1.10.09

D. Maria José Vinga – A Mulher, a Mãe, a Poetisa

Jornal JOÃO SEMANA (15/06/1979)
TEXTO: Manuel António Costa (Manuel Ramos Costa)

Com quase oito décadas de existência, D. Maria José Vinga [na foto] é uma jovem! Jovem de espírito que o tempo remoçou e amadureceu. O corpo, esse, sofre transformações naturais com o avanço da idade, deixando-se moldar pelas mãos de diamante da vida: as rugas nascem, mais vincadas quando as privações, as lutas, os sacrifícios, as abnegações e as lágrimas são pródigas no “existir”; as mãos alcançam a serenidade merecida; o corpo é suspiro, ponjé, e o olhar projecta-se com maior intensidade na distância, em busca de imagens queridas… O passado surge nesse magnífico ecran – a memória – num deslizar de cisnes, numa noite ensopada de luar…
Conversadora, amante da poesia e da palavra, radicada numa fé que sempre soube colocar na testeira da sua batalha, devota de Nossa Senhora, espirituosa e dedicada, D. Maria José Vinga é exemplo humilde de Mulher que um dia foi Mãe e hoje é Avó…


Nasceu em 30 de Abril de 1889, em Ovar, na actual Travessa Camilo Castelo Branco, onde ainda reside. É filha de Albina Lopes Vinga e de Manuel dos Santos Maia.
Entre 1913 e 1918 frequentou o Colégio Feminino Júlio Dinis, que funcionava, nessa altura, no prédio que hoje é propriedade da Família Lamy (na Rua Coronel Galhardo), onde, entre muitas coisas, aprendeu a tocar bandolim, tendo sido seu mestre Artur Benjamim (Artur Nábia, como também era conhecido). António Dias Simões foi seu mestre de piano. Impaciente e irónico, dizia, por vezes, a esta sua aluna: “– Pois é, pois é, Maria José! Música com baba, latim com barba!”
Casou, aos 20 anos, com David José Martins. Desta união nasceu uma prole de nove lírios, maravilhosa plêiade que foi sendo enlutada pela morte de cinco filhos.
Espontânea no falar, abraça qualquer assunto com seriedade amena e sorrisos vivos de quem sabe o que diz, o que quer e o que pretende ensinar, sem a severidade, a crueza, o choque ou o pessimismo com que muitos encaram o mundo. É peremptória, por vezes, nas suas convicções, e contrária a certos “modernismos”.
Muito procurada por pessoas da terceira-idade e por outras mais jovens, que nela encontram um ombro amigo e dela colhem momentos agradáveis de diálogo em que a poesia penetra quase sempre, a estreitar uma amizade encantadora, D. Maria José Vinga vai deixando um rasto transparente de amor ao próximo, rasto que um dia não será somente saudade, mas “palavra de comando a imitar”…
Notei ainda uma particularidade muito importante no seu modo de dizer poesia: fá-lo com o mesmo cuidado, com o mesmo carinho que um músico põe quando defronta uma pauta…
Convidou-me a sentar ao seu lado, com a cordialidade, simpatia e confiança de quem já esperava uma visita amiga ou um familiar querido há muito ausente. E, de facto, foi um amigo que a procurou – "João Semana" –, quinzenário que muito deve à família desta nossa conterrânea desde os tempos da sua fundação.
É através de "João Semana" e do nosso homólogo "Notícias de Ovar" que os caros leitores afectos às musas poderão encontrar muito daquilo que saboreámos no diálogo travado com ela. Os seus poemas são autênticos laços de amizade, de amor, de beleza, ou apelos profundos à vida sã, imparcial e partilhada, ou ainda breves referências às coisas e aos animais, que D. Maria José Vinga observa e acarinha no seu quintal, em sua casa, na rua, na natureza, em todo o lado por onde passe.
E quando a dor e a doença mora portas adentro do seu próximo, D. Maria José Vinga, num gesto simples e meritório, leva o antibiótico saudável que alivia e faz renascer a esperança – um poema!
Admirável cultora da Fé e da Esperança, é também um coração leal, acolhedor…Sabem-no as crianças, a quem D. Maria José Vinga dedica muitas horas a ensinar a palavra de Deus, num rasgo de humildade e paciência. E até na catequese D. Maria José não deixa de ser a poetisa sonhadora e agradável!
Sentimental, crente, generosa, activa e afecta à música, vemo-la, incansável e calorosa, a participar em Grupos Corais…


D. Maria José Vinga (x) em confraternização com o Pároco de Ovar
e colegas do Grupo Coral do Santíssimo, em 1977
A um canto da salinha-de-visitas, asseada e decorada com muito bom gosto, descansa o seu piano…Imaginamos, então, os momentos que D. Maria José ali passa sentada, tocando belas melodias que o seu coração sonhador e sensível inventa e recorda.
Música e Poesia, irmãs inseparáveis que partilham com D. Maria José o silêncio, a quietude, as réstias de sol, o luar e o fulgor das estrelas, em longos instantes de inspiração…

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de junho de 1976)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2009/10/d-maria-jose-vinga-mulher-mae-poetisa.html

Nota: Maria José Lopes Vinga nasceu em 1899, filha de Manuel dos Santos Maia e de Albina de Jesus Lopes Vinga (1863-1943); neta materna de António Domingos Pedroso e de Rosa Lopes Vinga (1826-1905); bisneta de José Lopes Vinga, escrivão do monteiro-mor, e de Joana Rodrigues (casados em 1819), trineta de António Rodrigues Vinga (e de Maria de Oliveira Netto) casados em 1785); tetraneta de Luís Rodrigues Lopes (Vinga) falecido em 1770) e de Maria de Oliveira de Pinho; pentaneta de João Rodrigues Lopes (Vinga) e de Maria André de Oliveira (casados em 1720), e hexaneta de Diogo Lopes e de Maria Rodrigues.
Era 1.ª sobrinha do P.e Francisco Pedroso Lopes Vinga (1859-1909), e 2.ª sobrinha do P.e António Lopes Vinga (1789-1854), que foi vigário de Ovar (1853-54) e do P.e Francisco Correia Dias (ou P.e Francisco Lopes Vinga) tido como a figura modelo do reitor de “As Pupilas do Senhor Reitor” (1867), de Júlio Dinis. Maria José Lopes Vinga (1899-1985) casou, em 1919, com David José Martins (1898-1971), comerciante, de quem teve os seguintes filhos: eng. Amarildo Gracilino V. M. (1939), dr. Américo V. M. (1933), eng. David Martins L. V. (1924-1949), dr. Francisco Augusto M. L. V. (1922-1994), Manuel Hernâni M. L. V. (1929) e alferes aviador Salviano M. L. V. (1925-1951).Dados fornecidos pelo dr. Américo Vinga Martins ao dr. Alberto S. Lamy (“Monografia de Ovar”, 1.º Volume, 2001).

Maria José Lopes Vinga foi colaboradora literária do "Almanaque de Ovar" (1917 e 1918), do "João Semana" e de outras publicações. Faleceu em 3 de Agosto de 1985, em Ovar (Travessa da Rua Camilo Castelo Branco).

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