1.2.10

Figuras Populares – O "Augusto Regadinho"

Jornal JOÃO SEMANA (15/1/2007)

TEXTO: Orlando Caió

Para uns era Augusto Mijão. Para outros era o Regadinho. Nada, porém, mais errado, porque o seu verdadeiro nome era, apenas, Agostinho da Silva, nascido em Ovar, na Travessa Dr. José Falcão, a 4 de Outubro de 1910, filho de pai incógnito e de Mécia da Silva Vitória, solteira, natural de Ovar, onde residia. O Agostinho era um mendigo que conheci nos anos 50 do século passado, inveterado fumador de cachimbo, com notória dificuldade em se expressar.


Nesta foto, tirada em finais da década de 1960, vemos o "Regadinho" segurando na mão direita o típico cachimbo com boquilha feita duma cana, e junto aos pés a saca das esmolas onde guardava os bocados de pão que lhe davam

Nas décadas de 1950 e 1960, tinha como paradeiro habitual a soleira da porta da mercearia do Teixeira, na Praça da República, e o passeio da Loja do Ti Zé Rico, na rua Dr. Manuel Arala, junto ao Jardim dos Campos, no mesmo local onde a conhecida Ti Glória vendia fruta e castanhas assadas.
No passeio da referida loja paravam também outras figuras típicas, como o Pimpão, o Rei do Álcool, o Ze Luta e o Piquica. Por esse tempo, à sexta-feira, era frequente vermos o Agostinho, com a saca das esmolas numa mão e o cachimbo na outra, dirigir-se para a casa do “cantinho”, como então era conhecido pelos mendigos o edifício n.º 24 da rua Marquês de Pombal. Chegava à porta, rezava em tom alto uma prece e, poucos minutos depois, recebia a respectiva esmola, oferecida pela dona da casa.
Sobre esta pacata figura típica conta-se que os conhecidos médicos Dr. Afonso e Dr. Esperança, quando adquiriam um cachimbo novo, entregavam-no, sem boquilha, ao Agostinho, para este fazer a necessária “rodagem” durante uma semana, até sair o cheiro e o sabor da madeira. Após esse período de tempo, o cachimbo era devolvido ao respectivo dono. Mas o Agostinho não tinha o prazer de fumar tabaco próprio de cachimbo, pois era frequente vê-lo apanhar pontas de cigarro do chão, as quais, depois de retirado o papel, introduzia no cachimbo.
Em finais da década de 1960, Agostinho da Silva foi internado compulsivamente no Albergue Distrital de Aveiro, onde acabou os seus dias, falecendo às 22 horas do dia 1 de Março de 1974, com 63 anos de idade.

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Janeiro de 2007)

Sem comentários: