31.10.09

Mês das almas

TEXTO: João Arada e Costa

Por referência amável de um amigo, fomos à freguesia da Palhaça, concelho de Oliveira do Bairro, para admirarmos a sua feira bimensal.
Eram pouco mais de seis horas quando lá chegámos.
Pouco depois, procurei indagar a que horas era celebrada a Eucaristia.
– Às 8 horas, diz-me uma anciã, ostentando ainda o chapelinho redondo, de veludo preto. Eram 7,30 quando entrámos na ampla e moderna igreja da Palhaça
[na foto].
Qual o meu espanto quando deparei com o Prior, de sotaina preta, a rezar pelas almas dos seus paroquianos falecidos. Pouco depois, dirigiu-se à sacristia, e apareceu de capa de asperges roxa, e três homens de opas brancas de capuz verde, empunhando cruz alçada e duas lanternas. Dirigiam-se da capela-mor para a entrada do templo. Ali chegados, o Prior recitou, em voz alta, o salmo De Profundis, e o povo acabou com a recitação do Pai-Nosso, a que o Prior acrescentou: Dai-lhes, Senhor, o eterno descanso…Fiquei deveras admirado e pensativo como ainda se praticava este velho costume.
Veio-me, então, à lembrança o nosso antigo Pároco de Ovar, P.e Alberto de Oliveira e Cunha, sentado no artístico cadeiral da nossa igreja, meia hora antes da missa do dia, também a orar pelos paroquianos falecidos. O nosso povo chamava-lhe a recitação da «amenta».
Pelo caminho, de regresso a casa, viam-se, em diversas povoações, as portas das casas juncadas de verdes e de flores, à espera do Compasso, velha tradição ainda vivida em muitas terras de Portugal, a encher de alegria e cor a paisagem citadina.
E a devoção que encontrei na Palhaça trouxe-me à ideia o velho costume de sufragar as almas.


 

A devoção das almas

Era o mês das Almas na nossa igreja, e o povo cantava:
Meus amigos, vós, ao menos,
de nós tende compaixão.
Rogaremos na Glória.
pela vossa salvação! (…)



A Capela das Almas, no Largo dos Campos, há mais de meio século


Existia na igreja a Irmandade das Almas e, mais tarde, em 1817, construíram a sua capela, na antiga lagoa dos Campos.
Em 1911, o seu tesoureiro, João da Silva, o Alminha, entregou, ilicitamente, os seus bens à Misericórdia: Uma cruz processional de prata, um gumil em prata, uma caldeirinha em prata, um cálix em prata, diversas inscrições de renda perpétua, e a sua Capela, com a valiosa imagem do século XV, em pedra ançã, da escola de Coimbra, Nossa Senhora do Bom-Sucesso, ou do Parto, como lhe chamava o povo, e que fora retirada e trazida, a ocultas, da Capela da Torreira, quando esta nos foi arrebatada pela influência do Conselheiro José Luciano de Castro, então deputado pelo Circulo de Estarreja.
Com que autoridade o Alminha entregou estes valores paroquiais à Misericórdia nascente, mesmo que esta se tenha comprometido a celebrar o oficio solene dos Fiéis Defuntos? – tenho-me interrogado muitas vezes…

Havia, nessa época, outra forma popular de devoção às Almas.
Era costume, às quartas-feiras, juntarem-se, pela meia-noite, nas encruzilhadas da nossa terra, três comparsas, devotos das benditas almas. Depois de tocarem uma campainha, cantavam, cadenciadamente e em tom lúgubre:

– «Ó vós todos que estais a dormir, acordai! Lembrai-vos das benditas almas. Um Padre-Nosso e uma Avé Maria!»

A Rosa Patana e outras boas almas

Ainda conheci a ti Rosa Patana, que morava na antiga Travessa das Ribas, hoje António Soares Pinto. Tenho e guardo, com amor, a sua fotografia.
Era uma fervorosa devota das Almas do Purgatório.
Dádiva ou favor concedido, tinha de ser retribuído com um «seja pelas benditas almas!»
Ao domingo e dias santificados, era assídua à missa de Santo António. Quando o celebrante pronunciava: «Memento, Domine» (Lembrai-vos, Senhor, dos vossos servos), ti Rosa Patana levantava-se e dizia, em voz alta: «Lembrai-vos das benditas almas; um Pai-Nosso e uma Avé-Maria!...»


Alminhas de "São Moisés" no sítio da Parvoíce (Ribeira, Ovar)

Em defesa do nosso património impõe-se o restauro desta pequena capela.
Era ainda velha devoção deste povo sentarem-se as pessoas às portas das suas casas e, ao cair da tarde, rezarem em comum o terço ou a coroa seráfica.
Fiquei sem o calor e o carinho de mãe aos sete anos.
Amaram-me e educaram-me duas virtuosas primas. Deram-me o amor de mãe. Para elas eu era a luz dos seus olhos.
Já adiantadas da idade, aí pelos meus vinte anos, disseram-me, um dia, sorridentes e amorosas:
– Olha, meu filho, estamos velhinhas, à espera que Deus nos chame. Não queremos o nosso funeral com pompas nenhumas, mas simples. Queremos somente ir amortalhadas com o nosso hábito de Irmãs Terceiras, que somos, e nos coloques nas mãos uma açucena.
Triste por ouvir estas palavras, perguntei-lhes:
– Porque quereis a açucena?
– Olha, meu filho, é o símbolo da nossa pureza.

Santas almas! Escrupulosas, sem pompas nem censuras a ninguém. Sempre ocultas numa humildade profunda e numa fé operante e sólida.
Do vosso exemplo, das vossas virtudes, da vossa educação, que me destes, algo ficou para mim.
Creio que estais em descanso, esperando a última vinda gloriosa de Jesus.

Domingo in Albis de 1984

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Novembro de 1995)

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