1.12.09

Clara d’Ovar - Breve nota biográfica

Jornal JOÃO SEMANA (15/11/2002)
TEXTO: Manuel Bernardo

Leolina Clara Gomes Dias Simões, filha de Manuel Dias Simões e de Margarida Ferreira Soares Gomes Dias Simões, nasceu em Ovar (na Rua Padre Ferrer, n.º 1) a 4 de Novembro de 1925, e residiu, durante a sua infância, na Quinta que a sua família possuía no lugar de S. Miguel.
Depois de ter realizado estudos primários e secundários (frequentando colégios em Anadia, Aveiro e Porto), ingressou na Escola do Magistério Primário do Porto, onde chegou a frequentar o 2.º ano.
Não se sentindo minimamente atraída pela carreira de professora primária, abandonou (aos 19 anos) os estudos e foi viver para Lisboa, onde experimentou várias ocupações temporárias, até se tornar secretária/correspondente de francês e português na empresa Inter-Maritime et Fluvial et Centrados Reúnis.
A carreira de secretariado/correspondente levou-a até Paris, e da “cidade-luz” para Locarno, na suíça “italiana”, onde se empregou como correspondente de português numa grande fábrica de acessórios para relógios.

Clara d'Ovar
Dois anos depois, Clara Dias Simões regressaria a Portugal para uma curta estada (19 meses), residindo em Lisboa e no Porto, locais em que participou em vários programas de rádio.
O casamento com o cônsul da Suíça em Luanda (Rolland Pièrre) levou-a ao continente africano, onde permaneceu pouco mais de um ano.
De regresso à Europa, radicou-se em Paris, onde abriu um pequeno restaurante – “Le Fado: Uma Casa Portuguesa” –, por onde passaram vários profissionais da nossa canção (Rui de Mascarenhas, Maria Albertina, Madalena Iglésias…).
Na capital francesa, onde passou a ser conhecida por Clara d’Ovar, casou com Peter Oser Rockfeller e teve a ocasião de travar conhecimento com muitas pessoas ligadas ao meio cinematográfico gaulês. Foi este convívio que estimulou Peter Oser e Clara d’Ovar a proporem a Pièrre Kast a realização da película “Merci Natercia”, idealizada pelos dois e que não foi bem sucedida, não chegando a ser distribuída em França. (Apenas uma remontagem, efectuada por Clara d’Ovar, fez carreira no Brasil).
Após o malogro de “Merci Natercia”, Clara d’Ovar foi a actriz principal nos filmes “La Barque Sur l’Ocean” (1960), de Maurice Clavel, e “Cartas da Religiosa Portuguesa” (1960), de António Lopes Ribeiro.

Filmes com participação de Clara d’Ovar

Clara d'Ovar
1959 - “Merci Natercia”; “Uma Portuguesa em Paris”, de Pierre Kast.
1960 - “La Barque Sur l’Ocean”, de Maurice Clavel; “Cartas da Religiosa Portuguesa”, de António Lopes Ribeiro.
1961 - “La Morte-Saison dês Amours”, de Pierre Kast
1962 - “Je ne Suis Plus d’Ici”, de Bernard Vicki (curta-metragem filmada numa aldeia próxima de Ovar).
1963 - “Vacances Portugaises”, “Os Sorrisos do Destino”, de Pièrre Kast; “PXO”, de Pièrre Kast, Jacques Doniol-Valcroze e António Vilela; “Le Pas de Troix”, de Alain Bornet.
1964 - “O Crime da Aldeia Velha”, de Manuel Guimarães.
1965 - “Le Grain de Sable” (O Triângulo Circular), de Pierre Kast; “La Brûlure de Mille Soleils”, de Pièrre Kast.
1980 - “Le Soleil en Face”, de Pièrre Kast

Obras literárias de Clara d’Ovar
1956 - “Um Mundo Paralelo”
1957 - “Poesias da Juventude”
1958 - “As Areias Movediças”, “Poesias do Vento”
1994 - “Caminhando pela Vida”
1997 - “Miriam – Uma Tão Longa Estrada”
1998 - “Odisseia de uma Garrafa Azul – Memórias de Esquecimentos”
1999 - “D. Juan Quixote de Saia de Folhos”
2000 - “O Homem que corria atrás dos Sonhos”
2002 - “O voo das Palavras”


A CLARA
TEXTO: Edwiges Helena Pacheco

Quando eu andava a tirar o curso Superior de Canto, havia uma canção que, acima das outras, me encantava. Chamava-se (e chama-se) “Morgen” (Manhã) e é da autoria do grande Richard Strauss. A letra é um cântico de ternura, quase um lamento. Foi essa canção que mais uma vez me comoveu quando a Clara se foi embora. Esta partiu de manhã cedinho, como era seu hábito.
Que teria sentido quando adormeceu para sempre? Saudade? Tristeza? Alívio? Curiosidade? Alegria? Eu sei lá! Duma coisa eu tenho a certeza: se a alma se separa deste invólucro que não é mais do que um monte de ossos e músculos, para onde é que ela foi? Adivinho: voou, olhando, curiosa, a imensidão. Passou, rasando as águas, pelo seu Furadouro, aos primeiros raios de Sol. E foi-se com as andorinhas e com as gaivotas.
Lembrou-se da sua infância, de tudo.
Cansada, estendeu-se numa nuvem que o sol coloria em tons de vermelho claro, e sorriu. Enfim, era livre. Livre! Podia cantar, rir, gritar, dançar, tudo!
A noite chegou. E no céu brilhou mais uma estrela. Diferente.
Tinha de ser diferente: era ela.


CLARA D'OVAR - Uma referência cultural
TEXTO: Manuel Alves de Oliveira

Não tive o privilégio de conhecer pessoalmente Clara d’Ovar. E devo confessar não ter feito uma análise aprofundada da sua obra (não porque a não mereça, mas por limitações que são só minhas). No entanto, do pouco que resultou de um olhar apressado e apreciação sobre a vida e obra desta figura ilustre de Ovar, há aspectos que julgo merecedores de algum relevo.
Assumindo um pouco o estatuto de “cidadã do mundo” - Aveiro, Anadia, Porto, Lisboa, Paris, Locarno, Luanda, Brasil, foram alguns lugares das suas vivências -, nem por isso deixou de, inclusive no seu nome, manter a ligação à cidade e às pessoas de Ovar, ou, como ela própria refere, “a estas areias movediças onde os pés reconheceram o perigo mas lançaram raízes”.
Actriz, produtora, cantora, assistente de realização, escritora, Clara d’Ovar é bem o exemplo de uma vida que foi dedicada à cultura e às artes. Provam-no os filmes de curta e longa-metragem que resultaram do seu trabalho e dedicação, ou as muitas obras que publicou e das quais alguns exemplares constam (graças à sua gentileza) do património bibliográfico da Biblioteca Municipal de Ovar.
Respeitar e valorizar as raízes e a identidade nem sempre são atitude publicamente assumida. Mas Clara d’Ovar, mesmo contactando e convivendo de perto com outras realidades e “outros mundos”, soube fazê-lo. Como soube colocar a sua energia e vitalidade ao serviço da criatividade, da cultura, das letras e das artes.
Mas não será preciso para reconhecermos o quanto representou (e representa) para o país, para a cidade e concelho de Ovar, constituindo uma referência cultural que deve permanecer e persistir na nossa memória colectiva.

 “Só me conheceram quando casei com um Rockfeller!” (in revista "Plateia") 

Do pai, Manuel Dias Simões, falecido aos 30 anos, e também dos avós paternos, herdou o gosto pelas artes. Da mãe, Margarida Ferreira Soares Dias Simões, de uma família de proprietários, com rendeiros, ficou-lhe a ligação fácil às coisas, a lembrança de qualidades morais.
Cedo deixou Ovar para frequentar os colégios de Anadia e do Porto. Fez o Magistério Primário, mas não frequentou o estágio, “porque não gostava do ensino violento com palmatoadas, como era costume”.
- Sem falsa modéstia, eu era então mesmo muito bonita. Fui para Lisboa trabalhar em publicidade. E a convite dessa firma fui, depois, trabalhar para Paris.
Foi nos anos 50 que emigrou, insatisfeita com o Portugal da época.
- Eu era irreverente porque não contemporizava com coisas com que não estivesse de acordo: a censura, a dificuldade em fazer carreira por mérito próprio, sem padrinhos ou concessões à política do regime.
Uma noite, em Paris, numa brincadeira de amigos, começou a cantar o fado numa boite que, mais tarde, viria a comprar.
Foi outra viragem na vida: por lá passaram realizadores, gente ligada ao cinema, às artes.
- Foi assim que me conheceram! Fui actriz, dialoguista, assistente de realização e produtora!
… O meu restaurante de fados tornou-se um pólo de convívio...
Aos artistas bolseiros que iam de Portugal era muito difícil a sobrevivência: comer, pagar alojamento e os estudos.


