15.1.10

Beatriz Campos – Presente na sua Arte

Jornal JOÃO SEMANA (15/07/2009)

TEXTO: Fernando Pinto

Na edição de 15 de Junho, o jornal “João Semana” dava a notícia do desaparecimento, aos 93 anos de idade, da artista vareira Beatriz Campos. Ovar perdia, nesse 31 de Maio de 2009, uma das suas filhas mais talentosas.

Mas quem era esta mulher que chegou a expor na Sociedade Nacional de Belas Artes, em Lisboa, e por quem os vareiros continuam a sentir um enorme carinho?

Artista multifacetada

Beatriz dos Santos Campos nasceu em Ovar em 14 de Outubro de 1915, na Rua Alexandre Herculano, 181, na casa que pertenceu aos seus avós maternos António Basílio dos Santos e Rosa Lopes Santos.
Em 1918, com apenas três anos de idade, foi viver para Algés. Na capital teve aulas com o Mestre João Saavedra Machado (desenhador de Anatomia da Escola Médica de Lisboa), com Raquel Roque Gameiro (filha do célebre aguarelista Roque Gameiro, e única senhora com Medalha de Honra da Sociedade de Belas Artes), e com o escultor Simões de Almeida “Sobrinho”.
Depois de ter apreendido todos os ensinamentos ministrados por estes consagrados mestres, tornou-se a Artista que todos os ovarenses passaram a admirar, já que pintava a aguarela como ninguém, desenhava, esculpia, e ainda conhecia os segredos do barro.

A sua iniciação como ceramista deveu-se ao convite feito por Eduardo Leite, da Fábrica Viúva Lamego, de Lisboa, e parte da sua obra em cerâmica pode ser vista em alguns edifícios da cidade de Ovar: no átrio da Câmara Municipal (painel inaugurado em 28 de Dezembro de 1952, aquando das Festas Centenárias),no actual edifício do quartel dos Bombeiros Voluntários de Ovar, na Cercivar, na Escola e no Centro de Promoção Social do Furadouro.
Em 25 de Maio de 1985, foi apresentada no Salão Nobre da Câmara Municipal de Ovar a “Retrospectiva de Beatriz Campos”, promovida pela Fundação Pepolim para comemorar os 50 anos da sua vida artística. Ali foram expostas cerca de 300 peças, entre as quais figurava a bela escultura de S. Cristóvão, padroeiro de Ovar.

A artista casou, em 1951, com António Coentro de Pinho, então Presidente da Câmara Municipal de Ovar (1946/1954), e fundador do jornal “Notícias de Ovar” (16 de Setembro de 1948).
Beatriz dos Santos Campos Coentro de Pinho deixa duas filhas: Ana Maria e Maria Beatriz Coentro de Pinho.
Após o falecimento de seu marido em 5 de Junho de 1994 (aos 96 anos), D. Beatriz Campos assumiu a direcção deste semanário ovarense, que viria a extinguir-se em 28 de Dezembro de 2000.

[Na foto da esquerda: registo em azulejo na Gare da Estação de Ovar. Sobre a história destes azulejos leia AQUI].



Recordando uma visita ao “Ninho”

Nos primeiros anos deste século tive o privilégio de acompanhar o Padre Manuel Pires Bastos a casa de D. Beatriz Campos. Numa dessas visitas ao “Ninho”, como era conhecido o seu Lar, fomos encontrar a artista a trabalhar. Pintava um pequeno quadro com uma figura feminina. Enquanto admirávamos aquela obra inacabada, mas já repleta de luz e de vida, falou-nos de si, da sua paixão pela Arte, de seu pai, Francisco de Sousa Campos.
Ao fazer, na hora, a próxima cor que desejava passar para a tela, confessou-nos: – Devo o meu talento ao meu pai. Ele também desenhava e pintava a aguarela. Foi, na verdade, o meu primeiro mestre. Devido a uma doença grave, teve de ficar em casa e, como possuía o curso de desenho industrial, ensinou-me Geometria e a técnica da tinta-da-china.


Um dia ainda hei-de fazer uma exposição com os seus trabalhos, para que as pessoas da nossa terra possam apreciar o que lhes vou mostrar”. Entretanto, depois de ter abandonado, por instantes, a sala onde estávamos a ter aquela deliciosa conversa, apareceu, sorridente, com uma das obras feitas pelo seu progenitor.
Ficámos impressionados com tanta qualidade artística. Tinha, realmente, inclinação para as Artes.
Não fomos embora de sua casa sem antes vermos as suas flores. Tratava-as com muito carinho, não estivessem as suas mãos habituadas a criar maravilhas.


Ter entrado no “Ninho”, onde se respirava a poesia própria da paleta dos pintores, foi para mim, algo de mágico.
Guardo estas e outras pequenas notas dessa visita junto com um poema de sua autoria, que teve a amabilidade de me oferecer na altura, com uma dedicatória. Partilho com o leitor esses versos natalícios, para que possa sentir o perfume e o aconchego das palavras de uma mulher que, para além de ser uma grande senhora no mundo das Artes, foi mãe e avó.

Neste Natal

Neste NATAL
um Casalinho
vai alegrar
mais, o nosso Lar!
É que o “Ninho”
tem o condão,
que Deus lhe deu,
de ser guardião
do Patriarca
e duma arca,
ainda mais antiga,
que é o repositório
dum passado:
Cartas de amor,
– quem as escreve agora!? –,
e outras contando vidas
de quem as escreveu.
Vestidos de noivado
de três gerações.
De baptizado
e de comunhões.
Uma touca que, hoje,
parece de boneca!
Fitas, lacinhos
e uns sapatinhos!
Um raminho de alfazema,
um boquet de flor de laranjeira
e de que maneira
ainda perfumado!
Um véu de tule, uma grinalda,
e muitas coisas mais
que não vou contar!....
Fazem a História duma Família
que a Mariana e o Diogo,
por certo, irão continuar,
num outro Natal!

Beatriz Campos


Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Julho de 2009)

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Algumas notícias sobre a artista
Beatriz Campos expôs no Porto

Beatriz Campos, a Artista que sorve, como ninguém, a secreta magia das cores da sua (e nossa) terra, uma vez mais deixou Ovar (e o seu "Ninho") para ir, carregada de ria, levar  ao longe notícias do nosso sol, da nossa neblina, dos tons verdes e amarelos da paisagem vareira, constantemente renovada porque constantemente em festa.Como sempre, muitos foram beber, por uns instantes, essa maravilhosa festa que em Ovar a Natureza esbanja todos os dias, todas as horas, numa dádiva permanente, e que a Artista aprisiona, através de fios de oiro, nas sedutoras teias (telas) que o seu pincel teceu.


Festa-dádiva que não merecemos, os profanos da Arte. Mas jubilosamente recebida pelos Pintores, que a sublimam em golpes de génio, e a refazem, quente e apetecível, nas tintas dos seus quadros, feitos pão para o espírito. Assim Beatriz Campos. No Porto, agora. Para mostrar Ovar, a Ria. A nossa terra, o nosso céu. E outros céus e outras terras também nossos. E a beleza-mistério de naturezas mortas. E as três dimensões artísticas das suas cerâmicas decorativas.
Valeu a pena ver. Para aprender, lá, o que não sabemos ver aqui.

P. B.
("João Semana" - 1 de Novembro de 1979)


Beatriz Campos expôs no Porto

Como noticiámos, Beatriz Campos expôs no Porto. Um acontecimento já repetido. E um novo êxito, que a imprensa diária realçou.
Ocasião foi esta para levar, uma vez mais, a nossa Ria à grande cidade, onde minguavam os espaços de calma e onde não moram as paisagens paradisíacas que nós temos aqui.Os pincéis de Beatriz Campos têm o condão de captar, na sua origem, pedaços desse éden terreal que nós mesmos não apreciamos quanto deveríamos, e de os transportar, na tela, até onde houver olhos sedentos de coisas belas.
Mas não só a ria. Também o mar e o Furadouro estiveram patentes na galeria de Arte de "O Primeiro de Janeiro". E não só Ovar.  Também Sintra ou Fátima, também outras terras e outras gentes mereceram a honra de uma tela.Mas Beatriz também constrói Arte em barro fino, dominando-o, modelando-o em formas muito suas, com mãos de fada.
A Cerâmica desta Artista já adquiriu, dizem-no os meios mais exigente, o selo da qualidade. E a sua inspiração vai-a buscar a motivos os mais diversos, desde as flores e os animais até à expressão mais perfeita do ser humano - a Santidade. Vimos e apreciamos tudo isto.
E lembramos aqui as lindas e originais imagens da Virgem, de Santo António e de São Cristóvão, o Padroeiro de Ovar.
Com esta última peça terá querido a Artista homenagear a sua própria terra, que muito saiu prestigiada desta Exposição.

P. B.
("João Semana" - 1 de Janeiro de 1983)


Homenagem a Beatriz Campos


De 15 a 28 de Maio de 1999, e por iniciativa do Município, vai estar patente na Biblioteca Municipal de Ovar uma Exposição Colectiva de Pintura em homenagem a Beatriz Campos, com a presença de Artistas consagrados, como António Joaquim, Agostinho Santos, Ana Estrela, Delfina Carmen, Helena Abreu, Jaime Ferreira, José Mendonça, Liseta Amaral, Luís Alberto, Maria Antónia Porto, Maria del Carmen Valenzuela, Maria Luísa e Paulo Vilas Boas.

("João Semana", 15 de Maio de 1999)


BEATRIZ CAMPOS
Exposições individuais:

Casino da Figueira da Foz (1949); Sociedade Nacional de Belas Artes -Lisboa (1947, 1958 e 1965); Livraria Portugália - Porto (1949); Junta de Turismo de Cascais (1948, 1949 e 1950); Salão F. Ramada -Ovar (1958); Museu de Ovar (1965 e 1976); Ateneu Comercial do Porto (1955 e 1966); Salão de "O Primeiro de Janeiro" - Porto (1975, 1977, 1979 e 1982); Salão de "O Primeiro de Janeiro"- Coimbra (1976); Centro Paroquial de S.João da Madeira (1976); Galeria Capitel - Leiria (1978); Elizabeth New Jersey - EUA (1981); 100 anos de Artes Plásticas - Aveiro (1982); Casa Municipal da Cultura de Estarreja (1982 e 1985); Rotary Clube de S. João da Madeira (1988); Crecor - Cortegaça (1988); Retrospectiva Fundação Pepolim, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Ovar (1985);Galeria Nazareth's - Porto (1990); Galeria S. Cristóvão de Ovar - A convite da C.M. de Ovar (1990 e 1995); Galeria Municipal de Aveiro - 1996.

Exposições colectivas:

Raquel Gameiro e suas discípulas - Lisboa ( 1939 e 1946); Secretariado de Informação, 1.º Salão de Cerâmica (1947); Casino do Estoril (6.º,7.º,10.º,13.º e 14.º Salão); Imagem da Flor - Lisboa (3.º e 6.º Salão); 4.º e 5.º Salão Provincial de Viseu; 1.º e 2.ºSalão GAV - Ovar - Motivos vareiros; Sociedade Nacional Belas Artes de Lisboa; Salão de Inverno (1939 a 1944, 1949, 1954, 1957 e 1958); Salão Primavera (1945, 1946 e 1948); Exposição Permanente (1942); Exposição de Artes Plásticas (1942); Grupo de Aguarelistas (1949, 1950,1953, 1954, 1956 a 1958); Salão de Outono, Casino de Estoril (1973); Centenário do Caminho de Ferro, Porto (1975); Salão de Outono, Casino do Estoril (1981 a 1983).


Beatriz Campos discursando
numa das muitas exposições que realizou

Prémios:

Menção Honrosa, terceira e duas segundas medalhas (desenho e aguarela), pela Sociedade Nacional de Belas Artes de Lisboa. Medalha de Prata, Salão Outono do Casino do Estoril (1973); Medalha de Comparticipação, Centenário de Caminho de Ferro, Porto (1975); Medalha da Casa Municipal da Cultura de Estarreja (1985); Medalha de Prata Mérito Municipal da C.M. de Ovar (1985); Medalha de Ouro, Bombeiros Voluntários de Ovar; Medalha de Prata da Liga dos Bombeiros Portugueses.

Representada:

Museu de Ovar; Câmara Municipal de Ovar; Centro Social do Furadouro; Centro Paroquial de Ovar; Cercivar; Bombeiros; Empresa Sicor; Colecção Snydan; Culting, Nova Iorque, Museu da Figueira da Foz, Museu Municipal de Vila Real de Santo António, Câmara Municipal de Lisboa, Fundação António Carvalho, Sarah Beirão, de Tábua; Centro Social dos Caminhos de Ferro, Vila Nova de Gaia; Fundação Pepolim, Ovar; Governo Civil do Porto e em diversas colecções particulares de Portugal, Brasil, Inglaterra, Suécia, Espanha, França, EUA, Nassau, Suíça e Canadá.

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