21.1.10

Júlio Dinis e Ovar (II)

Roque Gameiro e a ilustração d'As Pupilas do Sr. Reitor de Júlio Dinis, em Santo Tirso e não em Ovar

TEXTO: Albano de Paiva Alferes (*)

Em finais do século passado, a empresa "A Editora", de Lisboa, promoveu uma edição monumental d'As Pupilas do Sr. Reitor, da autoria de Júlio Dinis que, como todos sabem, é o pseudónimo do Doutor Joaquim Guilherme Gomes Coelho.

Trata-se duma maravilhosa obra gráfica, com ilustrações em sépia escura, que constituem um riquíssimo perpassar de aspectos etnográficos: arquitectura rural, mobiliário artesanal, trajos típicos, rendas e bordados.
A citada empresa confiou a direcção e a iluminação da obra ao mestre ilustre Roque Gameiro [na imagem], autor de vários trabalhos deste género, como a grande edição das Obras Completas, de Ganes, uma edição monumental dos Lusíadas a História da Colonização Portuguesa do Brasil, e outras.
Decorridas algumas décadas, ou seja em 1934, o cineasta Leitão de Barros apresentou, nos ecrãs dos cinemas portugueses, o filme "As Pupilas do Senhor Reitor" que obteve um sucesso extraordinário, tendo ele declarado que decalcara o seu trabalho nas Pupilas Ilustradas de Roque Gameiro, que é, então, interrogado a propósito do local onde decorreu todo o entrecho das "Pupilas do Senhor Reitor".

Monumento a Júlio Dinis em frente à Escola Médico-Cirúrgica
onde foi aluno e, mais tarde, professor (1863 a 1865)
 
Roque Gameiro reconhece que está perante uma dificuldade de História Literária, e para explanar o assunto dizendo que lera e relera o texto, que consultara várias pessoas, entre as quais o ilustre oficial da marinha Gomes Coelho, tio e herdeiro do espólio e dos direitos de autor de Júlio Dinis, que nada souberam dizer acerca da localização daquela Crónica da Aldeia.
Esteve em Ovar algum tempo, tendo verificado que a paisagem descrita nas "Pupilas" não se amoldava, de forma alguma, à de Ovar: a sua ambiência, a proximidade do mar, os hábitos e costumes do povo vareiro assim o demonstravam.
Roque Gameiro confirma a sua peregrinação, a palmilhar, terras do Minho, onde Júlio Dinis se tinha refugiado para fugir à morte, que o veio a descobrir, aos 32 anos de idade, na flor da vida...

No final de todas estas andanças, Gameiro assentou arraiais em Santo Tirso, onde Júlio Dinis residiu bastante tempo, e então, descobre, ali, a paisagem, que se adaptava, dum modo admirável, às descrições da soberba "anedota" rural, num ambiente encantador de cor e beleza que ele tentou interpretar nas ilustrações do famoso romance.
Neste momento, sai-lhe à estacada o Senhor Doutor Pedro Chaves, a "protestar", reivindicando para Ovar a honra de ter sido, ali, onde se teria desenrolado toda a acção da obra do malogrado romancista.
Porém Gameiro responde ao Senhor Doutor Pedro Chaves duma forma respeitosa e elegante, dizendo: "Eu próprio aplaudo esse enternecido bairrismo, mas como ilustrador tive de deixar de parte qualquer outra atitude que fosse assente, por um lado, nas fontes da informação rigorosa, e, por outro, na minha lateral inspiração".
Não tem, pois, o menor fundamento o facto de haver pessoas, em Ovar, que afirmam que alguns dos seus antepassados forneceram a Roque Gameiro informações e trajos para a realização do seu trabalho.

A terminar, devemos concordar que são deveras maravilhosas as ilustrações do mestre Gameiro - o Gustavo Doré português.
Aquela do João Semana montado numa pileca famélica, de chapeirão na cabeça e um guarda-sol enorme vermelho e aberto, é magistral...
Esse João Semana que este jornal teima em perpetuar.

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Abril de 1993)


(*) Padre Albano de Paiva Alferes (1908-1994)


Colaborador do jornal “João Semana”, nasceu a 20 de Março de 1908 em Duas Igrejas, Santa Maria da Feira.
Filho de José Augusto Benjamim de Paiva e de Maria Alves da Silva.
Frequentou o Seminário Diocesano do Porto onde se ordenou em 1931, celebrando Missa Nova a 18 de Outubro do mesmo ano.
Foi professor no Seminário das Missões, em Tomar, e Pároco de Freixo de Cima (Amarante), Escapães (Feira) e São Miguel de Souto (1943-1979).
Referência cultural do Concelho da Feira, foi condecorado com a Comenda de Oficial da Ordem do Infante D. Henrique.
Faleceu em Santa Maria da Feira em 1 de Fevereiro de 1994.

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