Pintar com a agulha
TEXTO: Maria Luísa Resende (Revista "Reis" 1997)


O seu hobby de há uns doze anos é a Tapeçaria.
- Uma vez, um jornalista desafiou-me a fazer uma exposição no “Diário de Notícias”, no Chiado. Dela, a crítica disse que eu pintava com a agulha. Foi um bom estímulo!
Não desenha os motivos. Pega na agulha e as coisas vão surgindo com lãs, vidros, pedrinhas, sementes, metais, bilros. Gostava de bordar ao correr da agulha.
Conhecemos melhor uma mulher que se declara apaixonada por tudo. Que assume gostar da vida; das árvores, dos perfumes, do mar, da areia, e de realizar coisas, porque não sabe estar desocupada.
A mim, fez-me pensar num rio, ao fluir para o Oceano, que se vai realizando com a superação das asperezas do próprio percurso.
Ela, que não tem culto por épocas nem por algo, a não ser por ideias que valham e a que a fazem mover, revela-se, afinal, uma artista multifacetada, uma Mulher que talhou a sua sorte com a coragem de viver o dia a dia, ano a ano, sem projectos a longo prazo. (…)”


CLARA D'OVAR


Clara!
Menina prendada,
Jovem mimada
De Ovar.

Clara!
Mulher ardente,
Vaga fremente
De mar.

Na tua saga,
De artista e maga,
Quebraste grilhões,
Tabus, convenções.


Foi luta o teu fado,
Gemido e suado.
Na teia da vida
Não foste vencida.


Clara!
Livro que fala,
Voz que não cala
A raiz.


Clara!
Teu rosto na tela
Seduz e interpela
Paris.

Clara!
Teu doce nome
Não se consome,
Porque é chama
A tua fama.

Clara!
Sopro divino
Fez teu destino:
Vareira no berço,
Mulher… no Universo.

Mulher singular…
Clara d’Ovar!


Manuel Pires Bastos
(A memória da escritora, falecida em 30/06/2002)


Artigos publicados no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Novembro de 2002)

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Homenagem a Clara d’Ovar

O jornal “João Semana” dedica a Clara d’Ovar algumas das suas páginas desta edição (suplemento págs. I a IV), numa homenagem merecida, poucos dias depois do aniversário do seu nascimento (4/11/1925), e quatro meses e meio após a sua morte (30/6/2002).

Durante a sessão de homenagem a Clara d'Ovar, no Salão Paroquial de S. João de Ovar. Da esq. para direita:
Padre Bastos, D. Edwiges Pacheco, Dr. Calheiros, Dr. Alves de Oliveira e Manuel Bernardo
Mas não se fica, a homenagem, por esta colaboração jornalística. Quis o jornal, em sintonia com a Câmara Municipal de Ovar e a Academia de Artes Maria Amélia Simões, honrar a sua memória através de uma sessão cultural, quase íntima, mas significativa de quanto a comunidade vareira deve a esta mulher invulgar que aliou o nome da sua terra ao seu nome, transportando-o e propagando-o por largos horizontes das artes e dos continentes . A sessão, com início às 21 horas no Salão Paroquial de S. João de Ovar, é constituída pelo seguinte programa:

I Parte
- Apresentação
- Coral da Academia de Artes Maria Amélia Dias Simões
- A Obra Literária de Clara d’Ovar, pelo Professor Doutor Pedro Calheiros
- Recital de Poema

II Parte
- Grupo Coral Infantil e Juvenil S. Cristóvão de Ovar
- Clara d’Ovar – Bocados de Vida, pelo Dr. Manuel Bernardo
- Coral Canto X
- Encerramento

Na edição de 15 de Novembro de 2002, o jornal “João Semana” ofereceu uma reprodução, a cores, do desenho original do rosto de Clara d’Ovar, pintado pelo Artista João Caetano (ver imagem que encima este "post").

Clara "de volta" a S. Miguel


Busto de Clara d’Ovar no Largo 1.º de Dezembro (S. Miguel), perto da casa onde esta ilustre vareira viveu durante a sua infância. Esta iniciativa deve-se ao Hipermercado Modelo de Ovar.
O nome de Clara d’Ovar também não está esquecido em Paris, cidade onde fez carreira artística (fado e Cinema).
O actual Embaixador de Portugal em França, Francisco Seixas da Costa, acaba de publicar no seu blogue “Duas ou três coisas” um "link" (uma ligação) para o nosso site “Artigos do jornal João Semana”, depois de ter feito um apelo aos seus leitores em 23 de Março último. Leia mais AQUI.

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