22.10.09

Pereira de Susã e Pereira Jusã

Jornal JOÃO SEMANA (01/11/1998)
TEXTO: A. de Almeida Fernandes

Mais que desagradável, foi-me sempre ingrato pronunciar-me acerca de problemas respeitantes a localidades que eu não conheça directamente. Tal o caso enunciado, que me foi posto para isso, e já há muito, por dois bons amigos, a quem peço desculpa para a tardança, que fica explicada.


Sítio da antiga Igreja de S. Vicente de Pereira, próximo da Igreja actual
(séc. XVIII), no antigo lugar de Pereira de Susã
Pereira é nome de um lugar da freguesia de Válega, e Pereira Jusã o nome da freguesia cuja igreja fica uns bons quilómetros a nordeste daquele: como explicá-los, sendo que Pereira, que foi vila, na freguesia de Válega, aparece – e não há muito sucedia – como “Pereira Jusã” também, tal a freguesia de S. Vicente, vizinha?
Trata-se de caso frequente: toda aquela área constituía, outrora – há milénio, e mais –, uma “villa” só, no sentido territorial-agrário (e não vila na acepção municipal, categoria que teve Pereira, de Válega, e não S. Vicente de Pereira Jusã). Quando se erigiram as duas freguesias referidas, parte da “villa” ficou numa, e parte na outra – coisa, repito, frequente [1]. Monsenhor Miguel de Oliveira viu isso já, e, portanto, bem, embora o não esclareça, por “villa” repartida paroquialmente, na origem [2]. Este aspecto da questão fica solucionado, clara e facilmente…
O outro aspecto é a designação Pereira Jusã para a freguesia de S. Vicente, sendo Pereira Jusã a vila extinta, na freguesia de Válega. Julgo que não oferece problema de maior: uma apropriação do nome da dita vila, muito auxiliada pela ignorância em que aí se caiu do sentido de “Jusã”, que significava “de baixo”. Ora, a actual Pereira Jusã fica “de cima”, o que denuncia o facto; e até o esclarece segundo acabo de dizer, o que é também frequente [3]. Realmente, a incongruência é muito expressiva – e mais: nenhum autor, nem sequer Mons. Miguel de Oliveira, se refere ao facto de a freguesia de Pereira Jusã actual aparecer, nas inquirições de D. Dinis de 1288 e nas suas sentenças de 1290, como Pereira Susã (melhor, Pereira de Susã), isto é, de cima, pois Jusã é relativo a Pereira da freguesia de Válega, que está abaixo e foi, pois, a legítima Pereira Jusã (Pereira de Jusã) [4].

Câmara e Cadeia (à esq.), Pelourinho e Capela de S. Sebastião,
do extinto concelho de Pereira Jusã (Válega)
Registo, portanto, que hoje Pereira Jusã, na freguesia de S. Vicente actual, só pode explicar-se por apropriação, como em vários casos no País, embora já antiga, mas posteriormente ao século XIII – XIV. Fica até melhor opinião.
Outro aspecto muito interessante é o concernente ao termo da vila de Pereira, em Válega, o qual abrangia os núcleos actuais de Guilhovai (antigo Guillivar), na freguesia de Ovar, Bustelo, na freguesia de Válega, Cácemes, na freguesia de S. Vicente de Pereira Jusã, e o couto e freguesia de Cortegaça (do concelho de Ovar); mas este assunto, com outros igualmente interessantes, não me foi submetido à apreciação possível, motivo por que não lhe toco.

Capela e Quinta de N.ª Sr.ª da Conceição, em Pereira Jusã (Válega)

Notas:
[1] Na minha freguesia natal, por exemplo (a qual é pequena), nada menos de três lugares estavam nessas condições, isto é, repartidas por duas paróquias e, o que é mais, até por duas circunscrições administrativas medievais (“terras”), diferentes. Ver o meu livro “A História de Britiande” (1997), págs. 76-77, 80-81,85-87, 120-123. E, ainda hoje, sucede lá isso: lugares repartidos por duas freguesias.
[2] Cf. O seu livro “Válega” (1981), págs. 110 – 151.
[3] Assim, Vila Nova de Gaia, na freguesia da Feitosa, e Ponte de Lima, era, de início, só Gaia (de Acaia, no foral de 1125 daquela vila); assim a Vila Cova à Coelheira, no concelho de Seia, com influência de igual designação da freguesia do concelho de Vila Nova do Paiva (esta com a única e documentada Coelheira). À freguesia de Pampilhosa do Botão, concelho de Mealhada, ouvi eu chamar Pampilhosa da Serra há muitos anos, por confusão com esta (no distrito de Coimbra, e vila).
[4] C.f. T. do Tombo, “Inquirições de D. Dinis”, L. 4, fls. 4v.º-5, e “Inquirições da Beira”, fls. 13,v.º-14.


Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de Novembro de 1998)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2009/10/pereira-de-susa-e-pereira-jusa.html

ADENDA --------------------------------------

A tempo: Acabo de receber fotocópias de artigos de Mons. Miguel de Oliveira (“Qual é o nome exacto da freguesia de S. Vicente”, em “Notícias de Ovar”, n.º especial, 1952), e do P.e Dr. Manuel Pires Bastos (“Um delito toponímico”, em “João Semana” 1/5/1981, e “S. Vicente de Pereira sim, S. Vicente de Pereira Jusã, não!” em “João Semana” de 1/6/1981 e 15/7/1981), nos quais o problema do nome da freguesia de S. Vicente já está resolvido – e segundo aquilo que, no meu texto, expus.
De facto, S. Vicente Pereira Jusã é um absurdo, histórico e topográfico: é “de cima (Susã, como na designação antiga), e, pois, só S. Vicente de Pereira. Se se quiser epitetar, então ponha-se “Pereira Susã” naquela designação.
Nada fiz de original, porque, repito, o caso já estava resolvido.
Devo, porém, notar que o epíteto, errado, “Jusã” já ocorre à roda de 1950, na "Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira" (s.vv. Ovar e Pereira), e no mapa(s.v. Ovar).
Urge, pois, desfazer o engano. O que o meu artigo, agora, significa é, repito, a conformidade com os artigos agora recebidos. A. A. F.

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