso mesmo, perdoem-nos esta pequena intromissão em território alheio, que bem sabemos haver por Ovar pessoas muito capazes para falar destes assuntos da sua terra.
Uma só razão atenua a nossa culpa: o haver relação entre a nossa conversa e Pardilhó, de onde somos. É que a Marinha de Ovar (bem como o Torrão do Lameiro) pode-se dizer que foi, em boa medida, colonizada por gente de Pardilhó.

Os pardilhoenses tinham ali a sua lavoura, à qual se dedicavam durante a semana, e vinham a Pardilhó, ao Domingo, à missa e à feira dos 9 e dos 23, na qual, principalmente no dia 9 de cada mês, se comprava e vendia gado e outros produtos. Há 50 anos – número redondo – uns nossos bisavós eram disso exemplo, tendo casa na Marinha e em Pardilhó – ambas humildes, como o era a vida dos seus proprietários -, e por isso mesmo faz-nos parte do sangue esta pequena migração doméstica, se é que tal lhe podemos chamar.
Mas a gente de Pardilhó não se limitou à vida agrícola e pecuária na Marinha. No rescaldo da Primeira Guerra, construíram neste lugar, por mais que uma vez, navios de grande porte. Ainda conheci uma senhora que em menina vira um desses navios seguindo para a Barra, depois do bota-a-baixo, o que era coisa sempre acompanhada de grande animação pelos pardilhoenses, compreensivelmente.
Dirigira a construção do navio, no lugarejo da Aguieira, Joaquim Dias Ministro, construtor muito competente, que não viveria muitos mais anos, morrendo ainda relativamente novo.
É natural que haja maior dificuldade em encontrar vareiros que se lembrem destas glórias, ora porque a Marinha ficava fora de portas, ora porque havia nela mais gente de Pardilhó que de Ovar.


Em plena ria de Ovar, entre o Torrão do Lameiro e a Tijosa. Ao fundo, a antiga marinha da Moz, e ao longe a actual ponte da Varela (Clique na foto)

E não são poucos, ainda hoje, os habitantes daquele lugar com antepassados de Pardilhó.
Ainda recentemente, quando nos apresentavam ao senhor Álvaro Valente, em serviço na igreja de Ovar, dizia-nos ele que o seu pai e avós eram de Pardilhó e vieram viver para o Carregal. E há anos, durante o bota-a-baixo de um moliceiro ocorrido em Pardilhó, cujo comprador era do Torrão do Lameiro, e que teve honras da presença da televisão e do actual presidente da Câmara de Ovar (autarquia que ajudou nas despesas), dizia este que também tinha uma avó de Pardilhó, a qual casara com o avô de Esmoriz.
Certamente esta ligação com a Marinha há-de ter sido um argumento para a integração de Pardilhó no concelho de Ovar, entre 1926 e 1928. A integração deu-se dessa vez, mas já muito antes Ovar havia tentado incluir nos seus limites freguesias que lhe ficavam a sul. (Temos conhecimento de tentaivas dessas pelo menos em 1867 e 1874).

Mas era, na verdade, sobre outra questão que queríamos falar. Estando nós, recentemente, a folhear números antigos do Diário do Governo do ano de 1837 [na gravura], procurando por determinadas questões que respeitam ao concelho de Estarreja, saltaram-nos à vista alguns inventários de bens da Igreja e da Casa do Infantado que por todo o país estavam para venda. Entre esses bens encontrámos a Marinha da Moz, na Marinha de Ovar, pertença da Casa do Infantado (extinta nessa altura).
O interesse maior que nos suscitou tal documento, além de referir terras onde mais tarde terão possivelmente trabalhado antepassados nossos, foi o de ficarmos a saber que o fruto dali colhido era o centeio e não o milho que quase em exclusividade hoje vemos.
Com a ajuda do mapa que reproduzimos, que é de 1870, localizarão com facilidade os leitores mais pacientes essa Marinha da Moz, que vem indicada por baixo da Tijosa. Curiosamente, a actual Carta Militar de Portugal não regista o lugar, o qual parece ser de terra pouco firme. Enfim, talvez valha pouco a informação, mas fica à consideração dos vareiros interessados.

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Novembro de 2004)

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