1.9.09

O Carregal no início do século XX - Os mercantéis de Sardinha

Jornal JOÃO SEMANA (01/01/2005)

TEXTO: José de Oliveira Neves

Ao consultar documentos antigos dos meus antepassados, encontrei um, escrito pelo punho de meu avô materno, que dizia: – “Recebi-me no dia 19 de Maio de 1907 e, em Dezembro de 1908, comprei um palheiro no Carregal, por 30 000 reis”.Achei muita graça à forma como se referia ao seu casamento, empregando o termo “recebi-me”. Mas o que me despertou maior interesse neste achado foi o ter-me proporcionado lembrar conversas havidas com ele, na minha adolescência, a respeito do Carregal do início do século XX, conversas que, não sendo toda a história deste típico lugar da nossa terra naquela época, devem ficar escritas para não se perderem no tempo.
Dizia ele que, em 1908, o local era quase deserto, não fora haver aqui e além algumas casas de lavradores, junto das terras de cultivo, e os palheiros dos mercantéis, no lado sul, onde se preparava a sardinha, perto do cais que, nesse tempo, era muito importante pelo movimento que possuía.
Moderna Capela do Carregal, que tem por Padroeiro São Pedro,
 titular das antigas alminhas do lugar, propriedade paroquial
A norte, e até às dunas, estendia-se um vasto manto de verdura de pinheiros e eucaliptos pertencente à Mata Municipal, o qual, por volta de 1893, começou a ser vendido em talhões pelo sistema de aforo. (Vi um documento de compra de um destes talhões por 10 000 reis, pagos em prestações, mas possivelmente o preço deveria variar consoante a dimensão e o local onde se situavam.)
Pelo meio, a separar o Carregal do Norte do do Sul, já passava a actual Estrada do Furadouro, cujo segundo lanço foi concluído por volta de 1870-71 no antigo caminho do mar.
Foi no Carregal do Sul, junto ao cais, que no princípio do séc. XX se desenvolveu uma actividade comercial ligada ao negócio da sardinha, que vinha através da Ria, transportada em barcos, procedente da praia da Torreira e de outras praias vizinhas, sendo negociada ainda dentro dos barcos, e de lá transportada directamente para os armazéns que os mercantéis possuíam no Carregal, onde a salgavam e a preparavam de forma a poder seguir para o Douro e outros pontos do país.
Foi esta a razão que levou meu avô a comprar o dito palheiro em 1908, onde iniciou a sua actividade de mercantel de sardinha que, mais tarde, desenvolveu no Furadouro e em Matosinhos.
Alguns fabricantes de barricas tiveram também as suas oficinas no Carregal, para melhor e mais rapidamente poderem servir os seus clientes.
Nos anos 40, ainda conheci, em ruínas, alguns desses palheiros-armazéns dos mercantéis, mais ou menos onde se encontra actualmente a Capela. O do meu avô ficava na rua que passa entre as Alminhas do Carregal e as traseiras do restaurante “O Ângelo” (antiga loja do Jerónimo), tendo eu ainda visto as dornas de salgar o peixe e outros apetrechos usados nessa arte.
O cais, que hoje se apresenta muito degradado e inavegável, ainda apresentava, nos anos 40 e 50, muito movimento, especialmente com barcos moliceiros, que nas festas do Torrão de Lameiro e do São Paio da Torreira se engalanavam com bandeiras nas suas velas, prontos a transportar os forasteiros pela Ria, a que davam um aspecto festivo e um colorido muito bonito.
O cais do sul do Carregal, hoje degradado, foi importante no início do
 séc. XX, com o negócio da sardinha e a fabricação de barricas
O pequeno ribeiro que, vindo do Carregal do Norte, ainda hoje vai correndo por ali, embora muito poluído, era, nesse tempo, de águas límpidas, abundantes de enguias e pimpões. Na margem esquerda do seu curso, em direcção à Ria, e já perto dela, havia umas bicas de onde corria uma água pura, tão fresca e tão boa para beber que alguns residentes daquele sítio lhe chamavam “águas carregalinas”, em alusão àquelas que brotam nas termas.
Tinham razão os nossos antepassados do Carregal quanto à pureza de água, uma vez que, depois de vários estudos feitos, foi na Zona Norte daquele lugar que se fizeram os furos artesianos donde provém o precioso líquido que fornece a nossa cidade a partir de 24 de Junho de 1966, data da inauguração oficial daquele sistema de abastecimento.
Quem nasceu na segunda metade do século passado, a até algumas pessoas da minha geração, quando visitam aquele lugar, actualmente embelezado com bancos de jardim e árvores frondosas – um encantador recanto turístico da nossa terra, se não tiverem um avô, como eu tive, para lhe contar histórias, não faz a mínima ideia do que por ali se viveu há muitas dezenas de anos.

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Janeiro de 2005)

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