9.1.10

Uma pedra histórica da Capela de S. Tomé

Jornal JOÃO SEMANA (15/05/1998)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Na Azorreira, à margem da estrada do Carregal à Marinha, na zona de deposição das lamas provenientes da dragagem da Ria, foi encontrada, no princípio de Abril, uma pedra de cantaria, lavrada e com inscrição numa das faces.

A pedra da Capela de S. Tomé encontrada na Azurreira

Nem de propósito. Precisamente na zona onde, uns dias antes, em 1 de Abril, “dia das mentiras”, o “João Semana” anunciava o aparecimento de um barco antigo,…que várias pessoas procuraram em vão…
À falta de barco, e por coincidência feliz, apareceu a dita pedra…
Antes que se perdesse na confusão das obras ali em curso, e mesmo sem se ter decifrado completamente a mensagem transmitida, alguém teve o cuidado de recolher o precioso espólio.
“Precioso” porque se trata de um achado importante, que vem avivar algumas páginas menos sabidas da história da nossa cidade nos séculos XVI e XVII, época em que se incrementou, sob a jurisdição dos Condes da Feira, donatários “de toda a terra” de Ovar, a expansão urbana da então vila, mantida, até aí e durante os dois séculos anteriores, em estado embrionário dependente do concelho de Cabanões.

Do Castelo à Capela de S. Tomé

Com alguma minudência, a historiografia vareira refere, em Ovar, certos lugares ligados ao domínio dos ditos Condes, tais como o Paço, ou Castelo, que deverá ter sido o núcleo da futura povoação (no sítio também chamado Largo do Cruzeiro da Graça, onde hoje se situa o Palácio da Justiça), e a Capela de São Tomé, no Largo que tinha o nome do Santo ou mais popularmente Praça das Galinhas e hoje se chama, oficialmente, Mousinho de Albuquerque.

Antigo Largo de S. Tomé (ao fundo, o actual Palácio
da Justiça, onde se situava o antigo "Castelo" de Ovar).
À esq. o Torreão construído no séc. XX
pelo comerciante Afonso José Martins

Essas construções, que marcaram séculos e que ficaram ligados à toponímia local, foram sacrificadas, posteriormente – a Capela foi-o em 1844 –, ao camartelo das convulsões políticas ou aos caprichos do progresso, tal como aconteceu a outros monumentos históricos, como o pelourinho, que se situava de fronte dos antigos Paços do Concelho.
Diz a inscrição em referência: Esta Capela he dos Condes da Feira – Ano 1643”. Ao centro tem uma cruz, na forma florenciana.
Ao tomarmos conhecimento do achado, que se deve ao P.e Aníbal Duarte Pereira, logo nos lembrámos da Capela de São Tomé, precisamente aquela que todos os historiadores vareiros, bebendo na mesma fonte matricial que são as “Memórias e Datas para a História da Vila de Ovar” (1868), do Dr. João Frederico Teixeira de Pinho, afirmam ter sido dos Condes da Feira.
De facto, ali se informa que o Doutor Manuel José da Silva, falecido em 1818 com 97 anos, e que foi Procurador do Tombo do Infante, afirmava que aquela capela foi mandada construir no século XVI por D. Manuel Forjaz Pereira, 5.º Conde da Feira, “a pedido dos seus vendeiros, que administravam e recolhiam as rendas no celeiro de Ovar, chamado o castelo, para ouvirem missa nos dias de obrigação, por ser a Igreja muito distante e não haverem Ermidas próximas”.
Segundo o mesmo informador, o Conde mandou pôr nela as suas armas, mais tarde substituídas pelas quinas reais, por sua vez apeadas por Junot quando da Revolução Francesa.
A inclusão da Capela de S. Tomé (como a da Graça) no “Catálogo dos Bispos do Porto”, obra publicada em 1623, prova que ela já existia no início do século XVII, dando crédito bastante às informações do Dr. João Frederico.
A ser dessa época, e segundo a opinião dos nossos historiadores, esta Ermida terá sido o primeiro templo de Ovar a pedra e cal, anterior à Capela da Senhora da Graça e à própria Igreja Matriz, que se mudou, ainda no século XVI, para o assento da actual. (Em 1588, data dos primeiros assentos paroquiais, a igreja é já “na vila de Ovar”, ficando para os lados de S. João o topónimo “Igreja Velha”, de S. Cristóvão de Cabanões).

Trata-se de uma reconstrução?

Com estes pressupostos, a data posterior (1643) da pedra agora achada vem, naturalmente, colocar novas questões aos investigadores. É que o Condado da Feira tinha passado, entretanto, para as mãos de D. Joana Forjaz Pereira de Meneses e Silva (6.ª Condessa ainda em 1640), e de seu filho D. João Forjaz Pereira Pimentel (7.º Conde, que viria falecerem 4/6/1660).
Pese embora a discrepância de datas, o documento epigráfico agora encontrado deverá ter pertencido à mesma Capela de São Tomé onde os rendeiros dos Condes assistiam à Missa desde há um século.
Como explicar, então, tal discrepância? Porque não há memória de outra Capela dos Condes nas cercanias de Ovar, nem nada o indicia – nem na Quinta do Corgo, da família Chaves, à entrada da Estrada da Marinha, propriedade que foi também pertença da Casa do Infantado, se encontra qualquer vestígio de antigo solar ou ermida –, aquela padieira com a indicação do Conde da Feira e do ano de 1643 poderá indicar o proprietário e a data da reconstrução da já então secular Ermida de S. Tomé, incapaz de servir condignamente os fins para que se destinava, demais que se vivia, então, no país, um período de euforia, após a expulsão dos castelhanos.
É a leitura possível. Que não é despicienda, até porque, por coincidência, o mesmo Livro “Memórias e Datas” refere que um século depois, em 1749, posteriormente à incorporação do Condado na Casa do Infantado, o deplorável estado de conservação da Capela exigiu uma intervenção semelhante.

O fim da Capela e a Imagem de S. Tomé

Extinta a Casa do Infantado em 1834, e revertendo os seus bens para a Fazenda Nacional, não foi difícil às autoridades liberais decidirem, em 1844, a destruição de um símbolo do antigo regime, em troca do alargamento de uma praça pública…
Com esta destruição, foram dispersos os vários elementos artísticos e ornamentais do monumento religioso. Entre eles, a pedra comemorativa da (re)construção (de 1643), que andava perdida e que agora (em 1998 se reencontrou, podendo voltar ao seu lugar de origem, em forma de pequeno monumento. (E muito jeito poderá fazer nesta hora de reconversão daquela zona histórica da cidade…Para tanto, já se encontra à guarda da Câmara Municipal).
Mas outra peça – e de altíssimo significado – sobreviveu à hecatombe que se abateu em 1844 sobre a Capela de que nos ocupamos.
Trata-se da imagem do seu Patrono, o apóstolo S. Tomé, o que “quis ver para crer”. (Na foto)

Transferida, naquela data, segundo os nossos historiadores, para a Capela de Santo António, juntamente com a de Santo André, essa preciosa imagem, em madeira, ainda ali se encontra do lado direito do altar-mor, sem atenção especial por parte dos fiéis, em absoluto desconhecedores da sua origem e das suas desventuras.
Memória mais sensível do Santo e da sua Ermida é a Quinta que traz o seu nome, à ilharga do seu largo, e o pequeno nicho existente sobre o átrio do respectivo edifício, onde uma outra imagem de S. Tomé é, desde o início deste século, figura tutelar.



Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de Maio de 1998)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2010/01/encontrada-uma-pedra-historica.html

Sem comentários: