6.10.09

Os Ferreira Meneres de Ovar (pai e filho) – Irmãos Terceiros da Ordem da Trindade (Porto)

Jornal João Semana (1/10/2009)

TEXTO: Manuel Pires Bastos

Decorridos sete anos sobre a publicação, neste jornal, do texto “Família Meneres de Ovar” (“João Semana”, 1/10/2002), e sabendo do interesse que este assunto vem despertando não só entre a família mas até entre os genealogistas, entendemos acrescentar a esse trabalho alguns elementos extraídos dos assentos paroquiais e algumas particularidades relativas aos dois principais biografados, nomeadamente a sua participação activa e benemerente na Ordem da Santíssima Trindade, no Porto1.

Casamento de Bernardo Ferreira com Joana de Oliveira (16/05/1772)

“Aos dezasseis dias do mês de Maio de mil settecentos e settenta e dois anos, de manha, nesta parochial Igreja de S. Cristóvão de Ovar, feitas primeiro nella as três Canonicas denunciações Matrimoniays na forma do Sagrado Concilio Tridentino, e Constituições do Bispado sem resultar impedimento algum canonico mais do que parentesco em terceiro e quarto grao por duas vias, de que se mostrarao dispensados por Sentença do Juizo, de que foi Escrivão Domingos Mendes de Carvalho. Declarão in facie Ecclesiae por palavras de presente na presença do Reverendo Vigario e das testemunhas infra [assinadas], os contrahentes Bernardo Ferreira filho legítimo de Domingos Ferreira e de sua mulher Theresa Ferreira da Rua dos Ferradores, netto paterno de Manuel Ferreira e de Francisca de Oliveira, e matterno de João de Oliveira e de Esperança Ferreira todos da mesma rua dos ferradores da Ruella, e Joanna de Oliveira, filha legítima de Dionisio de Oliveira e de Rosa de Oliveira, da Rua do Pinheiro, neta paterna de Manoel Oliveira e de sua mulher Maria Pinho da mesma Rua do Pinheiro, e materna de José Rodrigues e de sua mulher Maria de Oliveira da Rua dos Ferradores da Ruella, e lhe deu as bençãos nupciais na forma do Rittual Romano. Por ser verdade se fez este termo, que assigno com as testemunhas infra.

João Bernardino Leite de Sousa (Pároco)
Manuel Dias Rebelo
Francisco Joaquim Gomes

Em Arq. Distrital Aveiro
Ovar C80 f.ªs 53 e 53 v.º.
Assento de Casamento de Francisco Ferreira Meneres com Ana de Oliveira.
(O nome Meneres não consta neste assento assim como no de seus pais e avós,
aparecendo, no entanto, no assento de baptismo de seu filho).
António Ferreira Meneres/pai (1808-1860) – Irmão e Benemérito da Ordem da Trindade

Nascido em Ovar, na Rua do Pinheiro da Ruela (hoje R. Licínio de Carvalho), em 12/08/1808, António Ferreira Meneres é filho de Francisco Ferreira Meneres e de Ana de Oliveira2.Nem os avós paternos, Bernardo Ferreira e Joana de Oliveira, residentes no entroncamento da Rua do Seixal (actual Rodrigues de Freitas) com a Rua dos dos Ferradores (actual Visconde de Ovar, ao fundo da Arruela), nem os maternos, Manuel de Oliveira Luzes e Antónia de Oliveira, da mesma Rua do Pinheiro, todos da zona nascente de Ovar, indiciam o antropónimo Meneres, que viria a enobrecer a família.

António Ferreira Meneres casou em Ovar, a 23 de Novembro de 1825, com Maria de Jesus (no óbito e no túmulo consta como Maria de Oliveira Lírio), filha de Francisco Pereira dos Santos e de Antónia de Oliveira, da Rua das Figueiras (actual R. Dr. José Falcão), neta paterna de outro Francisco Pereira dos Santos e de Arcângela Pinto, e materna de João de Oliveira Vinagre e de Maria de Oliveira, todos da mesma rua, a poente da então vila de Ovar.
Negociante de vinhos na cidade do Porto, ali fundou, na Praça da Ribeira, em 1845, a empresa com o seu nome3, alistando-se como Irmão Terceiro na Ordem da Trindade, e contribuindo, ao lado de milhares de Irmãos de todos os estratos sociais da cidade, para a conclusão da respectiva Igreja e dos seus anexos – Hospital e Liceu –, obras que haviam sido iniciadas em 1803, e que terminaram em finais do século, estando pronto o corpo principal da Igreja na década de 50, época em que a sua acção se tornou mais saliente.

“O N(osso) I(rmão) ex-Thesoureiro António Ferreira Meneres
dotou esta Celestial Ordem Terceira com riquíssimas alfaias.
Falleceu em 21 de Abril de 1860”
Em 29 de Junho de 1852, sendo Irmão Mesário, ofereceu um novo altar para a sala dos convalescentes, “para nelle se erigirem as imagens do Andor da SS.ma Trindade”4, e em 1856, já Mestre de Noviços, na gerência do Prior José António de Sousa Basto (Visconde da Trindade), ofereceu “uma valiosíssima chave do sacrário” feita “em ouro de moeda”, com laço “de lhama de prata bordado a ouro”5.
A Mesa da instituição dedicou-lhe, então, um retrato a óleo com dedicatória a que, quatro anos depois, seria acrescentada a data do seu falecimento (ver foto do quadro de 1856).
Formada, em 3/12/1856, uma comissão para angariar fundos para um valioso jogo de paramentos brancos (no valor de 5.471$00) para serem usados “nos dias clássicos da Ordem”, António Ferreira Meneres foi nomeado seu vice-presidente, exercendo ainda essa função quando do seu falecimento em 2/4/1860.
Possuindo “a grandeza de alma e as sólidas virtudes de verdadeiro cristão”, fez benemerências a outras instituições religiosas, nomeadamente às paróquias de S. Nicolau (Porto) e de Ovar. A esta ofereceu um guarda-vento e o monumental presépio confeccionado no Porto, nas oficinas de José Joaquim Teixeira Lopes. Contemplou também o Hospital de Ovar e todas as confrarias desta Paróquia, mormente a dos Passos, que o perpetuou numa tela pintada no Porto por J. Alberto Nunes Pinto, em 1861, e que ainda em 1922 estava exposta na Sacristia nascente da Capela do Calvário, encontrando-se hoje na Casa-Museu da Ordem Terceira de S. Francisco (cf. M. Lyrio, “Os Passos de Ovar”, 1922, pág. 58, e “João Semana”, 1/10/2002).


António Ferreira Meneres/filho (1830-1888) – Prior e Benemérito da Ordem

Nascido em Ovar, na Rua das Figueiras (actual Rua Dr. José Falcão), à entrada para a Oliveirinha, em 26/04/1830, António Ferreira Meneres, filho de António Ferreira Meneres e de Maria de Oliveira (Líria), foi, como seu pai, um próspero comerciante de vinhos do Porto.

Cidadão de sólida formação cristã, alistou-se, em 1851, na Ordem da Trindade, de que seu pai já era Irmão, instituição essa em que viria a exercer cargos importantes. (Era seu Definidor em Janeiro de 1861, menos de um ano após a morte de seu pai, quando da visita do Rei D. Pedro V ao Porto e à Ordem da Trindade, onde foi investido como real Protector).
Casou na Igreja de Cedofeita, Porto, em 9/2/1863, com Isabel Maria da Cunha, e um ano depois ofereceu ao Hospital da Trindade um equipamento6 e à Igreja outras importantes dádivas, entre as quais as vestes da imagem titular da Santíssima Trindade7.
Sendo Prior da Ordem (Provedor)8, contribuiu para a compra de um espaço destinado a cemitério privativo em Agramonte9, ultimando, em 1870, como Procurador-Geral, a respectiva documentação, e assinando, em 1872, correspondência relativa ao monumento erigido no mesmo cemitério ao Conde de Ferreira10.
Em 1873 assina, de novo, como Prior, cargo em que, no ano seguinte, é substituído por Francisco Ferreira da Silva Fragateiro11.
No capítulo “Os Retratos” da “História Documental da Ordem da Trindade” (págs. 993-994), António Ferreira Meneres figura em 14.º lugar entre as 16 personalidades ali biografadas e que faziam parte da extensa galeria de beneméritos.
Em 13/01/1875, estando ausente da sala de sessões, foi decidido pela Mesa colocar o seu retrato “entre os mais benfeitores”. Da acta consta a respectiva proposta, aprovada por unanimidade, e que é do seguinte teor:

(…) Os serviços prestados à nossa Ordem por este cavalheiro durante o longo período de 14 annos em que tem exercido succesivamente os cargos de Definidor, Procurador Geral, e ultimamente o de Prior, são taes, que se julga digno de reconhecimento d’esta administração. Fallarei, especialmente, dos que prestou durante o tempo de seu Priorado, tanto na acquisição do terreno para o nosso Cemitério privativo em Agramonte, como nos trabalhos das plantas para o zimbório da nossa Egreja. Para ocorrer às despesas da compra do terreno para o Cemitério, que tantas dificuldades venceu, para a conseguir, concorreu elle tanto para esta como para as obras que ali se teem feito, com a importante acquisição de cerca de cem indivíduos para irmãos d’esta Ordem; e para o das plantas generosamente contribuia com a importante cifra de quatrocentos e cincoenta mil reis (450$00), com que se satisfez ao Engenheiro, José de Macedo Araujo Jr., encarregado d’aquelles trabalhos. A este dispendio mencionarei mais os jornaes que pagou a determinado numero de operarios, que, durante o tempo que exerceu o cargo de Procurador Geral, satisfez por muito tempo na importancia de quatrocentos e tantos mil reis, sem que o offerente permitisse a de-claração do seu nome desta offerta: Por todas estas razões, submeto à consideração da Meza a seguinte PROPOSTA: Que a Meza resolva, que o retrato do digno Prior, seja collocado entre os mais bemfeitores na Secretaria d’esta Ordem.
Porto, Secretaria da Celestial Ordem 3.ª da SS. Trindade, 13 de Janeiro de 1875.
(Assignado) – Ignacio Teixeira Leite e Silva – Secretario. (…).




Igreja e Hospital da Ordem da Trindade

A acta refere ainda que, regressando à sala e aparecendo em continente o retrato collocado no seu lugar (…), o irmão Prior comovido em extremo agradeceu, em termos do maior reconhecimento, e com a modestia que lhe é natural, a prova de consideração que a Meza acabava de lhe dar, prosseguindo a sessão de forma normal, de novo sob a sua presidência12.
Por estas e outras benemerências foi-lhe atribuída a Comenda de N.ª Sr.ª da Conceição de Vila Viçosa e dado o título de Fidalgo Cavaleiro da Casa Real, com carta de Brazão de 20/12/1887.
Faleceu no Porto, na freguesia de Cedofeita, em 15 de Setembro de 188813.
Na Paróquia vareira houve Missa de 7.º dia e responso por sua alma, e na Igreja da Trindade, foram celebradas exéquias solenes por sua alma em 29 de Novembro seguinte, com a presença de familiares, alunos e professores, órfãos, elementos da mesa e outras pessoas, sendo cantado pelas alunas da Escola de Música da Ordem o “Libera me” de António Canedo, estando este maestro ao órgão. Ao centro da Igreja havia um pavilhão com o retrato do falecido, e a inscrição: A António Ferreira Meneres, ex-prior e insigne benfeitor da Ordem Terceira. Foi também colocada uma coroa no seu mausoléu, no cemitério privativo da Ordem14.

Dele afirma o Dr. Xavier Coutinho que “foi um cavalheiro tão caritativo como piedoso”, e que a sua actividade na Ordem “foi realmente excepcional”.
Ovar deve-lhe, tal como a seu pai, algumas benemerências, como o pequeno órgão de tubos existente no Coro da Igreja, construído em 1862 na Inglaterra pelos organeiros reais Bishop & Starr, e aceite pela Junta Paróquia em 13 de Outubro desse mesmo ano. Segundo o Dr. Zagalo dos Santos15, esta oferta tinha como imposição, feita pelo doador, “que a Junta garantisse a nomeação vitalícia do organista que indicasse, e fê-lo na pessoa de seu parente Manuel José de Oliveira Luzes, que morava defronte do Serrado e era pintor de tabuletas para o cemitério.”16.
O órgão de tubos (na foto, na actualidade) foi estreado, no dia seguinte, desconhecendo-se o nome do organista titular.


NOTAS:
1 A Arquiconfraria da Celestial Ordem Terceira da Santíssima Trindade da Redempção dos Cativos da Cidade do Porto sucedeu, em 1755, à 3.ª Ordem Dominicana, extinta nesse ano por Bento XIV. Teve a primeira sede na Capela de N.ª Sr.ª da Vitória, na Batalha, donde passou para a Igreja do Calvário Novo, na actual Cordoaria (1786 – 1804). cf. Coutinho, Bernardo Xavier, História Documentada da Ordem da Trindade, Porto, 1972, 2 volumes.
2 Esta informação fidedigna do assento do Baptismo contradiz a opinião de João Arada e Costa que, no “Notícias de Ovar” de 19/8/1982, em “Lembrando dois beneméritos”, o diz “nascido e criado ali à entrada da Oliveirinha” (próximo da Rua Dr. José Falcão).
3 A Empresa de Vinhos António Ferreira Meneres, cuja gerência se manteve na família até 1945 – durante um século preciso –, ainda hoje se mantém viva e prestigiada, de tal modo que a Casa Meneres e o Porto Meneres se tornaram não só um dos ex-libris da cidade como um notável embaixador dos vinhos do Porto no mundo.
4 Cf. Coutinho, cit. 1.º vol., pág. 589.
5 Livro 3.º das Actas, f.ªs 28 v.º; e Boaventura Silveira, A Ordem Terceira da Trindade e a Sociedade Portuense – séc. XXVII - XX, Porto, págs. 161, 1612.
6 Sessão Camarária do Porto, f.ª 9.
7 Boaventura, pág. 193.
8 O artigo 1.º do capítulo 5.º do Estatuto da Ordem da Trindade aponta que o Prior “será pessoa respeitável, Religiosa e rica”, com “perfeito zelo e disvello pela boa administração dos bens da Ordem, cuidando em que todos os Encarregados della preenchão seus deveres e gozem entre si d’uma perfeita paz e confiança”.
9 Copiador de Ofícios, n.º 3, pág. 12, 13 e 16.
10 Id. N.º 3, pág. 49.
11 Este Francisco Ferreira da Silva Fragateiro, que exerceu esta função durante 5 anos (1874-1879), poderá também ser natural de Ovar.
12 Numa busca que fizemos à galeria de benfeitores, não descobrimos esta tela, prometendo fazer novas diligências para que tal possa acontecer. Em compensação, encontrámos, em depósito, o retrato de seu pai, acima reproduzido.
13 Reg. Civil Porto, n.º 422, 1888.
14 “O Primeiro de Janeiro”, 30/11/1888.
15 Saibam quantos... em “Notícias de Ovar”, 27/3/1952.

16 Cit. Alberto Lamy, Monografia de Ovar, vol. 1, pág. 336, 2001.


Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Outubro de 2009)

Nota: Pode ver referência a António Ferreira Meneres (filho) no texto "OVAR E OS PELASGOS (Um sermão em 1903)"

1 comentário:

leda Nascimento disse...

ola sou brasileira e procuro meu pai que mora em ovar, digitando o nome dele no google descobri que tem uma empresa com seu nome localizado na rua ferreira meneres nº 119c, o nome dele é olivete gomes da siva, gostaria da ajuda de vcs se puderem me ajudar a acha-lo eu ficarei agradecida, ele foi embora quando eu tinha 5 anos hj tenho 30. casa saibam algo en vie para meu email ledanascimento29@hotmail.com...obg e boa noite